Chapter XXXII

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      Seus dedos percorriam por todo o teclado, digitando as palavras que melhor se encaixariam em uma situação formal: "Caro Doutor...". Fitando a tela; os reflexos das figuras surgiam reluzentes; as palavras iam sendo transcritas em seus olhos. Sentava-se em seu sofá alvo, um pouco escuro pela sombra da noite que invadia sua janela, a roupa preta confortavelmente larga, com o notebook prateado acima de seu colo, Taehyung escrevia um e-mail para seu médico: "... fico feliz em informar que...". O médico que poderia transformar sua vida – encontrava-se além de ansioso, porém, tendo a possibilidade de riscos; tinha conhecimento disso. Mas não permitiria pensamentos negativos o abater. Não. Com as costas um pouco curvadas, o texto apresentava a informação sobre a recuperação pós-cirurgia; era de preferência – e recomendação médica – que o paciente tenha alguém por perto, devido à experiencia anterior, para a recuperação mais "aprazível" – lembrava-se da palavra usada pelo doutor. Quando soube disso, antes, todavia, não havia ninguém importante o suficiente para tamanha responsabilidade; cogitava assim, porém, apenas até a alvorada daquele dia. Respondia, então, com tamanha alegria: "... Jungkook estará me acompanhando".

      Parou por um instante; o sorriso desfazia-se e matutava com a luz forte que escapava da tela, criando uma sombra à parede atrás de si; era preciso identificá-lo; contar quem era ele – Jungkook. Colocaria uma vírgula após o nome - e, então, após novamente -, escrevendo "..., meu namorado, ..." ou "..., um amigo de extraordinária convivência, ...". As duas opções pareciam válidas, obviamente uma sendo mais válida do que a outra – pois era a verdade -, mas – fitava o cursor piscar, em espera - e se o médico o entendesse de maneira errônea? E se existisse algo em seu âmago que o recuaria de cumprir sua função com excelência? Era um senhor, uma idade elevada, nacionalidade coreana, por isso, talvez, a mente não seja tão ampla quanto aparentava. Respirou fundo levando as mãos para atrás da cabeça, inclinando-se para trás - mas – cogitava encarando o teto –, não o interessa minha vida particular. De fato, não. Entretanto, era um pensamento ainda recorrente. O preconceito é real. Poucos podiam entendê-lo.

      Bufou – e continuou adicionando: "...Jungkook, um amigo de extraordinária convivência, estará me acompanhando.". Não ficara de todo triste; apenas omitiu um fato que, aconteça o que acontecer, era para a segurança dele. Não; ia além dele. Faria qualquer coisa para proteger Jungkook e sua felicidade. Terminava de escrever o documento e o releu detalhadamente, reparando se houvesse algum erro e consertando-o; chegando quase ao final, relia o como apresentou seu companheiro: - extraordinária convivência – as duas palavras martelavam em sua mente; tiraria algo de bom nisso. Ora, não era mentira; a convivência existia e, ora, era extraordinária – Lembrava-se de Jungkook, dos momentos que conseguia tirar um sorriso daquele rosto, e acabava rindo em sintonia; quando aparentava fraco, mas cedido à ajuda. Era, de fato, extraordinária. Singular. Portanto, não se preocupava com o expor daquilo que sentia somente para o mundo vê-los. Talvez, o mundo não era tão seguro assim – e, certamente, não era -. As pessoas certas hão aparecer no momento adequado. Agarraria a isso. Clicou em enviar.

      Ficou, em segundos, fitando a escuridão afrente, sobre o computador. O próximo passo – ditava em mente -; preciso comprar a passagem dele. E assim o fez. Simples e ligeiro, preenchendo os dados. Contudo, outra coisa o perturbava: como contaria tamanha notícia? Será que aceitaria ir? Deveria ter cogitado sobre antes de ter finalizado a compra; em certa medida, sim – rolava os olhos. Pôs o aparelho acima da mesinha afrente, ao lado dos papeis que se encontravam guardados à chave e esticou-se afastando o cansaço e a preguiça. Não funcionou, porém. De pé, agora, ligava as luzes da casa, irritando sua visão um pouco. Perambulava por lá, matutando como contaria para ele; imaginando como reagiria; como seria viajar para o centro do mundo, a grande Londres, com a pessoa que mais adora. Arrepiava-se ao pensar e sorria com a sensação. Chegava à cozinha e recordava-se da sua corpulência bem demarcada, dias atrás, tentando preparar o café, mexendo nos armários. Fitava a cafeteira ao canto – servia-se uma xícara sentindo o calor tocar a palma das mãos -, relembrava o cheiro que sentia quando aproximou por trás de Jungkook. Os detalhes eram importantes; retirava-se tomando um gole.

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