Capítulo 49

24 3 0
                                        


      Me mover doía tanto quanto flechadas, era uma tortura sequer me manter de pé. Minha vantagem era usar o ambiente ao meu redor para conseguir juntar um pouco mais de energia para curar parte dos meus ferimentos. A fonte de poder havia sido aberta e corria livremente pelo meu corpo, mas a falta de vigor me impedia de usar qualquer sentelha dele.
       Minha única alternativa era usar golpes de artes marciais, apenas para me manter a uma distância um pouco segura de Edward. Ele também estava ferido, mas não tanto quanto eu. Esquivei de um soco dele, e seu punho acertou o nada, cambaleei para longe dele e me mantive afastada.
       — Olha só, a Kristallrosa fugindo de uma luta, que vergonhoso — disse ele.
       Mostrei a língua para ele e continuei me afastando. De repente senti um pingo de energia e a usei para curar meus ferimentos internos, quando percebi que doía menos, fiquei ereta e respirei fundo.
       Ele veio em minha direção e tive forças apenas para bloquear seu golpe com um braço e revidar com o outro, em seguida o afastei com um empurrão e continuei recuando, esperando mais uma sentelha de energia.  
      Havia apenas um problema, quanto mais energia usava, mais cansada ficava depois de a usar e logo não haveria nada mais, nem esperando. Edward avançou novamente, mas eu não tinha reunido energia o suficiente para revidar, então acabei sendo atingida por dois socos dele.
      No terceiro consegui erguer um escudo fraco, apenas para evitar seu golpe, assim que o escudo desapareceu eu tentei socá-lo, mas Edward segurou meu punho e devolveu o golpe. Tombei para trás sentindo minha cabeça balançar tanto que precisei fechar os olhos por um momento.
       — Já chega disso — Edward ficou por cima de mim e começou a apertar meu pescoço com força.
       Segurei suas mãos por impulso, tentando tirá-las da minha garganta, mas ele era mais forte que eu. Pouco a pouco comecei a ficar sem oxigênio no corpo, abri a boca para tentar respirar, porém, minha traquéia estava bloqueada pelo aperto de Edward.
        Quando vi a escuridão tomando minha visão pelos cantos, uma rajada de fogo o tirou de cima de mim. Involuntariamente eu invocara Daruucad a força, tirando-o do mundo exterior forçadamente. Edward recuou, desviando dos ataques do enorme dragão, que me protegia com seu corpo.
       Me sentei e puxei a maior quantidade de ar que conseguia. Eu estava tão exausta que até ficar naquela posição era um desafio. Edward continuava contornando Daruucad, que permanecia me protegendo com seu enorme corpo.
        Fechei os olhos e tentei juntar mais energia, aproveitando o tempo que Daruucad estava me proporcionando, usando seu fogo para manter o inimigo afastado. Eu tinha que obter total controle do meu poder, não dava para continuar usando-o sem garantia de que funcionasse.
       Me concentrei e comecei a acumular o poder em apenas um ponto do meu corpo. Era como um círculo brilhante instalado no meu peito, distribuindo linhas finas de energia curativa para meus ferimentos. Lentamente senti a dor desaparecendo, o que já era um grande alívio.
       Conseguindo agir melhor, pensei nas palavras do papel e comecei a recitar cada uma delas. Se eu colocasse a imunidade contra a praga nos meus amigos, eles podiam ajudar na batalha. Senti Daruucad cambalear, sua força estava acabando também. Aguenta só mais um pouco, pensei.
        Um brilho esbranquiçado começou a me rodear, e quando recitei a última palavra, senti como se uma parte do meu poder tivesse sido retirada com mãos invisíveis. Daruucad se transformou em fumaça e desapareceu para o mundo exterior, juntei toda a minha força e avancei contra Edward que pareceu surpreso com minha ação repentina.
       Iniciamos uma batalha corpo a corpo brutal, eu não conseguia mais parar e Edward lutava para me ferir cada vez mais. Bloqueei um soco dele e revidei com o outro punho, seu nariz começou a sangrar muito, mas não sabia se fora por minha causa.
      Segurei seus dois braços e o arremessei para o outro lado do topo da montanha, ele bateu contra o parapeito e ergueu os punhos para se proteger dos meus socos. Eu estava sentindo meu poder sendo drenado, e percebi que minha força havia sido elevada pelo poder do olho de Riviera.
       O poder da força, fora assim que o diadema havia chamado, e finalmente tinha entendido o motivo. Mas para manter tanta força ativa, uma coisa deveria ser dada em troca, e no caso seria toda a energia que restava no meu corpo, eu cairia esgotada quando acabasse.
        Então aproveitei para desferir a maior quantidade de golpes possíveis, forçando Edward a ficar na defensiva, porém, repentinamente seu punho me acertou, com uma força sobre-humana. Recuei dois passos por conta do soco e senti meu poder se esgotar.
       Continuei dando passos para trás e vi Edward arrancar uma barra de ferro do parapeito, olhou para mim e a ergueu, porém, quando ia acabar comigo, uma flecha cravou no seu peito. Ele soltou a barra de ferro e cambaleou para trás, segurando o corpo da seta cravada em sua carne.
       Uriah passou por mim, com outra flecha na corda, mirou e disparou acertando Edward no coração uma segunda vez. O Rosário deu passos para trás, com sangue escorrendo pela boca, esticou a mão na minha direção e continuou andando para trás.
       De repente Edward caiu do topo da montanha corta-vento, com duas flechas cravadas no coração. Respirei ofegante e caminhei até a beira da montanha. O corpo do meu amigo havia sido atravessado por uma rocha pontuda no pé da montanha.
        Ergui minha cabeça e vi uma grande quantidade de soldados Manak avançando na direção de Vurian. Uriah ficou ao meu lado, obervando o corpo de Edward lá embaixo.
        — Desculpa a demora... — murmurou Uriah. 
        — Chegou na hora certa, Uriah, chegou na hora certa.
        — Vamos, Yara me mandou procurar por você, Zufreid está sendo tomada neste momento, Vurian é o próximo.
       — Então Edward era o homem mandado pelo imperador para governar este lado da muralha...
       Estiquei a mão para frente e Daruucad surgiu no céu, ainda havia uma coisa a fazer. Subi com dificuldade em suas costas e Uriah subiu depois. O dragão bateu suas asas e deu uma meia volta na montanha, seguindo na direção da muralha.
       Eu podia sentir o cansaço dele a cada bater de asas, Daruucad havia gastado bastante de sua energia para manter Edward longe e talvez compartilhado parte comigo, era a única explicação para tanta energia surgir em mim naquele momento.
       A brisa gelada do norte me dava mais calma, era tão suave que fechei os olhos só para sentí-la. Não evitei o choro, mesmo que Edward fosse um traidor, fora meu amigo por muito tempo e por inveja e ganância, estava morto.
       — O que vamos fazer? — perguntou Uriah atrás de mim.
       — Celar a muralha — respondi, em seguida dei dois tapinhas no pescoço de Daruucad —, precisamos de uma grande rocha, sabe onde encontrar?
       Ele não respondeu, mas virou à esquerda e bateu suas asas mais forte. Havia uma montanha menor, com pedaços soltos de pedra em toda sua extensão. Mesmo cansado Daruucad pegou uma das maiores rochas e retornou para voar na direção da muralha.
        De longe eu conseguia ver que estava acontecendo uma batalha em cima dela, o imperador estava se movendo, e graças a Edward, soubera dos ataques e que eu estou viva. Daruucad jogou a enorme pedra na fenda da muralha, em seguida cuspiu fogo gelado para fechar completamente a fenda.
       Depois disso, voamos mais alto e percorremos toda a extensão da muralha, com Daruucad cuspindo fogo em cima dos inimigos, enquanto Uriah ajudava disparando flechas. Eu estava cansada, mas precisava ajudar a todos na batalha.
        — Vamos para Vurian! — gritei para Daruucad.
       Ele bateu suas asas duas vezes, lançando vento forte contra os inimigos e deu meia volta para ir na direção de Vurian. Com minha palma encostada em suas escamas, compartilhamos a mesma energia, a única que nos restava e nos mantia operando.
       Uriah estava completamente despertado, suas flechas cortavam o céu diversas vezes, acertando cada inimigo na extensão do caminho para Vurian. O reino estava completamente em ruínas, fumaça negra subia aos céus, e soldados lutavam em todas as ruas do reino.
       Passamos por cima delas, deixando um rastro de fogo vivo e flechas bem disparadas. Uriah não parecia sentir remorso por todas as pessoas que acertava, talvez tinha raiva daqueles soldados, afinal, o líder deles deixara seu povo para morrer no que restou de Kyvar.
        Abaixo de nós eu podia ver todos os duques de Millandus, liberando seus poderes contra os inimigos. Relâmpagos, tremores e solo sendo manipulados, fogo e água. Mesmo do céu podíamos sentir a influência dos poderes deles.
       Samuel lutava ao lado do seu pai, ambos manipulando o solo contra os inimigos. Daruucad cuspiu fogo contra a torre do castelo, derrubando-a sem pena, afinal, ele sabia que os inocentes haviam sido retirados da cidade capital, como fora previsto tantas vezes no plano que montamos.
       Não vi Amanda em lugar algum e imaginei que estivesse na montanha, talvez em Zufreid, já que fora o primeiro reino a ser atacado. Daruucad compartilhou sua visão comigo e juntos aniquilamos muitos soldados, fomos a força aérea naquela batalha.
        O sol estava quase nascendo, a noite havia sido longa. Depois que me certifiquei de que nossos aliados conseguiriam conduzir a batalha sem problema, voamos para Zufreid. O reino já havia sido tomado pelos caçadores e soldados Manak, com pouca destruição, diferente de Vurian.
       Daruucad pousou delicadamente e desci devagar, Uriah me acompanhou de perto, como uma sentinela. Era impossível não mancar com todos os ferimentos em meu corpo, tudo doía.
      Enquanto caminhava na direção do castelo, todos os homens que lutaram ao meu lado formaram um corredor, erguendo suas armas para comemorar a vitória. Haviam muitas pessoas alegres por estarem livres das garras do governo imperial.
        Passei ao lado de uma fileira de soldados imperiais rendidos e apenas os encarei, todos olhavam para mim, amedrontados pela minha presença, afinal, era para eu estar morta. Não consegui evitar a expressão irritadiça, o imperador conseguira acabar com a vida de muita gente que sequer estava envolvido naquela batalha.
        — Tirem qualquer informação desses soldados, não o matem — falei calmamente e continuei caminhando.
       Passei pela fonte e encarei a poucos metros a imensidão do castelo de Zufreid, por algum motivo senti nostalgia, pois fora ali que muita coisa começou. Um tropeço e uma queda deu início há batalhas, cumprimento da profecia, e muitas mortes e desgraças.
        Subi um degrau, sentindo meu corpo reclamar com o esforço, Uriah esteve ao meu lado sempre, pronto para me ajudar. Avancei mais um, respirando devagar, aos poucos ia subindo degrau por degrau, com muita dificuldade, eu podia estar com várias costelas quebradas.
       Caminhei na direção da porta bem lentamente, e a cada passo era como se eu revivesse algum momento de tudo que tinha acontecido. A morte de Maalavan, a batalha, meu sequestro, minha morte, minha ressurreição. Tantas coisas em tão pouco tempo.
        O quanto eu havia amadurecido para aguentar aquilo, toda aquela dor e culpa que se acumulavam em meu ser todos os dias, logo após cada acontecimento. Os olhares curiosos daqueles que antes não acreditavam que eu existia, ou tivesse voltado dos mortos.
        De repente me lembrei de Silrur, ele tinha que saber de tudo que acontecera, com certeza arranjaria forças para continuar combatendo o império. Meu amigo tinha que evitar que o imperador se aposse de Rubria também, o único lugar que havia lembranças dos meus pais.
        Cheguei na porta e encostei a palma da minha mão nela, sentindo a madeira fria, criando coragem para abrir e adentrar aquele castelo, lidar com a possível morte do antigo rei daquele lugar. Eu tinha que colocar em mente que quando abrisse aquela porta, algo em mim deveria mudar, e era a misericórdia com o inimigo.
      Empurrei as portas e as abri, decidindo que a partir daquele momento, não haveria misericórdia, eu queria a cabeça do imperador em uma bandeja para mim, e eu a teria.

Os Ventos do NorteOnde histórias criam vida. Descubra agora