Maitê.

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Valentina Campos Albuquerque point of view.

Acho que nunca vi alguém tão bipolar quanto a Luiza nesse último mês de gestação. Quando as contrações testes vinham, eu era alvo de xingamentos ou então quase perdia a minha mão.

Mas tudo bem. Pra mim, isso é só um sinal de que nossa filha está chegando!

Hoje era mais um sábado comum na nossa rotina. Acordamos, fizemos nossa higiene, eu preparei o café da manhã e arrumei a mesa do lado de fora enquanto a Luiza ia acordar os pequenos.

— Nunca vi duas crianças tão emburradas — Luiza comentou enquanto atravessava a porta que separa a sacada da área interna da casa.

Os dois garotos estavam atrás dela. Léo, com a cara amarrada de sempre nas manhãs, e Nick, não muito diferente do irmão, segurando seu ursinho.

— São seus filhos — falei, e em menos de dois segundos recebi um tapa como resposta. — Luiza!

— Pra você aprender a calar a boca.

Eu e Luiza nos sentamos, e os pequenos ficaram de frente pra nós duas.

— Bem feito — Nick comentou enquanto pegava um morango. Eu fechei a cara pra ele.

— Esse é meu filho mesmo — Luiza riu. Eu apenas revirei os olhos.

— Pra felicidade de vocês, a Malu vem brincar aqui hoje — falei, tomando um gole do meu café. — A Manu e a Giovanna queriam te ver, e eu disse que elas podiam vir almoçar. Tem problema? — Olhei pra Luiza.

Ultimamente, ela não estava muito a fim de receber visitas, já que mal conseguia ficar vinte minutos sentada ou sem correr pro banheiro.

— Tudo bem! Mas só porque estou com saudade da Malu — eu ri.

Nós quatro terminamos o café, e os meninos me ajudaram a retirar a louça, lavar e guardar tudo que usamos.

Como nenhuma de nós estava a fim de cozinhar, decidimos pedir comida. Depois de fazer o pedido e agendar a entrega, deitamos no sofá. Os meninos escolheram um filme enquanto eu e Luiza conversávamos em sussurros.

— Acho que essa semana a gente vai ver o rostinho dela — disse Luiza, brincando com minha mão apoiada em sua barriga.

Ela estava entre 37 e 38 semanas de gestação, ou seja, nossa filha poderia nascer a qualquer momento.

— Eu espero. Não aguento mais de ansiedade pra ver uma cópia da mulher mais linda do mundo — deixei um beijo em seu ombro.

Nesses três meses, muita coisa mudou.

Além das transformações normais — a barriga da Luiza que parecia prestes a explodir, meu cabelo mais curto do que o normal, os cabelos dos meninos com uma mecha azul — nosso dia a dia também mudou. Eu estava trabalhando mais do que queria, o que me deixava ainda mais distante da minha esposa e dos nossos filhos. Mas era por um motivo: conseguir um ano de licença e me entregar 200% à nossa filha.

Quero viver a maternidade completa dessa vez.

Priscila e Ricardo finalmente voltaram para o Rio de Janeiro. A única diferença é que agora só a Pri continua trabalhando aqui em casa — Ricardo resolveu focar nos estudos. Sim, faculdade! Nosso segundo pai (como eu e a Luiza gostamos de chamá-lo) decidiu cursar Direito aos 43 anos. E, claro, foi super apoiado por mim, pela Luiza e principalmente pelos meus pais, que já garantiram um estágio pra ele no escritório desde o primeiro semestre.

Sim, eu disse pais.

"Catarina?" Não. Nunca mais.

Foi a Heloísa quem ocupou esse lugar. Com carinho, paciência e presença. Depois daquela conversa que tive com a Luiza meses atrás, comecei a notar as pequenas coisas: o cuidado, o zelo com a minha família, os detalhes. Era nítido. Heloísa já era minha mãe há muito tempo... só faltava que eu enxergasse.

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