(Por Lingling)
Três semanas havia se passado desde que pisei na Tailândia, Um Apasiri e eu combinamos de manter as aparências enquanto nós nos conhecíamos melhor, não sei porque no final resolvi abrir a guarda e deixar aquela mulher entrar na minha vida, mas eu deixei.
Também não fui tola de contar os meus planos, eu estudava o seu teatro na frente dos empregados e quando ficávamos alguns minutos sozinhas permitia ela desabafar as suas dores.
Ela sabia que se eu conseguisse sair daquela situação provavelmente nunca mais me veria e confessou que aproveitaria o máximo de tempo de minha estadia ali.
Um Apasiri se mostrou uma mulher frágil e solitária, triste e completamente dependente de Plai, ela não sentia nada por ele senão um profundo horror e com os dias eu fui descobrindo mais coisas daquela relação.
Ela tentou fazer um aborto quando soube que ficou grávida e me pediu perdão, na época o Plai já havia se transformado no homem agressivo e manipulador que era e ela sentiu pela segunda vez na pele a dor de conviver com alguém assim.
O pai de Um Apasiri não era diferente ao marido e o apoiava incondicionalmente, a mãe dela morreu jovem, consequências da violência doméstica.
Quando eu nasci, Um Apasiri depositou todo o amor que nunca recebeu em mim e talvez seja essa a razão de eu nunca esqueci o seu rosto. Ela ainda possuía permissão pra sair, mas era obrigada a me levar e ao motorista, o avô de Orm.
Ela me mostrou diversas fotografias de quando eu ainda estava em sua barriga até o último dia que eu morei com eles, fazendo questão de registrar cada fase, às vezes eu perguntava sobre algo entre um gole e outro de uísque:
- ... E o seu pai permitiu que você fosse para a faculdade? – Questionei ao ver uma foto dela vestida com o uniforme de uma das melhores faculdades da Tailândia.
- Sim, mas só fiquei na Khon Kaen por um ano, depois abandonei os estudos para me casar.
Ouvimos uma batida na porta, o que a fez se calar:
- Senhorita Kwong, o senhor Plai requisita a sua presença no escritório – O homem falou ignorando a presença de Um Apasiri, ela e eu nos entreolhamos antes de eu levantar da cama dela e encará-lo.
- Diga a ele que descerei em cinco minutos – Falei e voltei a olhar para Um Apasiri, porém o homem não saiu, encarei-o irritada – Algum problema?
- Ninguém faz o senhor Plai esperar, senhorita! – Ele avisou.
Me levantei e fui até a porta e a fechei deixando o homem e Um Apasiri espantados com a minha atitude:
- Você sabe que ele continua atrás da porta, não? – Ela disse.
- Eu sei – Sorri pra ela como uma criança que estava aprontando e ela retribuiu o gesto – Quando tivermos mais privacidade eu volto ok.
Ela assentiu ainda sorrindo pra mim e eu saí, o homem ficou sem reação ao ser pego com o rosto colado na porta, então falei que se ele queria tanto escutar assuntos de mulheres da próxima vez eu faria um chá das cinco e o convidaria.
Saí sem esperar qualquer resposta e fui direto para o escritório, bati na porta e entrei, vi que Plai estava acompanhado de um outro homem, era Pentaii:
- Você perdeu peso – Pentaii falou após me observar.
- E você... Continua o mesmo – Debochei.
- Porque você demorou? – Plai foi direto.
- Porque iria sair correndo? – Ergui uma das sobrancelhas, Pentaii que nos observava começou a rir, mas parou após ver o semblante fechado no rosto do mais velho.
- Eu te disse senhor Plai, a sua filha tem a sua personalidade – Pentaii afirmou.
- De fato – Ele concordou – Lingling se tornou uma mulher muito ousada e astuta, pena que não é prudente em determinadas ocasiões.
- Porque você me pediu pra vir aqui? Algo que eu precise saber?
- Sim, daqui um mês estaremos realizando o casamento de vocês, já fui informado que a Um Apasiri e você estão vendo o vestido e isso me deixa satisfeito – Ele falou enquanto se servia de seu uísque – O senhor Natthanit me pediu para conhecê-la melhor, então vou deixar vocês saírem um pouco.
Olhei para Pentaii que me sorriu de uma maneira estranha, pensei sobre o que ele estaria armando com isso, todavia a possibilidade de sair daquela mansão era algo realmente tentador pra mim, eu assenti em concordância sem esboçar qualquer sentimento.
Plai então ordenou que um de seus homens buscasse Um Apasiri com a intenção de tirarmos uma fotografia para expôr a notícia do casamento, sempre odiei esse tipo de exposição, mas acatei, pois eu precisava conversar à sós com Pentaii.
Entramos no carro de dele e seguimos rumo a Phrathat Yakhu.
Chegando na vila seguimos em silêncio em direção ao monumento, infelizmente o caminho não estava conservado como deveria, ervas daninhas cresciam por boa parte do local, percebi que Pentaii ficava olhando por todas as direções buscando por algo ou alguém, tão paranoico quanto eu.
Quando ele se certificou de que realmente estávamos sozinhos logo soltou a primeira pergunta:
- Você ainda pensa na senhorita Kornnaphat?
- Isso não é da sua conta – Fui grosseira.
- Ok, tudo bem – Ele respirou profundamente – Você quer realmente se casar comigo?
- Não mesmo – Respondi sincera vendo-o balançar a cabeça em concordância.
- Acha que conseguiríamos viver um casamento de fachada?
- Não – Falei num tom mais alto – Não vou passar a minha vida vivendo uma mentira!
- Ok, então pensamos o mesmo – Ele admitiu e voltou a andar, eu o segui – O que faremos pra nós dois ficarmos livres desse compromisso? Já pensei em várias coisas e não consigo ver.
- Plai só quer o que você tem – Afirmei.
- Eu sei disso, não sou um tolo – Ele parou de andar e me encarou – O meu pai fez esse acordo com o seu para garantir a minha segurança e o seu só aceitou pra ter o poder dos territórios que herdei do meu velho.
- A IA Toys faz parte desse esquema, não?
- Sim – Ele disse desviando o olhar – Odeio essa empresa, há muito fraude e por mais que seja rendável, é somente dinheiro sujo, mas você sabe disso... Lembra?
- Sim – Me limitei em responder.
- Eu tenho um excelente trabalho em Boston e as minhas particularidades estão lá, não quero viver a sombra do medo e aos mandados do seu pai.
- Porque você foi pra Inglaterra atrás de mim? Porque você agiu daquela forma? – Quis saber.
- Antes eu do que um daqueles homens que trabalham para o seu pai, não acha? Eu consegui prolongar a sua estadia lá por mais de uma semana e se fosse outro cara talvez a senhorita Kornnaphat já estivesse morta – Ele ponderou.
- Talvez – Me dei por vencida – Preciso pensar nos nossos próximos passos, vamos fazer um acordo aqui senhor Natthanit, você me ajuda e eu farei o melhor para conseguirmos fugir de toda essa situação.
Ele balançou a cabeça concordando e eu lhe ofereci a mão, após um breve cumprimento deixamos Phrathat Yakhu pra trás e voltamos para a mansão.
...
Dois dias se passaram e a minha mente continuou em branco, aproveitei o fato de Plai ter saído para uma de suas reuniões importantes e levado consigo a Um Apasiri, eu não confiava nela exatamente, mas percebi com a nossa convivência que ela sentia carinho por mim.
Deixei o quarto e olhei ao redor, porém não havia nenhum homem espionando e as empregadas estavam ocupadas com os seus afazeres domésticos.
Lentamente segui até o escritório de Plai e testei a chave que Um Apasiri havia me dado, foi expendido ver a porta se abrir, olhei ao redor novamente antes de entrar no cômodo.
Não tinha a menor ideia de quanto tempo eles ficariam fora, mas calculei duas horas como uma média, eu estudei os hábitos da casa enquanto bebia uísque no jardim ou olhava pela janela do quarto tudo ou simplesmente na hora de uma das refeições da casa.
Tranquei-me por dentro e escondi a chave no bolso, peguei o celular que eu havia encomendado e liguei para o meu funcionário, ele me informou que a senhora Koy e Orm estavam bem e que os homens de meu pai já não as seguiam.
Inclusive me deu uma notícia maravilhosa de que ele e a senhora Koy começaram a se entender, eu o parabenizei e perguntei sobre o Pentaii.
Rudolf disse que Pentaii ficou hospedado em um hotel em Boston e todas as noites recebia a visita de uma mulher jovem, passava horas com ela e às vezes ficavam até o amanhecer juntos.
Ela também foi averiguada e o meu funcionário relatou que essa jovem era a ex noiva de Pentaii e que esses encontros eram bem picantes, quando pedi a ele que evitasse certos comentários, Rudolf riu alto e continuou:
- ... A senhorita Orm permanece fazendo um excelente trabalho na Bit Company, tem sido bastante elogiada e requisitada, nos últimos dias ela evitou sair de casa e a única vez que passou uma noite fora foi quando ela saiu com o seu amigo.
- Lacuna?
- Sim.
- Mais alguma coisa?
- Por enquanto tudo continua o mesmo, quando souber de mais algo eu te ligo – Ele disse e eu falei para que não me ligasse, eu entraria em contato quando pudesse.
- Já descobriu uma forma de derrubar o Plai? – Ele perguntou.
- Não tenho certeza, vou continuar observando as pessoas daqui, ele com certeza tem diversos desafetos e precisarei de aliados.
- Haja com cautela – Ele me pediu e eu sorri.
- É o que eu sempre faço – Admiti e desliguei.
Olhei pela janela sorrateiramente e vi que eles não haviam retornado, aproveitei e liguei para o Lacuna, mandei por mensagem um link com a foto que o Plai me fez tirar e conversamos sobre ele e o seu novo caso de amor.
Perguntei se ele havia saído com a Orm e ele disse que a levou na boate da Jaja e que ela ficou horas conversando com uma garota no bar, eu me senti incomodada ao saber disso, mas se ela encontrasse outra pessoa que a tratasse bem, no final eu teria que aceitar.
Preferira perdê-la para outra pessoa que a amasse do que fazê-la pagar com a vida por eu ter me deixado apaixonar por ela:
- ... Eu já te mandei o link, agora conte a Orm sobre o casamento... – Pedi.
- Mas se eu fizer isso, ela vai te odiar e eu agirei como um péssimo amigo – Ele afirmou.
- Ela precisa saber – Eu suspirei desolada – Ela vai te ouvir e ficará em choque, depois tentará saber de outras pessoas o que eu sentia por ela e por fim ela irá atrás da Eclair.
- Isso é só uma suposição – Ele advertiu.
- Não, isso é o que eu vejo que acontecerá e te falo uma coisa, a Eclair deverá falar sobre algum momento que eu fiz algo pela Orm só pra me defender – Hesitei em continuar, mas o fiz – Eu não quero que você fale com a Eclair, pois preciso que ela haja naturalmente com a Orm e se quando eu voltar pra Inglaterra, ela estiver com outra pessoa eu vou respeitar.
- Mas querida, há necessidade de contar sobre o casamento? Porque eu não... – Interrompi-o.
- Chega de esconder as coisas dela, os homens de Plai não estão mais aí – Afirmei – A Orm sempre enxergou em mim um caminho colorido e a minha vida era somente escuridão. Como eu daria a ela tudo que ela merecia quando as pessoas ao redor estavam fazendo de tudo pra nos distanciar?
- Lingling, não seja dura consigo mesmo – Ele pediu.
- Não estou sendo, meu amigo e não me entenda mal, eu amo a Orm e faria o tudo o que eu pudesse pra vê-la feliz, mesmo que isso signifique ficar longe dela. Ela talvez não entenda a minha decisão, mas não estou pensando em mim, se eu fosse pensar apenas em mim eu não a largaria nunca mais! – Após ouvir o meu desabafo, Lacuna ficou quieto, eu ouvia a sua respiração do outro lado da linha.
Os braços da Orm se tornaram o meu refúgio, ela conseguia tirar a minha dor só estando perto, ela nem imaginava a força que me transmitia, a paz que sentia ao me entregar aos seus abraços e os seus lábios era a perfeita conjuntura entre a minha sanidade e a loucura.
Eu queria me perder inúmeras vezes em dentro dela e desejei calorosamente vê-la entregue sem vergonha, medo ou qualquer outro sentimento ruim, ela era a garota dos meus sonhos e eu era completamente apaixonada por ela:
- Porque você não fala com ela? Liga pra ela e diz o quanto a ama Lingling, acho que vocês duas precisam disso – Ele opinou.
- Não posso ainda Lacuna, se eu dissesse que a amo, ela ficaria em risco, porque ao dizer apenas essas três palavras eu voltaria a pôr um alvo pintado em suas costas e eu morreria se algo lhe acontecesse, ainda mais sendo eu a culpada.
- Me desculpa, esqueci que pra você também está sendo difícil!
- Eu não queria estar no meio de tudo isso, uma vida normal e pacata seria suficiente pra mim desde quando conheci e me apaixonei pela Orm – Falei sentindo as minhas lágrimas deslizaram pelo meu rosto - Contudo no mundo do crime as pessoas percebem tardiamente que é bem fácil entrar e quase impossível de sair... E mesmo eu ainda estando de fora, isso não muda o fato de que os meus pais me arrastaram para este precipício, outra parte de minha infeliz condição é que recentemente estou prometida em casamento ao Pentaii.
- Está bem, vou fazer o que você me pediu, porém depois não se arrependa.
- Não vou e ela precisa saber – Ouvi um barulho do lado de fora e me apressei a desligar a chamada, escondi o aparelho e peguei a chave do escritório, mas um papel me chamou a atenção na mesa de Plai, era uma lista com alguns nomes escritos.
Tirei uma foto do papel e de mais um que tinha a foto de Orm e da mãe dela. Então me apressei a sair, por sorte ninguém me viu.
No hall topei com a Um Apasiri, trocamos olhares e nesse simples gesto percebi que ela havia notado o que eu tinha feito e sorriu.
Plai veio logo atrás dela acompanhado por um de seus homens, ele nem me encarou andando em direção ao escritório.
Voltei ao quarto e me deitei, meus pensamentos a mil sobre o que Lacuna havia me contado.
Orm conheceu outra pessoa... Será que ela já começou a me esquecer?
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ME ESPERA...
RomanceLingling era CEO de uma multinacional na Inglaterra e levava uma vida comum neste país, tendo o trabalho e a sua solidão um refúgio para manter a sua serenidade. No entanto, as suas barreiras são quebradas quando ela conhece Orm Kornnaphat, que apes...
