Outro dia amanheceu, e quando olhei pela janela pude ver rastros de sol. Me levantei, como de costume, e fiquei a espera de alguém que pudesse abrir as portas para que eu saísse.
— Está um belo dia lá fora. – A enfermeira que me libera todos os dias diz.
Não digo nada, apenas saio daquele cubículo e deixo o prédio. Sentir o sol, por mais fraco que esteja, é reconfortante. Nunca senti tanto frio como nos dias que passaram, aquele cobertor de merda não é capaz de aquecer um corpo há uma temperatura tão baixa.
— Isabella – cumprimento.
Ela me olha de relance enquanto lava as mãos, não parece disposta a conversar, mas se vira para mim e cruza os braços.
— David falou comigo – confessa, baixo o suficiente para que ninguém nos ouça.
— E então?
O sorriso que se forma aos poucos em seus lábios é a minha resposta. Ele a convenceu.
— Perfeito! Temos um plano para daqui duas noites, o guarda já sabe o que tem que fazer – digo.
— E nós duas?
— Só precisamos esperar até anoitecer, ocorre uma troca de guardas no meio da noite, e por coincidência, na noite da fuga Waters estará de vigia. – Sorrio.
Ela morde o lábio e suspira, sonhadora. Sei muito bem o que está se passando pela sua cabeça. Não vai ser tão fácil quanto parece, mas preciso estar fora daqui o quanto antes.
— E Amalia? – Pergunto enquanto coloco creme dental em minha escova.
— Não quer. Tentei falar com ela, mas Amalia é uma garota muito medrosa.
Escovo os dentes pensando no que Isabella acabou de dizer, foi um erro ter contado sobre a fuga à Amalia, ela é visivelmente manipulável e frágil. Talvez se torne um problema.
Enxaguo a boca e lavo o rosto, me olhando no espelho por alguns segundos. Desligo a torneira e saio ao lado de Isabella, indo para o refeitório.
— O que acha de passar a manhã aqui no jardim? Vamos aproveitar o sol.
— Não – respondo, — tenho consulta com o doutor Gutierrez.
•••
Reparei que o psiquiatra está diferente hoje, ele parece irritado. Consigo perceber pela forma que balança os pés sob a mesa e como passa os olhos rápido demais pela folha de papel. Na minha antiga profissão, eu precisava saber tudo sobre leitura corporal. Eu era boa. Boa demais para o meu próprio bem.
— Está irritado – comento.
Não preciso mais fazer joguinhos com ele, em três dias estarei longe daqui.
Seus olhos pairam sobre mim, surpresos. Ele não espera que uma louca dê palpites sobre seu estado, creio eu.
— Pensei que eu é quem deveria fazer análises. – Se recosta em sua cadeira de couro.
— Você sugeriu que fôssemos amigos, amigos dividem os problemas. Se você pode saber tudo sobre a minha vida, por que não posso saber sobre a sua?
Ele franze a testa, ainda mais surpreso. É espantoso mesmo, e ele não sabe nem da metade, só consegue ver a ponta do iceberg.
— Além do mais – continuo, — eu não tenho como espalhar seus segredos, loucos não se importam com a vida alheia.
— E você se importa? – Revida de imediato.
Olho fixamente para ele, sabendo que consigo ganhar qualquer pessoa com isto.
— Eu não sou louca.
Minha voz saiu tão firme e profunda, que tenho a certeza absoluta de que o deixei com uma pulga atrás da orelha.
— Não? E o que você é?
— Não sou nada. Eu não sou nada além de uma...
Eu poderia me abrir, contar tudo e talvez... conseguir ajuda, uma mão que pudesse me segurar, mas ele era apenas um psiquiatra, não um confidente. Eu não podia confiar em ninguém, e se Jack Bailey o estivesse pagando para me ferrar aqui dentro?
— Além de uma? – Estreita os olhos.
— Eu não sou ninguém, doutor, não dê ouvidos a alguém que sofre de transtorno de personalidade, não estou algemada nesta cadeira a toa.
Disse aquilo disposta a fazê-lo me deixar de lado, mas o que vi em seus olhos foi totalmente o contrário: ele estava curioso. Eu estava agindo e falando como alguém que não sofre de nenhum problema mental, eu tinha conseguido convencê-lo de que tinha algo mais sem querer, não deveria ter feito isso. Agora ele quer saber além daquelas fichas, e sei disso porque, como eu, ele também sabe ler pessoas, e conseguiu ver muito além do que todos viam em mim.
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PSICÓTICA
Mystery / ThrillerPsicótica conta a história de uma mulher perturbada que teve como consequência a internação em um manicômio judiciário. O único psiquiatra da pequena cidade de pouco mais de dois mil habitantes, é Oliver Gutierrez, e ele terá a jovem psicótica como...