Não tenho a menor ideia de que horas são quando acordo. O quarto está ainda mais escuro, então presumo que já seja noite. Embaixo de mim sinto o colchão, mas não me lembro de ter conseguido chegar até a cama. Um cobertor jogado por cima do meu corpo me aquece, o que me faz acreditar que alguém esteve aqui.
Tento me sentar, mas a dor na lateral do meu corpo ainda não passou. Ela está mais forte e pulsa constantemente. A cada poucos minutos uma nova fisgada faz minhas entranhas se revirarem. É como se um anzol estivesse enfiado em minha barriga e alguém tentasse me levantar por ele. Continuo deitada, evitando me mexer, na esperança que a dor passe.
O medo de que algo possa estar errado com o bebê vai apossando de mim, enchendo meu coração de desespero. Preciso sair daqui e ir até um médico, preciso protegê-lo. Não posso deixar que nada aconteça com ele.
Minha cabeça volta a latejar. A dor é tão forte que consigo ouvir o som do sangue sendo bombeado pelo meu corpo.
Mais uma vez tento me levantar, inspirando e expirando lentamente. Com muito esforço, me sento na beirada da cama e impulsiono meu corpo para frente. Minhas pernas parecem gelatina e não dão conta de sustentar meu peso. Um baque oco ecoa pelo silêncio no momento em que meus joelhos encontram o chão.
Estou caída, de quatro, sobre o piso úmido e frio, reunindo forças para gritar por Giovanni quando o barulho de vozes e passos chama minha atenção.
Fico em silêncio, tentando entender o que está acontecendo. Por baixo da porta, vejo uma luz ser acesa e o quarto fica fracamente iluminado. Sombras se aproximam da porta e a maçaneta é girada algumas vezes. O baque, de algo se chocando contra a porta, me assusta no instante em que uma voz grossa diz:
- Abre essa merda agora.
- Você tem que entender que... - Giovanni tenta protestar.
- Não tenho que entender nada. - A voz masculina fala. - Você disse que me deixaria vê-la. Abre agora!
A porta se abre com um leve rangido e a luz do lado de fora ilumina o quarto, fazendo meus olhos doerem. Tampo o rosto com as mãos, tentando protegê-los da claridade enquanto os fecho rapidamente.
- Mas que merda?! - Uma voz conhecida rosna e alguém se aproxima de mim, me pegando desajeitadamente e me colocando na cama. - Helena? Helena, está tudo bem? O que você fez com ela?
- Nada! - Giovanni balbucia nervosamente. - Só estou tentando escondê-la, protegê-la...
- Largando-a em um quarto escuro, sozinha e sem comida ou água? Você é um imbecil ou o quê?
- C-cory? - Gaguejo ao reconhecer a voz. - É você? O q-que está...
- Shh... - Ele sussurra acariciando minha cabeça. - Vou te tirar daqui.
- Ela non pode sair. - Giovanni eleva a voz, quase gritando. - Estão atrás dela. Aqui ela está segura.
- Ela passou mal e esteve em um hospital, sabia? - Cory berra, totalmente descontrolado. - Acha que ficar aqui vai ser bom para a condição dela?
Giovanni se cala. Mesmo de olhos fechados consigo sentir a tensão no ar. Não tenho a menor ideia do que está acontecendo.
"Por quê Cory está aqui? Como ele conhece Giovanni? Por quê Romeo non apareceu ainda?"
Minha cabeça volta a doer, dessa vez latejando mais forte e as fisgadas na lateral do corpo rasgam minha barriga violentamente. Me encolho no colo de Cory e um gemido fraco escapa por minha boca.
- Está doendo... - Aperto a barriga com as mãos.
Cory se remexe debaixo do meu corpo, tentando pegar algo no bolso.
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Despedaçados [COMPLETO] - (Série Vespri Siciliani - LIVRO UM)
ChickLitÉ fato que as pessoas mudam ao decorrer da vida. Mudam de aparência, de gostos, de estilos, de modos. Mudam por fora e por dentro. Mas nem sempre as mudanças são boas. Muitas vezes elas despertam o que há de pior dentro de alguém. Helena DiFontana s...