Cobra
De noite, subi com o Sorriso até a laje da boca. O morro visto de cima era um espetáculo, a luz da comunidade pulsava como se cara beco tivesse vida. Sentei com as pernas abertas no beiral e entreguei um cigarro pro garoto.
— Como foi lá? — ele perguntou, sem rodeio.
— Tranquilo. Ela se saiu bem. — Falei a verdade.
— Percebi ela meio pensativa desde que voltou. Acha que engana fácil, mas eu sei bem quando alguma coisa ta incomodando ela.
— Seja o que for, não vai muito longe. Ninguém vai tocar nela, não enquanto eu estiver aqui. — Falei olhando pra ele e dei um trago no cigarro passando pra ele outra vez.
Sorriso deu um meio sorriso e concordou. — O L7 perguntou se você ia precisar dele amanhã la na curva da escola.
— Vai. — Eu olhei pro beco lá embaixo. — E você fica de olho no rádio.
Ele decorou, como sempre. — E se eu disser que... — Ele parou. — Deixa quieto.
— Fala.
— Ela tá se arriscando muito. — A voz dele veio baixa. — Eu sei que é o jogo do crime. Eu sei que é o que tem. Mas... eu não perdoo ninguém que encostar nela.
— Nem eu. — E nisso, a gente concorda. — E ela pode ir até onde achar que deve, nos ta aqui pra segurar qualquer parada.
O L7 apareceu no alto da escada de ferro, tímido até pra subir. Eu quis rir da forma que ele parou um passo atrás do Sorriso, como se aquele espaço fosse uma zona segura.
— Chefe. — L7 me cumprimentou. — Tudo alinhado lá embaixo. A mina fofoqueira já tá no papo, não vai abrir o bico.
— Boa. — Fiz que sim. — Senta aí.
Ele sentou ao lado do Sorriso, ombro quase encostando. Quase.
Os dois começaram a falar baixo sobre um jogo que eu não acompanho, e por um minuto eu esqueci que do mundo a minha volta, só curtindo a brisa boa que tava batendo.
O celular vibrou na minha mão me tirando do transe. Era uma mensagem de número desconhecido: "Coleta amanhã. Equipe nova. Sem atraso." Era o Perigo. Eu respondi com o combinado e guardei o aparelho.
— Amanhã cedo — eu disse pros dois — a gente vai ter visita. Estejam preparados, avisa os de confiança.
— Nasci pronto patrão. — Sorriso riu.
— Traz colete. — Eu olhei pro L7. — E para de olhar pro Sorriso como se ele fosse o pôr do sol. Vai queimar a vista.
Ele tossiu, sem graça. Eu deixei escapar uma risada escapar e desci.
Cheguei em casa tarde, botei o celular no modo que só toca se for "código vermelho". Entrei no chuveiro e não demorou para a imagem de Helena se formar na minha mente, eu estava obcecado por aquela mulher. Não tinha como não ficar, ela chegou do nada e mudou tudo sem nem fazer esforço, tomou conta do espaço e me adestrou nem nunca, nem ter me beijado. É foda esse papo, gosto nem de dar corda pra esses pensamentos.
Me joguei na cama e apaguei imaginando como seria ter ela nos meus braços, ter ela por inteiro...
Quando amanheceu, eu já tava de pé. Passei no galpão antes e deixei dois coletes dobrados na cadeira da entrada. Sorriso viu e entendeu — Eles chegaram. — Ele avisou no rádio.
Eu puxei o boné, ajustei o corpo como quem vira sombra e fiquei no ponto onde eu sempre fico quando o morro precisa de mim: um lugar que não aparece na vista, mas aparece no resultado. A equipe do Perigo subiu sem fazer barulho: carro comum, 2 casais bem arrumados e malas de viagem. Bom.
...
Helena
No dia seguinte, quando abri a porta da cozinha, já estava tudo limpo e organizado pronto para iniciar os trabalhos do dia. Naldinha estava com o cabelo num coque preso tão forte que os olhos estavam até meio puxados, Pipa lavava a mão na pia ao lado como se fosse para fazer cirurgia. Eles estavam se empenhando.
Fiz todo o procedimento e coloquei as luvas, amarrei o avental e fui para o meu posto. O barulho do selo da porta soou como um estalo firme.
— Bom dia. — Falei.
— Bom dia. — Eles responderam, e começamos.
Repeti o mesmo ritual de sempre. Materiais, pesagem, mistura, descanso, filtração, secagem. Pipa leu os números e eu ouvi confirmando. Naldinha mudou bandejas de lugar sem derrubar um grão. E quando a batida leve ecoou do lado de fora — uma batida só — eu já sabia que a visita tinha chegado.
Sorriso apareceu na fresta, sem entrar.
— Equipe de coleta. — Ele disse, apenas.
— Uma hora atrasados — Eu respondi e ele deu de ombros fechando a porta.
Peguei o frasco da micro assinatura e, com a delicadeza, coloquei um pouco sobre o lote.
Fechei as caixas e os meninos entraram pelos fundos para felar até o galpão ali ao lado. Quatro caras entraram no galpão principal. Ninguém olhou pra mim como olham no bar. Olharam como se eu fosse parte do equipamento. Ótimo!
O chefe deles — não o Perigo, mas alguém treinado por ele — conferiu o peso, viu a nota fria, assentiu. Eu mantive a cara fechada de quem não precisa de confirmação.
— Próxima semana, mesma hora. — Ele falou.
— Se vocês chegarem na hora. — Eu corrigi. — Senão, não tem produto.
Ele me olhou, medindo, e sorriu curto. Deu de ombros.
— Isso vocês resolvem com o chefe.— ele chegou mais perto e mexeu nos bolsos. — Inclusive, ele mandou te entregar isso...
Quando ele abriu a mão, tinha um doce ali. Um pirulito de morango em formato de coração. Meu sangue virou gelo e eu travei por um momento.
Foi quando um estalo de ferro caindo me fez acordar.
— Ele não é meu chefe. — respondi seco e descruzei os braços e bati na mão dele jogando o doce no chão. — Sem atrasos, ou nada de mercadoria. Aqui não é a sua favela, isso não é bagunça.
O rapaz olhou pro Cobra que só virou o rosto sem dar ideia. Então ele me olhou de cima a baixo e se virou sem falar mais nada.
Quando eles foram embora, Sorriso encostou no meu ombro me deu uma piscadinha. O L7 estava um passo atrás, como sempre.
— Tá redondo. — Sorriso disse se referindo ao pagamento que estavam conferindo.
— Então bora continuar. — Eu respondi, voltando pro meu lugar. Sai dali pisando no pirulito com toda a minha força.
Peguei a espátula e deixei a cozinha respirar comigo. Lá fora, o morro gritava. Aqui dentro, era só o meu silêncio. E por hoje, isso era suficiente.
.
.
OBS-Estou procurando leitoras Beta para me dar uma ajudinha com essa e outras histórias.
Alguém interessada?
Deixa aqui seu número que vou te chamar.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Mente Criminosa
Fanfiction🎶Redescobrindo meu eu, eu perguntei para Deus Porque me deu o livre arbítrio de escolher o que é meu Porque o senhor me escolheu? Se quem tinha que escolher era eu Se carregava ou não o fardo de ter que ser um dos seus Não sou rosa, não sou pura Nã...
