Andreia
= E Mais Uma Vez, o Vento Levou-a =
Uma, duas e três vezes são necessárias para terminar de escovar os cabelos ruivos da minha amiga e começar a fazer-lhe um penteado. Pergunto o que ela gostaria que lhe trançasse, mas, Rebecca responde que não se importa. Então, escolho fazer um coque alto, enquanto, Mia recolhe o máximo de roupa espalhada pelo quarto da nossa amiga para lavar.
Faz duas semanas desde que saiu a notícia de que a sua irmã caiu de uma falésia alguns quilómetros fora da cidade.
Foi um acidente, vi em diversos meios de comunicação. Ouvi outras versões de familiares inconformados com o que aconteceu. Por sua vez, a Rebecca poupou palavras e, apesar de ter vivido de modo instável antes do dia fatal, ela tem estado quieta. Tanto, que eu Mia ficamos preocupadas e decidimos visitá-la logo depois da missa.
— Depois de deixamos essas roupas na lavandaria, vamos comer alguma coisa. — Mia anuncia, sem esperar objecções. — Vocês têm alguma preferência?
— Eu não quero sair de casa — Rebecca reponde num tom morno, quase sem vida.
Eu mesma não me atrevo a falar muito; há bem pouco tempo que também já não tenho o Abuelo e é sempre uma luta resistir à vontade de querer ficar trancada no quarto sem fazer nada e simplesmente desistir de tudo.
Deus sabe...
Deus sabe que É uma luta dolorosa.
— Becca, precisamos comer alguma coisa — Mia insiste, na sua melhor tentativa de usar um tom suave.
— Eu não tenho fome.
Sim, Deus sabe; e Ele Mesmo É o refúgio.
Sim, é nEle que eu descanso o meu coração.
— Disseste o mesmo sobre o pequeno-almoço. E olha bem para a Andreia: ela está prestes a desmaiar de fome. Não queres que isso aconteça, não é?
Reviro os olhos para Mia, apesar de um sorriso involuntário crescer nos meus lábios. Então, decido entrar na brincadeira.
— Eu também não trabalho de graça, então, não vou mesmo recusar comida.
Pela primeira vez em dias, ouço Rebecca rir e é bom ouvir este som. É bom saber que ainda há esperanças em tempos tão difíceis, em que até apanhar um táxi tem sido motivo de grandes desconfianças.
— Então, não se fala mais nisso. Vamos comer!
Enquanto Mia sai do quarto com o cesto e uma boa disposição não muito comum nela, posso ver pelo espelho que lágrimas começam a cair dos olhos de Rebecca e, o pior de tudo, não sei como consolá-la.
— Obrigada por estarem aqui — começa num sussurro. — Eu sei que tenho errado muito esse todo tempo, que tenho mentido, mas obrigada por não me abandonarem.
Finalmente, termino o penteado e aproveito para segurar nas suas mãos; decido então, olhar directamente para seus olhos quando digo as palavras:
— Até onde forem as minhas forças, eu não vou te deixar, Becca. Eu vou cuidar de ti, a Mia e a tua família também, então, não temas.
Então, ela me abraça, enquanto, o seu choro aumenta e se torna mais agonizante. Pela segunda vez, vejo a minha amiga chorar de modo tão desesperado. Toda a confiança de suas palavras e aspecto inquebrável, parecem agora uma máscara.
Mia também parece um pouco surpresa quando nos chama para partir, mas ao ver a cena, em que Rebecca não pára de chorar ou se envergonha com os nossos olhares, ela juntasse ao abraço e até eu mesma sinto-me mais confortada. Mais amada por Deus porque sei que até o consolo que recebo das pessoas que amo, vem dEle e espero que Rebecca ou até mesmo o Blue saiba disso.
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Mitigar
RomansaAndreia é uma jovem cristã que deseja recomeçar os seus passos depois de receber a conversão. Numa nova cidade, mas com pessoas que muito marcaram as suas lembranças, ela terá que lidar com as consequências dos seus erros passados, enquanto, tenta r...
