Abri os olhos quanto Amanda entrou no quarto de toalha, seus cabelos estavam molhados e imaginei que estivesse no banho. Me sentei e a observei em silêncio, a ideia de ela andar perto do castelo me assustava.
Ela colocou um vestido florido, mas quando ia indagar, notei que já havia parado de chover e o dia estava ensolarado. Amanda prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e viu que eu a olhava.
— O que foi? — perguntou ela.
— Estou com medo...
— Não se preocupe comigo, serei cuidadosa.
— O que me assusta é se algo acontecer e eu não estar lá para ajudar.
— Prometo que não irei chegar perto dos guardas.
Suspirei e baixei os olhos, nenhuma promessa anularia minha preocupação. Amanda sentou de frente para mim e ergueu meu rosto um pouco.
Seus olhos azuis estavam fixos em mim, e causava um estranho frio na barriga, não sabia o motivo. Amanda depositou um beijo em meus lábios e eu devolvi como se fosse o último.
Nos afastamos um pouco e ela sorriu. O sorriso mais lindo que já vi em toda a minha existência.
— Melhor agora? — perguntou ela com os olhos fixos em mim.
— Melhor... — afirmei.
Não menti, eu realmente estava mais calma.
— Volto no fim da tarde — ela me deu um selinho e saiu.
Assim que a porta se fechou eu saí da cama, fui até a sala e me sentei de frente para o suporte de adagas. Retirei uma e acariciei sua lâmina, me lembrando de quando eu ainda era uma jovem tranquila que não estava envolvida em uma profecia e potencial guerra.
Lembrei-me da última vez que brinquei com Marcus, Amanda e Edward. O canto da sereia no lago da caída de cristais. Saber de possível traição de Edward ainda me machucava como flecha no coração.
Eu esperava que nunca o encontrasse, não queria confrontá-lo, nem saber seus motivos, apenas nunca mais queria sequer estar diante dele. Porém, se Edward fosse um inimigo, fazer algo em relação a ele seria inevitável.
Guardei a adaga de volta e fui até a cozinha. O tédio já me atingia de tal maneira que o meu maior desejo naquele momento era sair dali e respirar ar fresco. Ser procurada por um império era difícil.
Comi alguns biscoitos e voltei a segurar a adaga da mãe de Uriah. O símbolo na lâmina me prendia, tal como a tatuagem na palma da minha mão.
— Daruucad? — chamei baixinho.
A marca em minha mão brilhou e queimou. De repente Daruucad surgiu em meio uma névoa branca e calma. Ele havia se adaptado para o tamanho da casa, tinha o tamanho de um cachorro.
Não resisti a risada, ele parecia um filhote daquele tamanho. Irritado Daruucad mordiscou minha mão, arranhando meu consciente com suas garras invisíveis.
— Desculpe, você está muito engraçado deste tamaninho — enxuguei uma lágrima de tanto dar risada.
Me invocou apenas para achar engraçado o tamanho que fui obrigado a adequar? Reclamou ele pela conexão mental, fitando seus olhos cor de fogo em mim.
— Para falar a verdade, eu te invoquei para me fazer companhia — retruquei.
Não sou dama de companhia, sou uma montaria poderosa. Continuou ele.
— Deixa de ser chato!
Peça desculpas. Seus olhos continuaram em mim.
— Certo, desculpa por ter zombado do seu tamanho.
Assim está melhor. Ele se deitou no chão e baixou o olhar.
— Você me disse que se adequou ao tamanho da casa? Como isso funciona?
Posso mudar de tamanho de acordo com o necessário, eu precisava estar menor quando vi este lugar por seu chamado, então tive que diminuir meu tamanho para não destruir a casa toda.
— O que mais pode fazer?
Meu fogo congela ou queima, eu decido isto também, ou vai de acordo com o seu comando. Posso voar em velocidades incríveis e atravessar o continente em pouco tempo. Já deve imaginar aue esmagar coisas é fácil para mim.
— Quantas pessoas você consegue carregar?
Depende do tamanho que eu estiver, talvez umas dez, estando grande é claro.
— Perfeito.
O que tem em mente? Ele perguntou se levantando. Sei que está pensando alguma coisa, as perguntas foram muito objetivas.
— Vou precisar que você fique bem grande em breve, precisará carregar dezesseis pessoas.
Dezesseis? Terei que me preparar melhor para isso. Quem serão essas dezesseis pessoas?
— Os Azarir, os Infeor, o rei, a rainha, Gingar, Unsan, Amanda e eu — Daruucad começou a pensar em alguma coisa.
De repente uma imagem dele surgiu na minha mente. O dragão tinha três vezes o tamanho da muralha. Acho que assim eu consigo carregar a quantidade de pessoas que você disse. Falou ele por nossa conexão.
— Você é uma dádiva! Esse tamanho está perfeito. Ah e vou precisar que se camufle nas nuvens, ninguém pode nos ver quando estivermos lá em cima.
Daruucad assentiu arranhando minha mente e se enrodilhou para dormir novamente, talvez manter aquele tamanho roubasse bastante energia dele, que explicaria o motivo de ele querer dormir sempre.
Me levantei e comecei a bolar um plano de escapatória, pelo cemitério seria a melhor opção, afinal, sua entrada no castelo era mais perto das masmorras que qualquer outra passagem secreta.
O maior problema seria não chamar atenção de nenhum soldado, ou o rei seria informado antes da hora prevista. O plano tinha um cronograma montado com muito cuidado, todos os acontecimentos tinham seu horário certo para ocorrer.
Eu não podia demorar nem um minuto a mais, ou o plano todo seria comprometido. Saber daquilo era o que me deixava mais nervosa, um passo em falso e tudo estaria acabado. Além disso, havia ainda mais uma etapa do plano para criar, a distração.
Não havia uma maneira de colocar o plano em prática se não tivesse uma distração, e era por isso que eu não entraria com Daruucad dentro do marca na palma da minha mão, ele faria a distração.
Quem iria desconfiar de uma explosão de pólvora perto dos limites da cidade?
Os soldados se moveriam até lá para ver o que estava acontecendo, e quando eu escutasse a segunda explosão, saberia que era a hora de me mover e tirar meus amigos daquelas masmorras.
No fim da tarde Amanda chegou, trazendo consigo um manto das santificadas, uma cesta de frutas e a informação que eu precisava. Não aguentei esperar e corri para beijar sua boca, meu coração enfim pôde descansar.
Depois de comermos, Amanda estendeu um pedaço de tecido branco em cima da mesa e desenhou a entrada do castelo com o carvão. Em seguida, fez três pontos antes da escada, e sete depois.
— As escadas são guardadas por três soldados, um na direita, outro na esquerda e o último mais acima — começou ela —, depois do último degrau há sete deles, dois que irão acompanhar o grupo pela retaguarda, dois pela frente, um de cada lado e o último vai abrir as portas.
— E o tempo? — perguntei mordendo uma maçã.
— Elas entraram às duas e saíram às quatro e meia.
— Terei duas horas e meia para percorrer o castelo inteiro, contatar a rainha, marcar a posição dos guardas e sair sem que ninguém perceba que eu não estou junto com o grupo.
— Acha que dá tempo?
— Se eu for rápida, talvez.
— Vai sair amanhã?
— Sim, preciso tirar eles das masmorras o mais rápido possível.
— E o que eu irei fazer?
— Quero que vá até os limites da cidade e procure por uma carga grande de pólvora, será nossa distração.
— Distração?
— Sim, precisaremos de uma distração quando formos executar o resgate, algo para distrair nossos inimigos.
Ela assentiu e dobrou o tecido, parecia inquieta com a ideia de que eu iria entrar no castelo sozinha, mas não podia arriscar, já foi muito arriscado permitir que Amanda fosse até a entrada do castelo.
Segurei seu rosto com as duas mãos, forçando-a olhar para mim, seus olhos cor do céu fixaram nos meus. De alguma maneira eu conseguia sentir os batimentos cardíacos dela acelerados.
— Eu vou ficar bem — sussurrei —, vai ser rápido, prometo.
— Diga pelo menos que vai armada...
Balancei a cabeça positivamente e abracei ela, sussurrando diversas vezes que tudo ficaria bem em seu ouvido. Eu não sabia realmente se tudo daria certo, mas estranhamente não sentia medo de nada.
Ela desfez o abraço e me beijou carinhosamente. Era de perder aquilo que eu tinha medo, a morte já não me assustava mais, afinal, sabia como era morrer, não doía, pelo contrário, o toque gélido da morte era tranquilo, como um escape.
Encostei Amanda na mesa e continuei o beijo, aumentando a intensidade de uma maneira pouco apressada. Meu corpo vibrava e parecia se partir. Ela passou as pernas ao redor da minha cintura e a carreguei até a cama.
Repousei seu corpo no colchão e beijei seu pescoço, fazendo-a perder o ar, continuei descendo os beijos até senti-la tremer. Voltei à boca e continuamos nos beijando amorosamente. Tiramos nossas roupas e fizemos amor.
Amanda estava ao meu lado, coberta por um lençol cinza, nossas respirações ainda estavam ofegantes. Fiquei imaginando como seria uma vida normal ao lado dela, e percebi que só aconteceria quando o imperador caísse.
— Amo você — ela sussurrou perto do meu ouvido ficando por cima de mim —, nunca mais quero estar longe de você...
— Não irá — tirei uma mecha do seu cabelo que estava caída e a coloquei atrás da orelha.
— Dói? Quero dizer... morrer, dói?
— Porque essa pergunta?
— Só estou curiosa.
— Não, morrer não dói, é mais como um vento calmo que leva toda a sua dor, o que dói é antes disso, o que nos leva a morrer, a causa.
— A praga... dói muito?
— Sim... é insuportável, você sente todos os seus órgãos entrando em colapso, sente o sangue, vomita ele, e parece que todo aquele sofrimento não vai acabar.
Ela deitou por cima de mim e fechou os olhos. Lembrar daquele momento foi ruim, toda aquela dor, era um alívio saber que eu nunca mais poderia ser contaminada pela praga.
Eu tinha que pensar em uma maneira de impedir que meus amigos fossem infectados pela praga, eles não podiam usar máscara o tempo todo. Levei minha mão ao cabelo de Amanda e fiz cafuné, sentindo o suspiro tranquilo dela.
Parecia que nada estava acontecendo, meu coração se encontrava em paz, e talvez seria minha maior arma. Tranquilidade e paz me ajudaria a continuar no controle independente da situação, era meu maior trunfo.
Talvez o diadema saberia me dizer o que fazer para impedir que meus amigos fossem mortos pela praga. Assim que voltasse para o Norte eu iria até o templo subterrâneo, afinal, o dragão de asas brancas já estava comigo.
Afastei todos os pensamentos e fechei os olhos, eu precisava descansar para o dia seguinte, me preparar, encontrar um meio de guardar uma adaga e ir até o castelo. Senti meu corpo se lançando em calmaria, o sono vinha me atingindo lentamente, então dormi.
Eu estava no templo subterrâneo, vi o diadema repousado em uma almofada vermelha. Mesmo de longe sentia a força do seu poder, acariciando minhas bochechas.
Me aproximei devagar, me lembrando estranhamente da duvida que vagava minha mente. A praga seria um problema para meus amigos, e eu tinha que encontrar uma maneira de fazer com que eles também fossem imunes.
— Olá, ladrazinha.
— Não sou uma ladra — respondi —, o poder se atraiu até mim.
— Você consegue me encontrar até dormindo, deve haver uma razão.
— Tenho uma pergunta e quero que me responda.
— Porquê eu responderia?
— Porque estou mandando! — minha voz saiu em um tom de aviso.
— Como ousa falar assim comigo?
— Apenas me responda, existe um jeito de tornar meus amigos imunes às praga como os Manak são?
— Os Manak são imunes por terem contraído a praga tantas vezes que o corpo criou resistência, mas isso demoraria anos no caso dos seus amigos. Mas.
— Mas?
— Meu poder seria suficiente para colocar essa resistência neles.
Senti o tom afiado na fala dele, era como se me desafiasse a ir buscá-lo.
— Eu tenho o dragão de asas brancas — retruquei.
— Ter um dragão é fácil.
Ele continuava falando em um tom afiado, zombando de mim, como se acreditasse que eu não colocaria minhas mãos nele, então entendi o motivo de minha mãe ter dito que o diadema era o artefato mais fácil de lidar, por não ser violento, mas era desafiador.
— Observ até eu salvar meus amigos, vou obter seu poder — ouvi suas gargalhadas ecoarem em meus ouvidos.
— Você pode tentar, Kristallrosa.
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Os Ventos do Norte
FantasyEm um mundo assolado por uma praga, Rosemary cresceu sozinha, dentro de um reino selado pelo medo de serem contaminados. Decidida a ajudar o exército real na luta contra os rebeldes conhecidos por Pesadelos, Rose descobre que há uma maneira de acaba...
