XLII Capítulo

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Antony Blue 

= Até Um Pardal É Alvo de Atenção =


Esta é a tua chance de te afastares de mim, como tanto querias.

Sim; eis a minha chance de deixá-la para trás. Depois daqui, eu não preciso voltar aos antigos sentimentos, das antigas certezas. Eu posso sair, ninguém me segura, a porta está ali, mas, então, porquê continuo parado no mesmo lugar?

— Então, Antony, já percebeste o motivo de eu inventar aquela história do noivado? — O meu avô pergunta quando volto a prestar atenção na sua fala.

Depois de deixar a Andreia na casa do Abuelo, voltei rapidamente para o restaurante, afinal, ainda tenho uma conversa para terminar com o velho Thomas, mas não estava preparado para ouvir o real objectivo dele alegar um noivado.

— Do teu lado tem que estar uma mulher inteligente, capaz de aguentar duras quedas e, também, que te ame e esteja disposta a acompanhar-te onde quer que vás — explica, enquanto, eu ouço atentamente. — Esta mulher é a Vienna. Ela corre a tua trás, preocupa-se contigo, tal como a tua avó fazia comigo. 

A comparação irrita-me.

— A minha avó era uma mulher piedosa, que amava Ao Senhor! Não era uma mentirosa sem escrúpulos, que faz de tudo para chamar atenção — Dirijo um olhar à Vienna, que se encolhe. Apesar de sentir um desconforto ao vê-la deste modo, decido não recuar.

— Antony, retira imediatamente o que acabaste de dizer! Como podes falar deste modo com a tua futura esposa?

— Futura esposa? — pergunto com amargor, mas decido conter-me. — Avô, eu não vim discutir. Vim apenas desculpar-me por todos os meus erros.

— Queres parecer arrependido? Então, casa-te com a Vienna — Ele segura nas costas da mulher, cuja a delicadeza e aparente simplicidade já foram algo muito chamativo nela, mas agora apenas causa-me desgosto.

Nem tudo que reluz é ouro.

O Russ disse-me uma vez sobre ela; agora concordo com ele. Mas, ele nunca me contou os seus motivos para nutrir essa opinião e nem sei se quero descobrir porque estou cheio de decepções com essa mulher.

Só de pensar considerei-a melhor para mim do que a Andreia tenho vontade de esmurrar-me com toda a força que tenho.

— Não posso fazer isso. — Decido refazer as minhas palavras. — Eu não quero. Nunca me casarei com alguém por esses motivos, muito menos com alguém como essa pessoa.

Isso parece desestabilizar Vienna ao ponto de sair com lágrimas do escritório, mas decido ignorá-la e focar no meu avô que levanta uma sombrancelha na minha decisão.

— Antony, olho para ti e vejo o Calisto, infelizmente. Esperava mais de ti. Parecias ser a salvação desta família.

— Parece que não sou — digo, convicto.

O meu avô assente devagar. Em seguida, parece hesitar nos seus próximos passos, mas logo pergunta:

— A tua tia decidiu mesmo deixar Cem Dentes?

— Sim. Em poucas semanas, ela parte.

O meu avô engole em seco e algo como arrependimento parece brilhar no seu olhar, mas passa rapidamente.

— Ainda podes conversar com ela, avô.

— Sobre o que? Se aquela pirralha quer viver os seus sonhos falhos longe da minha presença, não vou impedi-la. — Ele despeja as palavras com todo o seu desprezo, mas já não é capaz de enganar-me que não se importa. — Uma pessoa fraca no início da vida, continua fraca até ao final.

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