Parte 01: Serendipidade

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1. Anglicismo que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente por acaso.

Algumas semanas depois...

As últimas semanas têm sido difíceis, mas nada impossível. Voltar para a Itália e discutir através de cartas com Celine me machucou bastante, principalmente quando me lembrava do que aconteceu entre nós...

Estava tentando retornar a rotina, só que de alguma forma a cidade se tornou mais solitária ainda. No entanto, não tenho ficado muito em casa como de costume, há uns sete dias mais ou menos realizei a seletiva a procura de um estagiário com os meus alunos, Pandora se destacou, o que não é nenhuma novidade. Temos passado muito tempo juntas nos arredores da universidade nos organizando para as exposições que realizaremos em breve no Japão, dei a ela a grande oportunidade de ter uma obra autoral sua entre as minhas e ao final, uma tela será feita por nós duas juntas.

-Por que sempre é a mesma pessoa nos seus quadros? - Pandora indagou caminhando do meu lado.

Havíamos acabado de sair da universidade, passamos horas e horas produzindo telas e mais telas, de alguma maneira a área verde do campus naquele dia deixou nossa criatividade à flor da pele, nem vimos o tempo passar. O céu havia escurecido vorazmente, como se a noite tivesse engolido de vez o sol, o bairro não estava tão agitado quanto nos outros dias, majoritariamente das lojas estavam fechadas e a de Giovanni era uma delas, nem mesmo aquela minúscula janela emperrada mostrava alguma luz ligada. Eram quase nove da noite, estávamos famintas e extremamente exaustas, a arte havia sugado nossas energias, mas eu me sentia viva e anestesiada, aquilo era incrível sem dúvidas. Minha barriga reclamava, ansiando para chegar em casa logo e preparar algo rápido e saboroso ao mesmo tempo, acompanhado por um bom vinho tinto e a presença ilustre de Inâcio que havia engordado e se tornado verdadeiramente uma bola de pêlos de cara arredondada após deixá-lo com a esposa do Giovanni.

Em meio aos meus passos atrapalhados fitei Pandora de esguelha, os cabelos ruivos feito uma abóbora balançavam incessantemente com o vento, alguns fios rebeldes se desenhavam nas suas bochechas grudados pelo suor que lhe escorria o rosto.

-É complicado. - Olhei para o outro lado da rua.

-É uma ex-namorada?

"Quem me dera, mas nem chegamos perto disso."

-E você, por que pinta o que pinta? - Respondi com uma pergunta.

-Tenho medo do mar. - Ela disse prendendo suas madeixas em um elástico.

Todos os quadros que vi dela retratavam o mar como um grande monstro pronto para atacar banhistas indefesos e engolir grandes navios. As cores utilizadas eram vibrantes, de alguma forma ela conseguia mesclar o extremo realismo ao extremo abstrato, deixando suas mensagens sempre bem explícitas, o que não eram obras que carregavam segredos como as minhas.

Pus minhas mãos dentro dos bolsos daquele sobretudo marrom que se aproximava de um tom camel delicado, encarando o caminho e sentindo a brisa bater na minha face, esfriando a ponta do meu nariz - a noite estava fresca e não gélida ao ponto de usar aquelas roupas aquecidas, no entanto, eu sentia muito frio independente. A cada movimento me aproximava mais do meu apartamento onde finalmente poderia descansar, já conseguia visualizar o conjunto de prédios que ficavam quase ao lado dele.

-Minha casa é logo ali. - Falei parando na frente dela. -Nos vemos semana que vem. Até!

Curvei em sua direção, deixando um beijo rápido e estalado na sua bochecha aveludada, Pandora retribuiu da mesma forma como de costume - já que era algo extremamente normal entre os italianos. Nos afastamos ambas com um sorriso forçado nos lábios e os olhos confusos sem saber para onde olhar.

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