Capitulo 04 - Você vai me dar um beijo?

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Meu corpo inteiro gela por dentro, e eu sinto que minhas pernas vão me trair e me levar para o chão

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Meu corpo inteiro gela por dentro, e eu sinto que minhas pernas vão me trair e me levar para o chão. Estou travada, com as mãos enfiando meu livro dentro da bolsa, e tudo que consigo fazer é olhar para Lauren, que estava tão petrificada quanto eu, encarando Zayn.
A sala estava movimentada, com muito barulho, então não acho que ninguém além de nós ouviu, mas só a ideia de que um curioso prestou atenção começa a perturbar cada célula do meu corpo.

De todas as pessoas que estavam naquela igreja, Zayn não era uma delas, eu tenho certeza absoluta, e pela forma que Lauren o olhava, também não o tinha visto.

Que porra é essa?

Me obrigo a me recompor, porque ficar encarando ele da forma que estava poderia soar mal se precisaremos mentir depois.

— Não sei do que você está falando – finalmente digo, colocando minha bolsa no ombro. – Lauren, estamos atrasadas, vamos.

Ela rapidamente assente, e nós saímos apressadas da sala, sem olhar para trás para conferir a reação de Zayn.
Meu coração já está batendo forte sobre o peito quando, caladas, seguimos o corredor dos armários até que estejamos distantes o suficiente da sala.

Neste momento, eu estou odiando que Lauren e eu sejamos rostos conhecidos, porque estou lutando para segurar todos os sentimentos que explodiram dentro de mim e a ansiedade que está se formando em decorrência a isso, e, ainda assim, preciso sorrir e acenar para todas as pessoas que cumprimentam a mim ou a Lauren no caminho.

— O que foi isso? – Eu pergunto, em um tom de voz baixo, mas que deixe claro minha confusão quando paramos, e Lauren apoia as costas na parede.

— Eu não me lembro dele – ela diz, no mesmo tom que eu, enquanto olhamos desesperadamente para os lados, com medo de alguém prestar atenção na nossa conversa.

— Nem eu! Eu nunca vi esse garoto na minha vida – estou gesticulando muito, como se estivessemos brigando, e vejo algumas pessoas percebendo o excesso de movimentação. – Não podemos conversar aqui. Temos aula de patologia agora, não é a matéria mais importante, vamos até meu quarto.

— Preciso entregar o que o Justin me pediu primeiro, ele vai me procurar até no inferno se eu não aparecer com as coisas dele – Lauren tira o celular do bolso, confere as horas e olha pra mim em seguida. – Te encontro no seu quarto daqui a dez minutos.

Não contesto, porque era melhor aguardar dez minutos do que ter nossa conversa interrompida por um drogado, que sabe se lá Deus o que  sua abstinência vai o obrigada a fazer. Nós nos separamos então, e Lauren pega o caminho da saída do prédio enquanto eu o da escadaria para o dormitório.

Sei que Dinah não tem horários livres, e nunca a vi matando aula, então tenho certeza que ela não vai aparecer quando fecho a porta e jogo minha mochila para qualquer canto. Meu peito está se contraindo, e parece que há uma bigorna o causando a sensação de sufoco. Abano as mãos, como se isso fosse livrar a ansiedade que transbordou em mim de um minuto para outro, e me debruço no hack que havia na parede de frente à porta, que Dinah e eu usávamos como divisão de lados do quarto. Encaro meu reflexo pelo espelho oval que eu deixava na minha parte, e percebo minhas bochechas avermelhadas e os olhos lacrimejando, causando um destaque maior na maquiagem leve que eu passava.

Cada segundo que espero Lauren parece uma tortura, e eu uso esse tempo para tentar lembrar dos rostos de cada pessoa que estava naquele lugar com a gente, e Zayn não se enquadrava. Não conhecíamos nenhuma delas, nem mesmo o garoto que morreu, apenas encontramos aquele grupo, acabamos nos entrosando, e aceitamos beber mais na igreja que havia fechado suas portas para uma reforma que já se pendurava por mais de três meses. Pensávamos que seria algo rápido, e me lembro que Lauren e eu combinamos de voltar para sua casa uns trinta minutos depois. Só queríamos ir para ter aquela experiência de invadir um lugar para curtir. Que idiota fomos.

O barulho da porta se abrindo me arranca um susto, e estou pronta para inventar uma desculpa fajuta caso Dinah tenha resolvido esquecer algo justo agora ou um dos meninos tenha vindo me procurar, mas é Lauren que entra no quarto, me arrancando um alívio instantâneo.

— Conseguiu resolver? – Pergunto, e ela assente. –Alguem te viu entrando aqui?

Lauren nega com a cabeça, fechando a porta atrás de si e a trancando sem precisar olhar para a fechadura.

— Não se preocupa, Camilinha, é mais fácil que eles pensem que viemos aqui nos pegar do que discutir sobre o incêndio – eu encaro bem Lauren, tentando acreditar que ela não está fazendo piada com esse momento, mas ela fez.

Em uma onda de nervosismo que se espalhou pelo meu corpo, eu a empurro, até que suas costas vão parar na porta.

— Você está achando que isso é uma brincadeira? – A empurro de novo, mesmo que não haja mais lugar para ela recuar, e isso faz com que nossos corpos ficassem próximos ao ponto do meu joelho encostar no dela. – Apareceu uma pessoa que sabe que estávamos lá!

Lauren não me olha com surpresa pelo empurrão repentino, sequer ergue as sobrancelhas. Muito pelo contrário, ela me encara diretamente nos olhos, e é como se o que eu estivesse sentindo começasse a ser canalizado por aquele par de esmeraldas. Com exceção do jogo na casa de Harry, faziam-se meses que não nos encaravamos tão de perto assim, que eu não conseguia enxergar com detalhes cada pelo de sua sobrancelha bem desenhada, os cílios longos e seu piercing no nariz ou a cor exata de seus olhos. Não sei como reagir a isso.

— Estou te falando algo óbvio, Camila, não tem como alguém aleatório deste corredor ligar a gente ao incêndio só porque eu entrei dentro do seu quarto – ela liberta meus olhos da armadilha que era os seus, e passa a encarar meus lábios, com um sorrisinho de canto. – Agora, você vai me soltar para conversarmos sobre isso ou vai me dar um beijo?

Encaro Lauren por mais uns três segundos, que se pareciam minutos. É impossível estar tão perto dela e não acabar vacilando o olhar para seus lábios, e ela sorri mais um pouco quando me rendo a isso.

— Eu odeio tanto você – digo, quando tomo o controle de mim novamente, e me afasto dela.

Afundo os dedos no meu cabelo, caminhando em direção ao hack novamente. O sentimento de ansiedade se esvaiu um pouco das minhas entranhas, mas há novas sensações aqui dentro, e não consigo lidar com todas elas de uma só vez.

— Eu tentei me lembrar de todas as pessoas que estavam com a gente, Lauren, e Zayn não estava lá – eu afirmo, tendo certeza absoluta do que estou dizendo, e ela concorda, trancando a porta atrás de si.

— Eu estava pensando em algo enquanto ia me encontrar com Justin – ela se senta na cama de Dinah, abandonando o humor que estava tendo alguns segundos atrás. – Nós nunca conversamos sobre o que aconteceu naquele dia. Estávamos muito drogadas, Camila, as vezes podemos ter esquecido coisas ou imaginado coisas que estavam lá e na verdade não estavam. Zayn poderia sim estar lá, mas nenhuma de nós lembra disso.

A ideia chega a me apavorar. Naquela noite, Lauren e eu bebemos em uma festa dos veteranos que estava acontecendo no centro da cidade, e depois tivemos a brilhante ideia de engolir uma droga nova que havia chegado nas mãos de Lauren. Foi minutos antes de encontrarmos esse grupo.

— Meu Deus... – eu me sento na minha cama, porque não sei se minhas pernas vão conseguir suportar meu peso por muito tempo. – Isso quer dizer que há uma possibilidade da realidade que achamos que aconteceu naquele dia seja mentira?

— A droga é alucinógena, e nós tínhamos bebido antes. Não sei como não pensei nisso, mas depois desse garoto aparecer, me veio na cabeça – ela afunda as mãos nos cabelos, exatamente como eu fiz, e permanece encarando o chão por longos segundos. – Isso é muito ruim! Podemos ter feito qualquer coisa nessa noite e não lembramos.

— Eu vou te contar a minha versão daquela noite, e o que aconteceu pra mim – digo, querendo começar a roer as unhas. – Vamos ver se bate com o que você viu, ok?

Lauren maneia a cabeça em concordância, e eu suspiro fundo, reunindo coragem para voltar naquela noite. Nunca tínhamos entrado no assunto antes, e como não tive coragem de contar para mais ninguém o que houve, fiquei com a história guardada pra mim por todo esse tempo, e agora sou obrigada a cuspi-la pra fora.

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