Capítulo 7

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       Edward notou as olheiras debaixo dos meus olhos. Tive pesadelos, alucinações e pensei ter ouvido coisas, que se tornavam cada vez maiores, fazendo com que eu sentisse medo o bastante para ficar de patrulha em minha própria cama.
        Conforme andava, minha cabeça parecia estar sendo martelada por dentro. Eu sentia uma vontade imensa de voltar para casa, mas se fizesse isso, acabaria enlouquecendo. 
        Edward permaneceu em silêncio,  talvez adivinhando meu estado pela minha expressão. Assim que chegamos na escola, meu estômago se revirou ao ver Samuel de longe.
        Marcus se aproximou e ficou ao meu outro lado, como se fosse um segurança protegendo uma patroa. Olhei nos arredores, a procura de Amanda, mas não a vi em lugar algum. 
        — Onde Amanda está? — perguntei baixinho.
         Edward e Marcus dividiram olhares desconfortáveis.
       — Amanda está presa em casa, os pais dela disseram que essa semana será para purificação do corpo — respondeu Edward. 
       — Querem que ela se torne uma santificada — Marcus continuou.
       Meu sangue ferveu, porém, não havia nada que eu pudesse fazer. O que deveria pensar? Explodir a porta de sua casa e resgatá-la?
       Respirei fundo e continuei andando, havia uma coisa que eu queria na escola, e precisava logo. Marcus me contou que existia um livro com táticas interessantes de combate, porém, só tem uma cópia na biblioteca da escola em um espaço privado para professores, e meu amigo o queria, seria o preço para me ensinar a lutar.
        Eu tenho que pegar.

No meio da aula, dei um jeito de sair e me dirigi à biblioteca. Entrei devagar e silenciosamente, ou a bibliotecária faria o favor de me expulsar.
       Escondida atrás das prateleiras, avancei sorrateiramente para o espaço privado dos professores, que estava totalmente vazio.  
       Prateleiras de vidro se estendiam por cerca de cinquenta metros. Livro com capa verde de couro. Dissera Marcus.
        De fato havia um livro igual ao da descrição dele, entretanto, bem no alto, dentro de uma caixa feita de vidro.
         Olhei de um lado ao outro, mas não encontrei a bibliotecária. Meu coração se apertou, pois ela poderia estar em qualquer lugar. 
         Avancei dois passos respirando ofegante. Me aproximei da prateleira e estiquei as mãos para agarrar a caixa.
        Quando estava prestes a abrí-la, escutei a bibliotecária por perto, conversando com um aluno. Meu coração deu um salto e rapidamente tratei de jogar a caixa pela janela.  
        Eu sabia que a queda não era grande e que a grama protegeria a caixa, e fiz isso bem a tempo de a bibliotecária aparecer.
       — Senhorita Rigdor? O que faz aqui? Sabe que é um espaço privado, não é? — disse a linda bibliotecária, seus cabelos dourados balançaram conforme se aproximava de mim.
      — Estou procurando um livro.
      — Os livros para os alunos ficam do lado Oeste da biblioteca, saía daqui antes que eu chame o diretor.
       — Claro, me perdoe.
       Saí da biblioteca à passadas largas, e assim que fechei a porta, comecei a andar diretamente para o lado de fora, tentando manter um ritmo elevado, mesmo com a profunda dor em minha coxa.
       Porém, assim que cheguei, meu coração errou as batidas. Lincoln Bellarim estava com o livro em suas mãos, e seu sorriso demonstrava que o conteúdo era muito interessante aos seus olhos.
        Me aproximei dele e tentei tirar o livro de suas mãos, entretanto, Lincoln foi mais rápido e esquivou me observando.
       — Este livro parece muito com um que tinha na ala privada dos professores dentro do biblioteca — cantarolou ele balançando o livro —, por que o quer?
       — Não é da sua conta, apenas preciso dele, me devolva — estiquei a mão para ele.
       — O diretor adoraria saber que Rosemary Rigdor roubou um livro de combate da ala privada da biblioteca.
       — Por favor... não faça isso.
       — Se você o quer, precisará fazer algo em troca — seu sorriso era calmo.

Caminhei de um lado ao outro de frente para Marcus. Já havia se passado duas horas desde que eu tinha saído da escola.
      A cachoeira continuava emitindo um vento frio contra mim, mas não me importava, a única coisa que conseguia pensar era no que havia acontecido mais cedo.
       Marcus me olhava boquiaberto, e quase não acreditava no que eu havia aceitado fazer para recuperar o livro de combates. Não o culpo, depois que aceitei também não acreditei.
       — Está me dizendo... que você aceitou roubar um tecido extremamente caro para Lincoln Bellarim? — perguntou ele.
       — Sim...
       — E esse tecido só é encontrado no Leste?
       — Nos desertos de Rubria — corrigi.
       — Meu Deus, Rose... — Marcus levou suas mãos ao rosto —, o que tem em mente?
       — Ir buscar o tecido, é claro! Precisamos do livro, lembra?
       — Rose, você não está entendendo... os desertos de Rubria são tão perigosos quanto o Norte.
       — Eu sei, mas o que você queria que eu fizesse?! Aquela maldita bibliotecária estava ao meu encalço!
       — Merda Rose! Você deveria ter deixado o livro para outra hora!
      Embora eu não quiser admitir, Marcus estava certo, o melhor que eu poderia ter feito, seria deixar o livro para outra situação, mas minha ambição não me permitiu tal coisa.
       Agora eu estava enrolada em dois tratos, um com os Rosário, para derrubar os Azarir, e outro com Lincoln Bellarim, para ter de volta o livro de combates.
       Marcus notou meu silêncio e respirou fundo, falando com uma calma nunca antes vista por ninguém, muito menos imaginada que um Infeor seria capaz de esboçar.
       — Você não irá sozinha, irei junto, afinal, eu te meti nessa — falou por fim —, precisamos de um mapa, e sei onde encontrar um.
       — Na casa dos Rosário?
       — Exatamente, precisamos de um mapa bem grande, que pelo menos mostre os outros reinos... — ele fez uma pausa para respirar e continuou —, Rubria fica depois de Liceo.
       — Você disse que os desertos de Rubria são perigosos... por que?
       — Além da falta de água e uma temperatura alta e constante?
       — É...
       — Existem lendas, sobre monstros que caminham sob as areias do deserto.
       — Que... tipo de monstros?
       — Eu não sei, mas devem ser perigosos o bastante para Rubria ser um reino muito difícil de achar.
        Extremeci, e se o trato com Lincoln Bellarim for apenas uma armadilha para me matar? Os Azarir poderiam se juntar aos artesãos.
        Mas para recuperar o livro dos combates, eu teria que ir até Rubria, ou Samuel sairia vencedor, ninguém iria querer ver isso.
        — Eu vou tentar conseguir o mapa com Edward, se não me engano, ele disse que seu pai era emissário de guerra e fazia estratégias, para isso precisam de um mapa amplo — falei com determinação —, você pesquisa sobre Rubria e vê o que vamos precisar por lá.
        — Rose... contaremos à Edward e Amanda? 
        Fiquei em silêncio, pensando. Edward com certeza iria escalar os perigos de Rubria e montar estratégias boas, mas Amanda não teria como ir, seus pais era o maior problema.
        — Vou falar com Edward, se ele quiser vir, tudo bem... mas vamos manter Amanda fora disso, não quero que ela arranje problemas demais com os pais.
        — Certo... então não vamos começar a treinar hoje e... — Marcus travou.
        — O que foi? — perguntei preocupada. Ele me olhou devagar.
        — Temos apenas uma semana para o duelo, Rose.
        Paralisei.
        Eu não tinha pensado no duelo, de fato tínhamos apenas uma semana para ele me treinar, e além disso não sabia quanto tempo levaria para irmos até Rubria e voltar.
        — Vou ter que barganhar com Lincoln — respondi —, tenho que convencê-lo a entregar o livro e esperar o duelo passar.
        — Os Bellarim são extremamente chatos em relação a isso, dificilmente ele aceitará.
         — Tenho que tentar.
       Marcus concordou com um aceno de cabeça.
         — Sendo assim, vamos treinar o básico.

Depois do treino, eu mal conseguia mover os braços. Meus músculos doíam e Marcus disse que era pela falta de exercícios.
       Ele me ajudou no trajeto de volta para casa, afinal, com toda aquela dor eu não conseguia andar direito e era como se minha coxa tivesse sido atingida por outro caco de vidro.
       Entrei depois de me despedir e tomei um banho rápido. Em seguida, sentei no sofá e comecei a pensar em como faria Bellarim aceitar que eu roubasse o maldito tecido apenas depois do duelo.
       Não seria fácil.
       Pensei e pensei por horas, até quase cair de sono, mas nada veio à minha mente.
       Maldito Lincoln Bellarim...
       Fui para a cama e me deitei, porém, não conseguia dormir, mesmo que estivesse com sono. Girei para um lado e para o outro, procurando uma posição que fosse confortável. 
        Nada.
        Eu precisava dormir, ou não seria capaz de pensar direito no dia seguinte. Levantei e fui até a cozinha, ignorando a náusea ao ver a mesa, embora a outra tivesse sido trocada, eu continuava me lembrando do dia em que fui atacada.
        Coloquei água para esquentar e procurei pelos armários até encontrar ervas para chá, era minha única salvação.
        Esperei a água ferver e preparei o chá. Um aroma agradável subiu ás minhas narinas. Observei uma faca no faqueiro e a peguei, sentindo o cabo frio de madeira.
        Encarei a lâmina e o meu reflexo nela. Meus olhos estavam vermelhos por conta do sono e meu lábio tinha uma pequena marquinha do dia traumático para mim.
        Respirei fundo e devolvi a faca ao seu lugar de origem, abaixei a cabeça e fiquei parada, esperando que o chá esfriasse um pouco. Então, algo disparou em minha mente.
        — Eu fechei as portas? — perguntei para mim mesma.
        Voltei até a porta e virei a maçaneta, mas ela não se abriu. Suspirei aliviada e verifiquei as janelas.
         Eu estava ficando paranóica, pois havia trancado tudo, mas ainda assim verifiquei todas as possíveis entradas, com medo de que alguém pudesse entrar em minha casa e me ameaçar como da outra vez.
         Apalpei minha cintura e senti que as minhas adagas ainda estavam lá, pois tinha esquecido de tirá-las antes de deitar, e isso foi a possível causa do desconforto que senti na cama.
        Voltei para a cozinha e tomei o chá.
      

Acordei na manhã seguinte, me lembrando apenas de encostar minha cabeça no travesseiro e dormir pesadamente.
       O sol não havia saído completamente, indicando que ainda não era hora de sair, então ainda teria algumas horas para pensar no meu argumento para convencer Lincoln Bellarim a me devolver o livro e ter seu tecido depois.
        Porém, pensei no porque eu estava com medo de ser dedurada, afinal, a bibliotecária falaria com o diretor e depois o rei me chamaria para conversar como todas as vezes que uma reclamação sobre mim havia sido feita.
        Embora tivesse descansado o suficiente, meus nervos e músculos ainda doíam. Nunca me arrependi tanto de não ter praticado exercícios físicos com o passar dos anos.
         No fim, decidi que não teria medo de Lincoln, nada seria feito em relação ao livro que roubei e que naquele momento estava nas mãos de um Bellarim.
        Eu o xinguei muito em minha mente. Maldito garoto que acabou com meus planos meticulosamente preparados.
        Mentira, eu estava mentindo para mim mesma, pois nunca pensei em nada antes de fazer e sempre fui no improviso.
        Entretanto, não havia dado certo daquela vez e prometi para mim mesma que comecaria a pensar direito em cada plano que eu executaria. A começar pela barganha com Lincoln Bellarim.

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