Assim que a noite chegou, voltamos a caminhar. Aquela visão ainda estava fresca em minha mente e pensei no que significava, Far era o apelido do meu pai, mas eu não reconhecia o nome Silrur.
Embora parecesse algo raso, algo em meu coração me fazia sentir que mais cedo ou mais tarde, eu acabaria descobrindo alguma coisa importante.
Tivemos a oportunidade de ver um Pritar. Uma criaturinha realmente veloz e hábil. Marcus a matou assim que sentimos a ameaça, foi difícil para ele, mas logo continuamos a avançar pelas areias do deserto.
Àquele ponto, o que eu mais queria era um lugar fresco como Millandus. O calor não me permitia pensar o suficiente, e fazia com que Marcus fosse a cabeça por trás dos nossos movimentos.
Os músculos da minha perna ardiam conforme forçava seus movimentos ao limite, o cansaço nos atingia com força o bastante para nos derrubar, e para piorar, não havia por perto nenhuma caverna para nos abrigarmos assim que o sol nascesse.
A noite estava quente, e o dia seria pior, precisávamos chegar logo ao posto de vigia, ou não aguentaríamos mais um dia sequer. Restara apenas quatro cantis de água.
Nossa comida estava acabando e logo ficaríamos sem nada. Minha preocupação era se não conseguíssemos cruzar o deserto a tempo de chegar ao reino de Rubria.
Prometi para mim mesma que assim que chegássemos, tomaria um cavalo ou algo que nos ajudasse a voltar sem muito esforço.
Amanda me observara desde que saímos da caverna, com medo da crise novamente. Marcus me contara que me carregaram por cerca de duzentos metros até encontrarem a caverna.
Me desculpei com eles pela décima vez e me sentia envergonhada. Eu queria saber o que estava acontecendo comigo, mas não tinha como.
Minha perna antes ferida, latejava com o esforço de se manter em constante movimento, não quero imaginar o que me aconteceria se precisasse correr.
Já era a quarta noite que estávamos ali, e não queria encaminhar para a quinta. Aos poucos íamos ficando sem nada. Marcus me prometera que acharíamos água no posto de vigia.
Devagar vimos os primeiros raios de sol, a manhã estava chegando lentamente, e precisávamos nos apressar.
Continuei andando de cabeça baixa, sentindo o suor escorrer pelo rosto, até que bati nas costas de Marcus que havia parado subitamente.
Me coloquei ao seu lado e suspirei aliviada. Há pouco menos de quinhentos metros, o posto de vigia se estendia ao alto, Amanda também pareceu aliviada.
— Finalmente... — murmurei.
Repentinamente senti um tremor na areia, como se estivesse vibrando. A expressão de Marcus indicava que ele havia sentido a mesma coisa. Olhamos para trás e não vimos nada.
Leste, Oeste. Nada.
Não havia nada aparentemente que causava aquele tremor, então continuamos andando, mas quando dei meu primeiro passo, ouvi o grito assustado de Amanda atrás de mim.
Um Scors saltou de dentro da areia, e suas presas passaram bem perto da cabeça de Amanda. Ele se chocou contra a areia, causando ainda mais rubor no solo.
Segurei o braço dela e disparei em direção ao posto de vigia, no qual Marcus também corria. Minha perna reclamava em dor, como se estivesse cheia de fogo.
Eu não conseguia ver o monstro, mas o sentia rastejando atrás de nós, tão perto que sentia o cheiro de areia molhada nele. Amanda arquejava atrás de mim, mas não soltei seu braço.
A areia estava contra nós, era fofa e quase sempre me desequilibrava. O posto de vigia se aproximava cada vez mais, Marcus estava a poucos metros de chegar nele.
Eu o vi segurar a porta e a empurrar para abri-la. Dei uma olhada para trás, o Scors estava bem perto, me obriguei a pensar rápido.
Olhei para o posto de vigia. Feito de pedra, com uma torre única, sem muros, mas havia algo que me interessava, uma escada na sua lateral, que podia ser usada para chegar ao topo do posto de vigia.
Na parede havia um símbolo em foi de fogo, característico do reino de Rubria. À poucos metros até o posto de vigia, puxei o braço de Amanda com força, colocando-a em minha frente.
Ela disparou para dentro do posto e mudei de curso, pois se eu também entrasse, provavelmente o Scors derrubaria aquela construção. Corri em direção a escada na lateral da torre e a subi.
O Scors tentou se rastejar degraus acima, mas não conseguiu. Não satisfeito, o monstro bateu com força na escada, usando seu corpo.
Senti a pedra tremer e começar a cair. Era meu fim, eu não conseguiria alcançar o topo antes da escada desabar.
Meu pé falhou e o senti afundar na pedra. Marcus surgiu no topo da escada e dei um pulo esticando minha mão.
O tempo parecia ter ficado em câmera lenta. Ouvi o Scors soltar um barulho parecido com engasgos, minha mão lentamente alcançou a de Marcus e o senti me segurar.
A escada caiu e fiquei pendurada apenas pela força de Marcus que não me soltara. Alguns degraus caíram na cabeça do Scors, forçando-o a se afastar serpenteando pelas areias.
Respirei fundo e fui puxada. Minha perna doía bastante, e a dor se assemelhava a agulhadas. Fiz massagens com os dedos na região dolorosa e quase gritei.
Marcus me ajudou a descer andar abaixo. Me deparei com uma espécie de sala. Havia um sofá grande no qual Amanda estava ofegante, e poucas coisas abandonadas ali.
O chão estava coberto por uma fina camada de areia, que entrara por baixo da porta. Marcus me deu o resto do penúltimo cantil de água e bebi a goles generosos.
Amanda mal conseguia falar, por conta do medo que sentira. Entendia isso, afinal, sentia como se meu coração fosse pular para fora do peito e decidi que depois de terminar o que devia, nunca mais ousaria voltar naquele deserto.
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Os Ventos do Norte
FantasyEm um mundo assolado por uma praga, Rosemary cresceu sozinha, dentro de um reino selado pelo medo de serem contaminados. Decidida a ajudar o exército real na luta contra os rebeldes conhecidos por Pesadelos, Rose descobre que há uma maneira de acaba...
