Capítulo 27

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         Caminhamos para além das colinas, na direção do território Vuriniano. Eu estava acompanhada de Maalavan, Unsan — um dos comandantes da caçada — e Gingar. Todos se ofereceram para vir comigo, dizendo que precisavam proteger a Kristallrosa.
         O caminho para o portal da morte era muito difícil, pois abaixo onde estávamos andando, era um tipo de lago congelado há muito tempo. Tinha risco de passos fortes demais racharem o gelo.
         Adentramos um antigo templo. Mesmo de dentro eu conseguia ouvir o vento forte do lado de fora. Seguimos por escadas abaixo e chegamos há um pequeno pátio.
         Passamos por ele descendo mais escadas, até finalmente chegarmos no portal da morte. Olhei sua extensão e quase me perdi, era grande e circular, havia sinais de escadas, mas nenhum degrau.
         O buraco era tão fundo que não conseguia ver seu fim. Peguei uma pedra e deixei cair, contando quanto tempo demorava para ela chegar no final. Contamos cerca de quatro mil metros, impossível de descer.
        No silêncio eu podia ouvir um sussurro baixo, muito familiar para mim. Eu conheço você, tirou parte do meu poder.
         Sim, tirei. Respondi, me diga como descer até aí, preciso te encontrar. 
          O que te faz pensar que irei dizer como descer ao meu encontro? Eu sei muito bem que você irá tomar todo o meu poder para fazer alguma coisa.
         Parecia incrível o fato de eu me comunicar com um simples diadema, e me fazia pensar o que estava dentro do objeto que o permitia ter consciência.
         Você tem que me obedecer, conhece a Profecia, é obrigado a entregar todo o seu poder. Falei para ele. As pessoas que me acompanhavam se afastaram, sabiam que eu estava conversando com o diadema.
         Sua língua é afiada, menina da profecia. Fez-se um silêncio, como se o diadema estivesse pensando no que me responder. Muito bem, você só pode descer aqui com o dragão das asas brancas, um animal sagrado preso pelas sombras.
         Explique melhor. Pedi fechando os olhos até ver o diadema repousado em uma almofada vermelha no meio de uma sala.
          Se eu lhe explicar, será muito fácil para você, a profecia diz que eu entregarei meu poder, mas não diz que tenho que entregar facilmente.
         Onde encontrar o dragão? Perguntei.
          Hm... ele está acorrentado pelas sombras, é só isso que posso dizer.
         Pensei no que ele disse, e imediatamente entendi, embora a realidade fosse realmente decepcionante. O dragão estava em posse do imperium. De alguma forma eu tinha que ir até lá.
          Abri os olhos e olhei para meus novos amigos.
        — Vamos, temos um reino para tomarmos de volta — falei me afastando do portal da morte.
       Voltamos todo o caminho e seguimos rapidamente na direção de Vurian, tínhamos que chegar logo, nossos homens poderiam estar lutando naquele momento. Pensei em como eu já agia semelhante a eles, parecia estranho. 
        No dia anterior eu havia mandado a carta para Zufreid, e expliquei o ataque que os inimigos fizeram à Vurian, os convoquei para a batalha, assim poderiam ajudar a expulsar as ameaças.
        Não tínhamos montaria, então demoraria até chegarmos no reino, porém, mesmo de longe eu podia ver a fumaça preta se erguendo até o céu, lembrei do ataque que fizeram à Millandus e quase parei tudo o que estava fazendo, os traumas ainda persistiam.
         Eu não sabia como Vurian era, mas nas histórias o retratavam como o maior reino, não em território, mas construído. Se o império conseguira tomar o controle, significava que suas forças estavam abaixo do normal. O que parecia estranho.
          Depois de tanto beber Gignac, Maalavan dissera que era seguro eu retirar a máscara ao ar livre, mas não confio tanto em mim mesma para arriscar. Ainda mais por eu ter conseguido me perder caindo da montanha.
         Uma coisa me incomodava, o traje era muito pesado para movimentações que exigiam mais agilidade, e eu teria problemas caso precisasse entrar em batalha, o que era muito provável.
         Subimos uma duna de neve e nos deparamos com Vurian. Alguns pontos estavam queimando, enquanto fumaça saía de torres e sinos. No espaço antes dos portões, caçadores e soldados do império lutavam bravamente.
         O som de gritaria no fundo indicava que a batalha se seguia para dentro do reino, e me preocupei com os civis. Gingar analisou o campo de batalha, criando estratégias em sua cabeça para virar aquele combate a nosso favor.
         — Maalavan, guiei a Kristallrosa para dentro do reino e faça um levantamento dos danos, salvem os civis que conseguir — ele olhou para mim —, tente entrar no palácio e descubra se o rei foi morto ou se mantém preso, o poder dele deve ajudar.
         Então era verdade, existia pessoas além de mim que haviam tido dádivas, os pais de Marcus, Edward, Samuel e Lincoln provavelmente também tinham poderes, eu sabia que não tinha me enganado quando senti aquela pressão no ar, certa vez.
        Assenti para Gingar e peguei duas adagas no meu cinto. Pensei na possibilidade de Zufreid atender meu pedido e ajudar com a batalha, mesmo que fosse com apenas uma tropa de soldados.
         Avancei com Maalavan comigo, o cheiro ao redor era de sangue e os gritos enchiam meus ouvidos. Ignorei todas as sensações ruins daquilo e apenas me foquei em abrir caminho entre os soldados do império. Minhas adagas cortavam para todos os lados e homens caíam com rapidez.
         Lembrei de cada instrução de Marcus, onde cortar, como cortar, pontos fatais e não fatais, lembrar de tudo me ajudava na concentração. Maalavan carregava consigo uma espada de uma mão, e era mais rápido do que eu para matar.
         Cortei e avancei, desviei e corri. Nesse ritmo eu e Maalavan conseguimos chegar nos portões e adentrar o reino, para nossa própria desgraçada. Haviam pessoas mortas nas ruas, crianças, adultos e mulheres, idosos, todo tipo de civil.
         Pela quantidade de casas imaginei que não tivessem dizimado a população, provavelmente apenas aqueles que tentaram se opor ao controle do império. Embora estivéssemos correndo por um mar de corpos, as ruas estavam vazias, o que indicava que a maior concentração de soldados era no palácio e no campo de batalha.
          Continuamos contornando as casas, avançando para o meio fim do reino, onde o palácio estava. Meu coração batia forte, e eu não parava de pensar nos civis mortos, pessoas inocentes que foram assassinadas por se oporem.
          Subimos alguns degraus do pátio externo. Quatro soldados vieram em nossa direção para nos interceptar. Girei as adagas em minhas mãos e esquivei dos dois primeiros ataques, senti minha lâmina perfurar o estômago do primeiro.
          Recuei alguns passos para escapar de um golpe, defendi a lâmina inimiga com a segunda adaga e enfiei a outra abaixo do queixo do soldado, que caiu inerte no chão espirrando sangue no chão. Cortei o pescoço do que eu havia ferido e avancei com Maalavan que terminava de matar o quarto soldado.
         Matamos mais dois homens na porta e entramos no castelo, seguindo para atrás das escadas principais. Descemos alguns degraus escondidos e fomos até uma prisão subterrânea. Maalavan conhecia o reino melhor que eu, e permiti que me guiasse pelo palácio.
         Na última sela havia uma família, o rei, sua esposa e filhas. Suas mãos estavam atadas para que não conseguisse usar seus poderes em nenhuma circunstância. Maalavan quebrou as correntes e abriu a sela, permitindo que saíssem.
         — Você é... — o rei começou dizendo.  
          — Não temos tempo para apresentações, vamos sair daqui, temos uma batalha para vencer.
         Ele concordou e nos seguiu de volta, mas de alguma forma haviam descoberto nossa movimentação e, o pátio estava cheio de soldados. Coloquei as mulheres atrás de mim e entreguei uma adaga para o rei, que avaliou a arma testando o peso e se preparou.
          Os soldados avançaram contra nós, e me permiti soltar toda a tensão do meu corpo. Meus movimentos se tornaram leves e rápidos, fazendo com que eu conseguisse esquivar e contra-atacar quase de imediato. Não demorou muito para que fôssemos superados, permitindo que demorasse mais para vencermos.
          Vi quando sangue espirrou no chão e uma silhueta caiu em seguida, se afastando. Olhei na direção e quase fui acertada, defendi com uma mão e ataquei com a outra, conseguindo finalmente ver quem havia caído. Maalavan estava no chão, pressionando um ferimento no pescoço.
          Me desesperei com a quantidade de sangue que escorria entre seus dedos, e depois de me desafogar de inimigos, corri em sua direção deixando que o rei contesse os soldados até eu voltar para a batalha. Maalavan estava ofegante e fitava meus olhos.
        — Se acalma, está tudo bem — pressionei o ferimento e tentei não pensar em sua respiração irregular —, por favor aguenta.
        — Kris... tall... rosa — murmurou ele —, me permita... descansar...
        — Fica quieto Maalavan! Você não vai morrer! — comecei a me desesperar, não podia perder ele, não ali.
        — Sal-ve... este... mundo...
        Continuei pressionando, não podia parar, mas percebi que Maalavan começava lentamente a fechar os olhos, e eu não podia permitir isso.
        — Ei! Ei! Ei! Ei! Não feche os olhos, Maalavan! Fica comigo! Não fecha os olhos! — senti o chão tremer pelos poderes do rei.
         A respiração de Maalavan ficou mais fraca, e diminuía aos poucos, com espaços muito grandes, e então, ele fechou os olhos por completo. Senti seu último suspiro em meus dedos, e a vida se esvaindo do seu corpo.
         Fiquei sem reação, sentindo meu sangue ferver e trepidar e o tempo pareceu estar em câmera lenta. O rei lançava rajadas de gelo e cristais que dificultava a visão dos inimigos que logo tinham seus pescoços cortados. Mas a única coisa em que que eu estava concentrada era no corpo sem vida de Maalavan.
         Então, decidi me levantar e aceitar o caos que se formava em mim. Senti o ar ao redor mudar e o chão tremer conforme meu ódio aumentava drasticamente. Não evitei um grito, mais de dor do que raiva. Escrituras não apareceram em minha pele, mas sabia que o poder estava sendo usado por mim.
         Uma força invisível varreu os soldados com a facilidade que o vento sopra uma pétala de flor. Todos os inimigos foram arremessados para diferentes direções, alguns se chocavam com construções de quartzo do pátio e tinham seus corpos reduzidos a pedaços de carne e ossos.
         Outros morriam pelo impacto, pescoços quebrados e membros virados para ângulos inexistentes. Caí de joelhos sentindo um pouco de sangue escorrer pelo meu nariz. Não prendi minhas lágrimas e as deixei correr livremente.
         Um sentimento de frustração se instalou em meu peito, eu havia feito tanta coisa, esperando que por eu aceitar o que há dentro de mim, as coisas melhorariam, mas eu estava errada, tudo pendia para o lado mais forte, que naquele momento era o império sombrio.
         Mais soldados se aproximavam, e mesmo que o rei tentasse os manter longe, não conseguia, devido a quantidade de homens. Tentei me levantar e lutar, mas a tristeza era tanta que meu corpo se recusava a obedecer os comandos.
        Do meio dos soldados, um homem apareceu, sua presença me causava arrepios, mas eu sabia que não era o líder deles, provavelmente algum dos capachos, ou um comandante. Ele deu alguns passos em nossa direção, e em minutos estávamos cercados.
        Não havia meio de escapar, apenas lutar até a morte, ou nem lutar, eu podia muito bem esperar que cortassem meu pescoço e jogassem meu corpo em uma cova rasa e ateassem fogo.
         Mas lembrei de uma frase em um livro, que dizia: O destino tende a nos surpreender de uma maneira diferente. E entendi que era verdade quando uma chuva de flechas matou todos os soldados nas redondezas.
         Ergui a cabeça e vi o brasão da casa Garlapar em um estandarte. Diversos soldados acompanhavam o rei, vestindo armaduras prateadas, com espadas desembainhadas e sujas de sangue, marchando em um só ritmo em minha direção. Eles tinham vindo.
         Finalmente consegui me levantar, sentindo o peso do traje quase me colocar no chão de novo e saboreei a visão, Vurian havia sido retomada. Amanda saiu do meio dos soldados, seus cabelos loiros estavam presos e ela também usava armadura.
         Amanda estava suja de sangue, ela tinha lutado, e não parecia profundamente incomodada como ficara quando matou seu pai. Ela me olhou procurando sinais de ferimentos, e só encontrara alguns arranhões.
         Seus olhos se encheram de lágrimas, assim como os meus. Corremos uma na direção da outra e nos abraçamos, juntando nossos lábios em um beijo ali mesmo, diante de todos. Acariciei seu rosto sentindo a maciez de sua pele, e meu coração finalmente se acalmou.
        — Você está aqui... está bem... — murmurou ela —, fiquei tão preocupada...
         Juntei minha testa na dela e fechei os olhos, sentindo sua respiração contra minha boca, fazia cócegas, mas ao mesmo tempo era tranquilizante.
        — Está aqui... vocês vieram... — falei baixinho.
        — Quando recebemos a carta, nos preparamos imediatamente... procurei você por duas semanas, e assim que li a carta, mal me contive... Ron me treinou o máximo que dava para o combate, eu não deixaria de vir...
        — Senti sua falta...
        — Eu também...
        Olhei para Farwell e o cumprimentei com a cabeça, ele devolveu o cumprimento e foi conversar com o rei de Vurian. Arthur se aleoxinou e me abraçou, também estava sujo de sangue.
         Entramos no palácio para fazer um levantamento dos danos, enquanto Gingar fazia uma cerimônia para Maalavan, na qual eu não faltei. Os caçadores levantaram uma oração antiga enquanto queimavam o corpo para espalhar as cinzas.
         Fiquei preocupada que me chamassem de maldição, pois dois Fath haviam morrido em menos de duas semanas, mas Gingar disse que a profecia tinha seus custos, e que todo o ser humano um dia voltaria para o mundo de origem, o paraíso.
         A noite caiu rápido e não esperei muito tempo para ir para o quarto e me deitar com Amanda. Beijei cada parte do seu corpo, fazendo-a perder o fôlego diversas vezes, e quando chegamos ao clímax juntas, dormimos abraçadas.
        

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