Depois do anúncio, uma comemoração se seguiu. Eu não conseguia entender como aquelas pessoas conseguiam comemorar depois de quase morrerem nas mãos do inimigo.
Pela expressão de Yara, soube que ela pensava do mesmo jeito. Maalavan estava distribuindo bençãos para o povo, enquanto algumas mesas de pedra eram montadas.
Me sentei e fiquei em silêncio, enquanto música alta era tocada e as pessoas dançavam e riam. Estava confusa, era para todos estarem assustados e torcerem para nenhum caçador se machuque, mas comemoravam.
Observei Gingar do lado de uma entrada, ele estava de braços cruzados encarando Maalavan. Eu era o centro das atrações, a única de cabelo escuro no meio daquele povo.
Mas ninguém falava comigo, apenas passavam, me olhavam e continuavam seus caminhos. Notei olhares curiosos das crianças, mas os rapazes e homens me observavam com desconfiança.
Alguns caçadores me olhavam para ter a certeza de que eu não iria fazer nada, provavelmente achavam que sou uma infiltrada.
Yara conseguiu a desvencilhar da multidão e sentou perto de mim, seu rosto parecia triste, e sua expressão era distante, como se estivesse perdida em pensamentos.
— Como conseguem? — perguntei.
— Acreditam que é melhor comemorar do que chorar pelos feridos e potenciais mortos, acham que eles deram seu sangue em batalha como dádiva.
— Isso é um pouco...
— Egoísta? Sim é. Esse povo só sabem pensar neles mesmos, Maalavan, eu e Hanms, o antigo Fath, tentamos por anos mudar isso neles, e agora que Maalavan se tornou Fath, vai continuar tentando.
— Entendi... então o nome dele era Hanms.
— Marciel Bill Hanms, ele odiava os outros dois nomes, então chamávamos ele de Fath Hanms.
— Bonito nome...
— Você não precisa ficar triste por aquilo, os soldados Imperiais atacam a muito tempo, aquele era o quinto esconderijo, Maalavan acredita que este aqui nunca será descoberto.
— Alguma notícia da batalha?
— Nossos caçadores conseguiram abater as tropas inimigas, poucas baixas, apenas três, e um ferido.
— Então venceram?
— A batalha sim, mas a guerra... ainda pode demorar bastante.
Apontei com a cabeça para o comandante dos caçadores.
— O que ele tem?
— Gingar e Maalavan são irmãos, tem opiniões diferentes, Gingar acredita que o erro foi dos homens de Maalavan, mas ele não concorda, acha que os caçadores deveriam está protegendo o esconderijo.
— No que você acredita?
— Ainda não sei, vamos ir até às colinas em dois dias, para vermos o que aconteceu com os receptores, eles não apareceram.
— Porque todos me olham?...
— Você é diferente, e teve aquilo... que você fez mais cedo, as pessoas estão curiosas e assustadas.
— Não sei como fiz aquilo, foi instinto.
— Entendo... — ela observou a multidão perambulando —, se quiser, podemos enviar uma carta para Zufreid, avisando que você está bem, mas não pode dizer qual é a localização onde está, combinado?
— Claro! — meu coração se acendeu —, quando podemos enviar?
— Assim que voltarmos das colinas em dois dias, os caçadores devem estar alerta, enviar uma carta não daria certo, seria interceptada.
— Entendi.
Maalavan apareceu de repente, me encarando. Estava novamente com expressão severa, como se não tivesse saído de uma comemoração, talvez estivesse fingindo estar alegre.
— Yara, me siga, traga a moça com você, precisamos conversar em particular.
— Sim, Fath — respondeu ela.
A sala em que fomos era totalmente lacrada por dentro, a pedra que faziam de porta não tinha rolamentos, e só podia ser puxada pelo lado inferior, onde haviam dois puxadores de ferro.
Me sentei na beira de uma mesa redonda de pedra escura, Maalavan fechou a porta e ficou de pé, Yara se sentou à minha direita e o observou confusa, tentando entender o que ele tinha para conversar.
— Você é algum tipo de feiticeira? Alguma coisa que não veio deste mundo? — a pergunta me acertou em cheio e eu quase caí para trás.
— Como assim?! Eu sou uma pessoa normal como todo mundo... — respondi confusa.
— Você pode ser tudo, menos uma pessoa normal, aquelas escrituras que apareceram na sua pele antes, eram na língua antiga dos deuses. O que o Fath disse a você?
— Não disse nada!
Maalavan colocou uma esfera de pedra na mesa, sua base era plana e permitia que ficasse parada na mesa. Senti uma energia diferente se instalar na sala, me puxava para mais perto, com a mesma sensação que senti na lembrança do teste com o diadema.
Um medo me atingiu, e se espalhava por todo meu corpo, a esfera me fazia querer se afastar, talvez pela energia que ela emitia, e então tive certeza.
Aquela esfera era um artefato sagrado.
Devagar afastei minha cadeira, temendo a mesma coisa que aconteceu quando toquei o diadema, era estranho sentir aquela energia, quando parecia que ninguém mais na sala sentia.
— Afaste isso de mim — falei involuntariamente.
— Calma moça, isso é apenas o Sol de Riviera — disse Yara.
— O Sol de Riviera revela os segredos escondidos, mas quando em contato com algo fora desse mundo, queima todos os órgãos internos. Quero que você o toque.
— Não quero tocar nisso — continuei me afastando, mesmo querendo obedecer aquele chamado a qualquer custo.
— Faremos você obedecer a força — avisou Maalavan — segure a esfera, se não tiver nada a esconder, ela simplesmente não fará nada.
Engoli em seco e me aproximei, sentindo os pelos dos meus braços se eriçarem. Movi minha mão na direção da esfera, quase recuando pela quentura que ela emitia além da energia.
Com um único movimento eu a peguei, contendo a vontade de vomitar. A energia era tanta que um cheiro de ferrugem subiu ás minhas narinas.
Repentinamente fui arremessada para uma escuridão. Eu conseguia ver a esfera em minhas mãos, mas continuava se afastando como se meu corpo estivesse caindo em um buraco fundo.
Não tinha consciência do que estava acontecendo, mas vi estrelas em uma aura rocha, a sensação era de estar em um lugar gracioso, passeando pelo universo.
Mas então diversas imagens passaram na minha frente. Guerras, morte e muito sofrimento, lágrimas, sangue, pânico, medo e imensas tropas indo para uma batalha em nome de uma só pessoa.
Em um pico elevado, havia uma mulher com algo na cabeça, seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, e ela usava roupas de combate vermelhas com preto. Não usava máscara de proteção, nem mesmo os soldados no campo de batalha.
Era como se não existisse mais a praga e agora tivessem que lutar contra um inimigo forte. Pessoas gritavam seu nome enquanto morriam, pedindo para que guardasse um lugar no paraíso para eles.
Seu rosto era impassível diante daquela chacina, e seus olhos brilhavam em azul cintilante, não havia pupila nem iris, estava tomada por um poder fora da compreensão de qualquer sacerdote.
Não haviam escrituras em sua pele, mas na palma de sua mão tinha um único símbolo, semelhante a uma tatuagem. Era um dragão em círculo, com uma silhueta humana em suas costas segurando uma lança.
E então, vi o mesmo dragão da tatuagem, atrás da mulher, esperando seu momento para guerrear. Ele era totalmente branco, com olhos avermelhados e tinha três vezes o tamanho de um dragão normal.
Quando me aproximei o suficiente para ver o rosto da mulher, fui puxada de volta pelo caminho escuro repentinamente.
Abri os olhos, eu estava caída no chão da sala. Maalavan estava diante de mim, a porta estava aberta e eu não via Yara em lugar algum. Senti algo escorrer do meu nariz, e quando coloquei o dedo e limpei, vi sangue.
Meu coração batia tão aceleradamente que pensei que ia pular para fora do peito. Maalavan me colocou sentada e quando olhei para a esfera, ela estava em pedaços, havia apenas a poeira dela.
Maalavan me olhava assustado, o que quer que tenha acontecido, havia causado um grande medo nele. Yara chegou com um copo de água, também estava lívida.
Senti que minha pele queimava, e vi o resto das escrituras desaparecendo lentamente. E então percebi, a sala estava em ruínas.
A mesa que antes havia no meio dela, estava partida em duas, cada parte para um lado e o chão estava cheio de rachaduras.
Olhei para os dois, com tanto medo quanto eles pareciam ter, e com cuidado perguntei:
— O que aconteceu?...
Nenhum dos dois me respondeu e pareciam perdidos em pensamentos, o que me deixava ainda pior do que estava. Yara em silêncio me ajudou a levantar.
Em seguida, lentamente me guiou para os corredores, ouvindo Maalavan dizer a ela para que mantivesse segredo do que acontecera. E mesmo perguntando diversas vezes, Yara não me respondeu.
Fui colocada no quarto, e Yara desapareceu corredores adentro. Eu não conseguia correlacionar onde estava com o que vi, nem como vi tudo aquilo. Parecia que estava em um tipo de teatro.
Mas senti tudo, o cheiro de sangue, os tremores, ouvi os gritos, era como se estivesse lá, mesmo não estando. O que me mantinha amedrontada era o fato de a esfera ter se reduzido a pó em minhas mãos.
Não ouvia mais a comemoração, e nem ao menos sabiam que horas eram, apenas tinha certeza que era tarde, e embora quisesse dormir, a visão que tive não saía de minha mente.
Comecei a ficar preocupada, aquela guerra não podia de jeito algum ocorrer, o mundo mal se recuperara da Guerra dos Santos, quanto mais outra.
Tentei guardar cada detalhe daquela visão, e pensei no que significava, quem era o inimigo, porque aquela guerra se iniciara e quem era a mulher no qual os soldados gritavam o nome que fora inaudível.
Encarei a porta por cerca de vinte minutos, tentando organizar os pensamentos, esperando que Yara ou Maalavan aparecessem para me dizer o que acontecera mais cedo.
Mas percebi que haviam ficado com tanto medo, que provavelmente não voltariam a me ver. Não os julguei, eu também não iria querer nunca mais voltar a ver uma pessoa que destruira uma sala inteira.
Coloquei as pernas em cima da cama de pedra e escondi meu rosto entre os braços, sentindo-o vibrar, a sensação da esfera ainda persistia em meu corpo.
Naquele momento desejei estar ao lado de Amanda, queria seu abraço, queria ouvir sua voz dizendo que tudo ficaria bem. Senti sua falta a noite toda.
Por mais que tentei, não consegui pregar os olhos, e pelas primeiras horas da manhã Yara não aparecera, ninguém fora ao meu quarto. De qualquer forma não precisava mais deles. Podia andar.
Me levantei devagar e segui na direção do saguão principal. Havia poucas pessoas nele, provavelmente o resto ainda estava dormindo. Ouvi elas conversando e rindo normalmente, semelhantemente ao outro esconderijo.
Maalavan não estava em lugar algum, nem Yara, então apenas segui o cheiro de café no ar. Meu estômago roncou, eu precisava comer alguma coisa.
Cheguei há uma espécie de cozinha, estava vazia, mas o fogão a lenha estava queimando, e um jarro de barro com café quente jazia em cima de um balcão.
Ao longe escutei a voz de Maalavan se aproximando, e quando ele apareceu na cozinha meu corpo travou. Não havia mais medo em seu olhar, pelo contrário, parecia bem e amigável.
— Logo conversaremos, moça, me espere lá — ele apontou para cima —, o ponto de vigia está vazio, os caçadores estão descansando para daqui um dia.
Assenti, mas não sabia como chegar no ponto de vigia, e Maalavan percebeu, pois disse logo em seguida:
— Siga pelo corredor do quarto em que dormiu, vire a esquerda no final, e encontrará uma escada logo no fim — e saiu, acompanhado de sacerdotes, provavelmente tinha algum assunto importante a tratar.
Fiz como ele me pediu, e logo encontrei um local no topo da montanha, que dava visão para o espaço aberto até a colina ao longe, havia um círculo de gelo — que imaginei ser o usado para lançar os avisos — mas não seria utilizado novamente.
O vento soprava suavemente, e o sol demonstrava seu esplendor por raios curtos que faziam riscos no céu conforme o dia chegava devagar. Meu coração estava aflito por algum motivo, passei a ter medo da palavra " conversar " pois ela vem me infligindo desgraças.
Maalavan apareceu e pôs-se ao meu lado. Não havia sinal nenhum da batalha do dia anterior no campo aberto, tudo parecia de volta ao seu devido lugar e estado natural.
— O que aconteceu ontem?... — perguntei abaixando a cabeça.
— Quer mesmo saber?
— Sim... por favor...
— Tivemos uma confirmação importante ontem a noite. Foi isso que aconteceu.
— Seja mais específico...
— Tem alguma coisa dentro de você, que a remete a uma deusa, fomos avisados de que isso aconteceria há muito tempo, mas não acreditamos.
— Isso não explica o estrago...
— A esfera explodiu e se desmanchou por conta do poder que estava saíndo de você. Temos fortes motivos para acreditar que você seja algum tipo de encarnação de Riviera.
— Como... como assim?
— Não sabemos, mas você tem muito poder, sentimos ontem, era um ser de total onipotência diante de nós.
Não podia ser. Uma garota comum como eu não tinha como ser uma reencarnação de uma deusa.
Pensei em Amanda, no quanto ela estaria em risco estando ao lado de uma coisa como eu.
O medo se instalou dentro de mim com um pesar no meu estômago, o que Maalavan estava me dizendo sequer fazia sentido.
— Vamos ver um vidente em breve, ele virá de um esconderijo mais ao Norte, teremos uma confirmação certeira com ele. Não tenha medo.
— O Fath... me disse que... eu renego o que sou...
— Um dia também fiz isso, mas passei a entender que o mundo é feito de coisas assim, responsabilidades que não queremos, mas ainda assim não temos como as renegar.
Olhei para o horizonte, sentindo o frio no meu estômago, estava com medo de ter que aceitar aquilo dentro de mim. Mas se fosse a única maneira, não teria o que fazer.
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Os Ventos do Norte
FantasyEm um mundo assolado por uma praga, Rosemary cresceu sozinha, dentro de um reino selado pelo medo de serem contaminados. Decidida a ajudar o exército real na luta contra os rebeldes conhecidos por Pesadelos, Rose descobre que há uma maneira de acaba...
