30°

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Ali on:
Amanhã faz uma semana que o Léo está em coma. Hoje é sexta-feira e a semana foi, basicamente, uma merda.

Tá ligado quando uma pessoa é, realmente, o centro das atenções num lugar, e sem ela aquele lugar é uma merda? Pois é, isso que o Leonardo é aqui. Nada de interessante/importante aconteceu. N-A-D-A.

Eu, basicamente, ia pra sala de aula, almoçava, trocava de roupa, ia pro hospital, voltava, passava a tarde com o mesmo pesamento de domingo, dormia. E tudo de novo. Ah, não posso esquecer: eu choro praticamente todas as noites. Tudo num looping, que parecia ser infinito.

Neste momento, são 5:23pm e eu estou arrumando uma mochila pra passar a noite no hospital. Hoje dona Cris irá viajar com o seu Alex, à negócios. Então, me ofereci pra ficar com o Léo, é óbvio.

Coloquei na mochila duas mudas de roupa, carregador de celular, uma garrafinha de água e documento. Acho que não vou precisar de mais que isso.

Desço para a piscina, onde Diana me espera.

Ah, Anne já saiu do hospital, porém, praticamente, não pode nem se levantar.

Encontro Diih e vamos para o carro. Vamos quase o caminho em silêncio, tirando o som da música que tocava na rádio, não muito alta.

Não sei por que, mas tenho a leve impressão de que Diana tem se afastado de mim. Mas deve ser levado em consideração, o fato de que eu me afastei um pouco de todo mundo. A única coisa que eu tenho feito com eles é o almoço, e em total silêncio.

Chegamos no hospital, e dona Cris, como sempre, saiu para que Diana fosse ver ele, e em seguida eu fui.

Adentrei a sala, e da mesma forma que todos esses dias, ele estava lá. Com a perna enfaixada, sondas, fios e em um sono profundo. Isso era como morrer um pouco todos os dias.

Larguei a mochila na cadeira, que por acaso eu dormiria, e me aproximei do Léo.

Sorri ao imaginar como vai ser quando ele acordar. E também, lembrando como estava tudo dando certo. Espontaneamente o abracei. Foi uma abraço longo, sim. Fui obrigada a me separar dele por conta das lágrimas que ameaçavam descer.

Tirei algumas gotas que conseguiram descer, com a mão. Coloquei a mochila no chão e me sentei na poltrona. Digamos, que não é das mais confortáveis, mas da pro gasto. Fiquei fazendo vários nada no celular -e intercalando meu olhar entre ele e Léo-, até o médico chegar.

Médico: Alícia, certo? -perguntou adentrando o quarto, e eu afirmei com a cabeça- Sra. Mirrors me avisou que trocaria com você. -deu um sorriso simpático- Então, fizemos alguns exames com o Leonardo hoje, e bom, está tudo perfeitamente bem com ele. Fora o fato de ainda dormir, o que é bem estranho. Mas apesar disso, tudo indica que ele irá acordar em breve. -informou sorrindo.

Meu Deus. "Irá acordar em breve". Exatamente as palavras que precisava ouvir. Era o que eu precisava para minha esperança triplicar. Era o que eu precisava para confirmar o que eu ando sentindo desde o início. Que logo tudo vai ficar bem.

Ali: Sério? -perguntei incrédula, anestesiada, feliz e mais um monte de coisas.
Médico: Sim. Espero que saiba que fico feliz por ver ele se recuperando. -assenti e ele saiu.

Imediatamente peguei o celular. Primeiro liguei para dona Cris para dar a notícia. Em seguida, para Diih. Ela daria a notícia aos nossos amigos.

Uma enfermeira foi até o quarto verificar os batimentos, respiração e as sondas. Escutei ela soltando, quase que em um sussurro, um "como ele ainda está dormindo?". Ela como eu, como dona Cris, como Diih, como o médico, como nossos amigos e todos os outros, também estava incrédula com a situação.

Verifiquei as horas no celular. 7:56pm. Merda. Já tá escuro demais pra mim sair pra comer. Volto a mexer no celular. Vez que outra, alguma enfermeira aparecia no quarto para verificar a situação do Léo.

Já eram 11:30pm. E por milagre, já estava ficando com sono. Encostei a cabeça na "cama" em que Léo estava e instintivamente comecei a acariciar os cabelos pretos dele. Seus cabelos são excessivamente macios. Me pergunto, por que os meus não são assim?

Estava quase dormindo com as mãos nos cabelos do Leonardo, quando sinto algo vibrar no meu bolso. Meu celular. Desbloqueio e vejo pela barra de notificações o que é. SMS. Ué. Quem ainda usa SMS? Abro. E... Não acredito! Número privado.

CVS.ON:
Xxx: Oie, Alizinha. Tudo bem? Sei que não. Foi eu que fiz isso. Então, se você quer que fique tudo bem, sugiro que fique longe do Leonardo. Porque eu posso fazer pior, BEM pior. Boa noite.
CVS.OFF.

PORRA! CARALHO! Isso aqui não é série, pra ficar recebendo mensagem oculta, não! QUE MERDA! MERDA! MERDA! MERDA!

Respondo.

CVS.ON:
Ali: Olha aqui, querido (a). Essa porra não é Prety Little Liars, não. E eu não tenho tempo pra essas brincadeirinhas. Então, por favor, faça o favor, de se identificar. Só pra gente resolver isso de verdade.
CVS.OFF.

Ele não responde. Jogo o celular dentro da mochila e volto a encostar a cabeça perto de Léo. Fico mexendo nos cabelos dele, mas meu pensamento estava na mensagem.

A Bela E A Fera No InternatoOnde histórias criam vida. Descubra agora