Helena
Acordei antes do sol atravessar minha janela. O Morro do Alemão tem um relógio próprio, moto ronca cinco e meia, rádio liga em volume de baile às sete, cachorro late por sombra no portão e a criançada correndo e gritando nas ruas indo pra aula. Coloquei água pra ferver, encostei a testa no azulejo frio e deixei o corpo lembrar do que viveu na noite anterior: risadas altas, uísque, olhos que pesavam em cima de mim tentando medir minha coragem ou valor.
A palavra "joia" saiu da boca do Perigo e ficou me tilintando por dentro. Não sou uma joia. Sou uma ferramenta. Sou a mão que fabrica, mexe, pesa, embala e distribui.
Senti o gosto seco ainda na língua. Vesti uma calça de moletom, prendi o cabelo num coque alto e peguei o caderno de capa preta onde eu rabisco tudo: proporções, margens de erro, novas ideias. Rodei a caneta na ponta do dedo. O contrato de cento e cinquenta quilos por semana parecia grande demais quando o número ficava solto no ar; no meu papel, ele se quebrava em ciclos, turnos, micro tarefas...
Eu precisava de gente. Gente que seguisse instrução, mão firme, e acima de tudo silêncio.
— Tu já tá de pé, mulher? — Sorriso entrou pela cozinha sem bater, como sempre. O boné torto, a camiseta do time, e o sorriso de quem só quer me ver viva. Ele pegou a chaleira das minhas mãos. — Senta.
— Não manda em mim, não. — Sorri por dentro e sentei mesmo assim. — Preciso falar contigo.
Ele me olhou daquele jeito ligado. Ele sempre me escuta como se guardar o que eu digo fosse o trabalho mais importante do mundo.
— A demanda vai subir. Cento e cinquenta por semana. Eu vou montar turno. Quero duas pessoas comigo no laboratório, mas preciso de você... — olhei bem pra ele — você fica no perímetro, logística. Eu só não te quero mexendo em nada lá dentro.
— Se for pra te proteger, eu mexo. — Ele apoiou os cotovelos na mesa. — O Cobra já me falou do fluxo, das vans, do rodízio de entrega. Eu fico onde você mandar, mas não se esquece que eu também faço parte disso.
— Eu não esqueço. — Apontei pra ele com a caneta. — Por isso é você que vai cuidar da porta. Nada entra, nada sai, sem você saber. E me traz o L7 hoje à tarde.
A cara dele abriu num sorriso fácil.
— O Lucas? Acho que vai ser bom ter ele por perto. — Ele coçou a nuca. — O moleque é ligeiro. Sabe ver movimento antes de acontecer.
— Então serve. — Bati a caneta na mesa. — E ele vai entender que ali dentro é outro mundo. Não olha, não pergunta, nem respira alto.
— Ele é cria, sabe como funciona. — Sorriso disse rápido.
Abri meu caderno e desenhei. Aonde vai a matéria-prima, onde fica o controle, qual a ordem de lavagem das vidrarias, rotação de filtros, tempo de secagem, barreira de contaminação.
— E mais uma coisa — falei. — Ninguém chama aquilo de laboratório. Ninguém fala "fórmula". É cozinha. E o resto é apelido de cozinha. Entenderam? Se alguém repetir o que ouviu e sair daqui, acabou.
— Fechou, Chef. — Ele bateu continência, brincando, e eu joguei uma bolinha de papel nele.
Eu não disse a ele, mas a lembrança do Perigo não me deixava. O homem ficou grudado em nós o tempo todo, praticamente me secando enquanto puxava o saco do Cobra. Eu tentei ser curta nas respostas e deixava o Cobra falar, e mesmo assim ele insistia em me manter perto. E isso me incomodou demais.
À tarde, desci a viela até a casa da Dona Laura. Ela cuida de três netos que a filha abandonou e vende a melhor quentinha do Alemão. Filha de cozinheira aprendeu desde cedo a olhar o fogo, e já tinha trabalhado com o antigo chefe. Conversei com ela, apontei algumas melhorias que estava fazendo, ofereci um bom dinheiro e expliquei que era pra cozinhar ainda. Nada de falar sobre outras coisas com pessoas de fora da casa.
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Mente Criminosa
Fanfiction🎶Redescobrindo meu eu, eu perguntei para Deus Porque me deu o livre arbítrio de escolher o que é meu Porque o senhor me escolheu? Se quem tinha que escolher era eu Se carregava ou não o fardo de ter que ser um dos seus Não sou rosa, não sou pura Nã...
