Me espera...

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(Por Orm)

Depois de alguns dias finalmente consegui fechar um acordo lucrativo com um dos maiores fornecedores da Inglaterra, as peças que eram fabricadas pela empresa do mesmo eram de excelente qualidade, o que daria uma enorme vantagem para a Bit Company chegar ao topo no ramo de tecnologia.
Resolvi levar a mamãe pra jantar fora e comemorar, mas ela já tinha feito planos com o Rudolf e insistiu para que eu fosse com eles, eu não iria ficar segurando vê-la, então simplesmente rejeitei a oferta.
Lacuna também estava ocupado paparicando o seu novo namorado, a Lingling havia me falado uma vez que o amigo dela troca de homem como as próprias cuecas, achei que ela exagerava ao dizer aquilo, porém ao conhecê-lo melhor eu constatei que era verdade dela.
Lingling... Eu pensava nela o tempo inteiro, bastava alguém fazer algo que ela já tivesse feito ou dito uma palavra da mesma forma que ela falava e pronto... Lá estava eu sofrendo de saudades dela.
Jaja e Nene também não daria pra contar, elas tinham que tomar conta da boate.
Resolvi ir sozinha no restaurante para jantar e espairecer, era final de semana e muitas pessoas estavam nas ruas, foi difícil achar um lugar seguro para estacionar o Porsche dela, mas assim que o fiz segui caminhando pelas ruas um tanto distraída.
Acabei desistindo depois de alguns minutos ao encontrar um bar nas ruas de Soho, She Soho. Eu não vi muita movimentação e o fato de só ver mulheres entrando me chamou a atenção.
Consegui arrumar uma mesa pequena que me dava livre acesso a enorme televisão pendurada no centro de uma das paredes, ligada em um jogo de futebol, mas sem áudio algum, pois o som da batida pop invadiu todo o ambiente enquanto algumas mulheres bebiam e dançavam.
Eu gostava de admirar o ritmo de seus corpos em compasso com a música alta e as luzes que giravam com diversas cores.
Antes que uma atendente viesse me atender, duas mulheres flertaram comigo, fiquei sem jeito e inventei uma desculpa qualquer para que saíssem de perto, só depois disso que consegui pedir um coquetel.
Outra mulher apareceu com duas garrafas de cerveja e me ofereceu uma delas, quando estava prestes a rejeitar senti um braço pesar sobre os meus ombros, eu levantei a cabeça e encarei os olhos castanhos de Prig Yakaret que me abriu um sorriso largo.
Ela se virou para a outra mulher e a mandou sumir, eu fiquei desconcertada com a situação, mas não consegui reagir:
- Está sozinha? – Ela perguntou.
- Sim, preciso me distrair um pouco – Falei enquanto ela se sentava na outra cadeira.
- Quer beber o quê? – Ela perguntou erguendo o volume da voz.
- Eu pedi um coquetel, já deve estar chegando.
- Posso lhe fazer companhia? – Ela se ofereceu e eu acenei positivamente – É chato vir aqui sem ninguém, não ter com quem conversar.
Ficamos bebendo e falando do trabalho, a senhorita Yakaret parecia muita empolgada com tudo e a sua companhia era agradável. Como eu não tinha o costume de beber, na minha terceira taça me senti tonta e decidi parar, olhei para o celular e percebi que nós duas jogamos conversa fora por quase três horas.
Era o momento de partir, mas a tontura piorou quando fiquei em pé, Yakaret me segurou e me levou pra fora do bar.
Andamos em silêncio por todo caminho até o Porsche e ela tomou as chaves da minha mão dizendo que eu não tinha condições para dirigir, eu lutei pra arrancar a chave dela, mas Yakaret disse que iria me levar pra casa já que eu estava cambaleante.
Eu ri desse cuidado, mas insisti em dirigir. Ela destravou o Porsche e se sentou no banco do motorista, Lingling me mataria se soubesse que outra pessoa dirigiu o seu precioso veículo.
Bufei reprovando a atitude dela e entrei pelo lado do carona, ela sorriu vitoriosa e ligou o carro, logo saímos de lá:
- ... Então o acordo finalmente foi fechado? – Ela prosseguiu a conversa.
- Sim, em pouco tempo receberemos as novas peças.
- Isso é fascinante, a senhorita também – Ela elogiou.
- Não tenho nada de fascinante – Rebati olhando a estrada, estávamos chegando na minha casa.
- Claro que é, a senhorita é jovem, inteligente, tem um cargo bom na empresa, um carro bacana... E é uma mulher muito bonita! – Ela listou me fazendo rir, “Ah, se ela soubesse de tudo” pensei – Não sei porque a senhorita ainda está solteira, é um excelente partido.
- E você, porque está solteira?
- Dedo podre – Ela se limitou a dizer rindo e me fazendo rir junto.
- Vire na próxima esquina, é a terceira casa – Informei e ela o fez.
Yakaret estacionou o Porsche e ficou me encarando por alguns segundos, um olhar bem diferente de quando estávamos trabalhando, o peso em seu olhar me deixou confusa e eu desviei, ela destravou o cinto e tocou em minha perna, me chamando a atenção:
- Você é muito bonita Orm – Era a segunda vez que ela me chamava pelo nome e achei a forma que ela falou esquisita.
Ela se inclinou na minha direção e me puxou para um beijo, no início eu cedi, pois me sentia muito carente, mas quando ela me deu uma leve mordida no lábio eu me afastei assustada com o que fazia, dei um pulo pra trás e a minha mão bateu na gaveta do painel do carro.
Alguns papéis caíram de lá e se espalharam sobre o meu colo e no piso do carro, Yakaret pareceu-me envergonhada com a minha reação e pediu desculpas, eu por outro lado também pedi confessando que não estava pronta para começar algo novo.
Ambas ruborizadas com o que havia acontecido.
Peguei os papéis e comecei a examiná-los, eram algumas anotações que Lingling fez sobre a empresa, tinha também duas passagens impressas para Amsterdam no nome dela e no meu para logo depois do nosso casamento cancelado.
Lingling... Eu suspirei e Yakaret pegou uma das passagens:
- Lingling Sirilak? – Ela leu.
- Sim, minha ex.
- Ela não era a antiga CEO da Bit Company? – Ela perguntou me fazendo encará-la novamente.
- Como você sabe disso?
- O pessoal da empresa já comentou sobre ela e de como vocês são parecidas quando o assunto é trabalho – Ela soltou um sorrisinho.
No piso havia um último papel, era um envelope com o meu nome escrito... Uma carta? Tanto Yakaret quanto eu olhamos para o papel, então pedi gentilmente que ela me deixasse sozinha e ela respondeu que chamaria um táxi para levá-la embora.
Eu pedi desculpas outra vez por ter atrapalhado a diversão dela, contudo ela disse que estava tudo bem.
No final, ela apertou a minha mão e decidimos resetar as ocorrências daquela noite, eu entrei em casa com as mãos trêmulas, joguei a bolsa e a carta na cama e corri para o banheiro para tomar um banho demorado.
A ansiedade em ler aquela carta não me deixou demorar mais do que dez minutos no banho e ao sair, guardei a bolsa e me joguei no colchão, alisei a letra escrita em tailandês, ambas sabíamos ler e escrever a nossa língua materna.
Respirei profundamente enquanto encarava o papel, medo... O medo de saber o que continha ali me fez adiar o momento em que eu descobriria o que ela escreveu pra mim.
Quando abri o envelope o meu celular tocou, era o Lacuna:
- Você está aonde? – Ele questionou.
- Em casa e você? – Rebati.
- Bebendo... Acabei de terminar com o Paul – Ele choramingou.
- Precisa que eu vá te buscar? – Ofereci e ele aceitou.
Dirigi até um bar não tão distante de onde eu estava antes e encontrei Lacuna na porta me esperando, assim que destravei a porta do carro, ele entrou e olhou para o banco:
- Orm, tem um papel aqui... Espera aí, eu conheço essa letra – Ele analisou melhor o envelope – A Lingling te deixou uma carta? Você já leu? – Ele perguntou ao entrar no carro.
- Eu ia fazer isso quando você me ligou, mas não... Ainda não li.
- Porque você veio me buscar e não leu a carta? – Ele gritou.
- Porque você ficou irritado?
- Não estou irritado, só acho que a carta é mais importante pra você do que vir me consolar.
- Você é meu amigo e precisou de mim e a carta eu posso abrir a qualquer hora.
Ele ficou quieto, talvez estivesse analisando as minhas palavras, eu o levei até a sua casa e ao sair do Porsche ele disse que era melhor eu ler a carta antes que viesse a perdê-la, eu concordei e voltei para o meu lar.
Sentei na cama com a carta nas mãos, “Coragem” pensei repetidas vezes, então abri o envelope e comecei a leitura.

Londres, Fevereiro de 2.025

Minha querida Orm, nesse momento não estarei mais contigo e você não estará mais em perigo por minha culpa, eu sinto muito, eu sinto de verdade ter colocado a sua mãe e você na mira do meu pai, aquele tiro que eu levei nunca foi endereçado a mim e sim a você, pois eu enrolei para sucumbir a chantagem que o meu pai fez.
Há mais de uma semana descobri quem era Pentaii Natthanit e agora você também deve saber quem ele é, o que você não sabe é que esse pulha veio a mando de meu pai para nos espionar e me levar pra Tailândia.
Vou ser direta em alguns pontos que evitei contar pra você, não porque busco o seu perdão com isso, mas porque é a minha obrigação te contar e você precisa saber os meus motivos para ter ficado calada todo esse tempo.
Quando fomos pra Suíça foi na intenção de abafar a notícia sobre nosso relacionamento, pensei que pudéssemos fugir deste destino, porém isso não aconteceu e se eu ficasse me escondendo pra sempre contigo ao meu lado era uma ideia totalmente absurda, pois não sou de fugir.
Quando ouvi a verdade sobre a morte do seu avô, eu pensei em revelar quem eu era, mas também não consegui, eu posso até ser parecida com o meu pai, mas não sou ele!
Devo confessar também que a Bit Company é de minha pose, não sou só uma funcionária de lá, sou a proprietária, então todas as decisões inclusive sobre você foram tomadas por mim, por favor não peça pra sair da empresa, não pedi que a promovessem temporariamente porque eu amo você e sim porque eu acredito na sua capacidade de gestão.
No dia em que voltamos da Espanha eu pedi aos meus homens de confiança para levarem o seu ex namorado a minha primeira casa na Inglaterra, após ele falar da relação de vocês eu autorizei os meus funcionários de baterem nele.
Bem, acho que essas são todas as coisas que escondi de você e por estar escrevendo-as pra ti, eu até me sinto um pouco aliviada, não tenho orgulho das vezes que usei o meu sobrenome e acredito eu que nunca o terei.
Quanto a nós, eu me lembro perfeitamente da primeira em que lhe vi, a gente se esbarrou e você acabou caindo, lembra? Você estava bastante apressada, quando eu te olhei melhor me encantei com o seu rosto perfeito de boneca, os seus cabelos claros e os olhos... Mas quando você sorriu foi ali que eu me rendi.
Desde aquele dia eu quis estar contigo e isso não mudou, eu amo você, Orm... Você sempre foi honesta em relação aos seus sentimentos, a sua confissão no hospital me deixou eufórica e me deu esperança e agora serei eu aqui neste pedaço de papel lhe dando uma esperança também.
Eu não desisti de nós e se você sentir o mesmo... Me espera, eu vou voltar nem que eu precise derrubar a fortaleza de mentiras que o meu pai criou, estou sendo egoísta em pedir isso a você, mas às vezes é necessário pensar dessa forma.
Se você ainda sente amor por mim, me espera, porque não teve um dia sequer que não pensei em ti, que não torci pela sua felicidade.
Eu deixei o Porsche pra você usar, contudo a minha real intenção era de você achar essa carta, então não divulgue a ninguém que lhe escrevi isso, queime-a depois de ler, pois o conhecimento é poder, mas também é arriscado ter.
Uma última coisa, a senha do meu cofre é 052702, sim... A data do seu nascimento, lá eu tenho documentos importantes e se eu não conseguir voltar em breve, abra o cofre e entregue os documentos a Rudolf que ele saberá o que fazer.
Você também encontrará alguns objetos por lá e um documento que deverá ser entregue ao meu advogado.
Mas eu pretendo voltar e se você seguir em frente eu vou entender, poderei sofrer com isso, contudo entenderei.
E se eu omiti essas coisas de você é porque eu te conheço, você não me deixaria partir e iria querer lutar essa guerra ao meu lado e se o meu pai conseguisse te tirar deste mundo, então qual seria a minha motivação para viver?
Eu te amo muito... E sempre!
De sua Lingling.

Depois de reler a carta pela décima vez tentando parar de chorar acabei escondendo-a atrás de um quadro meu com a minha mãe que ficava pendurada em meu quarto.
Eu deveria esperar por ela depois de tantas omissões? Deveria esperar por alguém que só disse que me amava por carta? Deveria esperar por uma promessa que nem sabíamos se seria ou não cumprida?
Eu amava a Lingling e isso já era motivo suficiente para aguardar o seu retorno, mas... A pergunta que não se calava em minha mente era... Quando?

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