1.Generosidade; preocupação com o lar; companheirismo.
A amabilidade do meu pai era tanta e eu gostava desse jeito de pai babão que carregava como traço da sua personalidade consigo. Naquele dia mesmo insegura, consegui esquecer a pressão de estar entre aquelas crianças todas sentadas em cadeiras duras de madeira viradas para um quadro, a carta do meu pai permaneceu no meu bolso até meu último dia na faculdade e mesmo sem que ele soubesse eu encontrava forças nele. Era incrível o que esse papel surrado me despertava mesmo com tantos anos o manuseando, parei de levá-lo comigo para os lugares quando pensei ter perdido ele, mas de alguma forma Inácio o encontrou e guardou, deveria ser tão importante para ele quanto para mim.
O dobrei novamente e enfiei dentro do bolso da minha camisa com cuidado. Eu realmente estava tentando seguir em frente ao mesmo tempo que sentia a mesma dor todos os dias como se tivesse sido hoje, como se ele houvesse saído horas atrás por aquela porta e não tivesse voltado mais. Lembro nitidamente de sair do banho ao escutar o tinido do telefone, eu fui sem preocupações, já que era normal meu pai me telefonar dizendo que havia esquecido algo em casa, mas nesse dia foi diferente... Não era o Inácio do outro lado da linha. Era uma voz feminina desconhecida e aguda. Um grito alto e doloroso fugiu dos meus pulmões e arranhou minhas cordas vocais após aquela ligação. As lágrimas não hesitaram em vazar dos meus olhos e as minhas pernas sucumbiram à gravidade, me fazendo cair no chão. Eu chamava por Inácio com a voz rouca e sufocada pelo choro, perdendo aos poucos o ar e sem acreditar no que havia acabado de ouvir. E eu o odiei naquele momento por morrer, fui egoísta, eu sei, mas o odiei como se fosse previsível ou como se ele já soubesse e não tivesse me preparado para esse dia. O telefone continuou ligado, desprendido do gancho e balançando quase tocando o chão, os ruídos cortados da voz da paramédica chegavam aos meus ouvidos como zumbidos de abelhas.
Eu não consegui ver o corpo dele. Não tive forças para organizar o enterro... Não consegui sair de casa. Outras pessoas tiveram que fazer isso por mim, o meu apartamento sempre estava cheio depois que ele se foi. Os amigos de Inácio queriam ser prestativos e me dar apoio, no entanto, eu não escutava nada do que eles falavam, parecia que eu havia morrido e era apenas uma alma penada vagando sem rumo pelas ruas da Terra sem objetivo algum. A comida era sem gosto, a noite era um pesadelo e dormir era um privilégio que indicava que eu havia ultrapassado meu ápice de exaustão extrema. Eu não sentia fome, nem frio, nem calor. Acordava assustada no meio da noite berrando o nome dele e chorando em desespero, para me acalmar ia deitar em frente à porta do quarto dele, como se meu pai ainda estivesse ali, apenas descansando. Era péssimo acordar na manhã seguinte e a casa não ter mais o cheiro dele... Parecia uma caixa vazia e triste. Eu não comia, não bebia água e o chuveiro havia se tornado um inimigo cruel. O telefone eu quebrei jogando-o na parede, não aguentava mais escutar as lamentações e os pêsames de terceiros.
A cerimônia de despedida foi organizada por Antonella, a minha ex-terapeuta e melhor amiga de papai, ela foi a única que me deixou em paz nesse período e resolveu tudo o que eu naquele momento não conseguia. Haviam muitas pessoas no velório do Inácio, foi o que me disseram, já que eu fiz questão de não participar. Mas fui até o cemitério, fui fazer companhia para ele que odiava ficar só e amava me ter do seu lado. Eu estava atrasada, porém meu pai nunca se importou com horários, tenho certeza que ele só queria que eu fosse. Mesmo debaixo daquela chuva grossa sentei na lápide e o disse assim como fazia em vida o quanto o amava... Eu odiava ter te perdido de maneira tão repentina e me odiava ainda mais por não te ter mais aqui.
-Aurora!
-Oi - respondi me afastando daquelas recordações.
-Vai querer suco? - Pierre perguntou com a cabeça para dentro do cômodo com uma feição preocupada. -Eu acabei de fazer, é de pêssego.
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ENTRE NÓS| ⚢
RomanceUma série de cartas destinadas ao primeiro grande amor de Aurora. Cartas de amor, angústia, ira, boas e más lembranças. Seria o amor o único elemento capaz de sustentar relações? Seria o amor uma substância atemporal e isenta de interferências caus...
