Capítulo 16

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Quem sou? Ainda me pergunto. Um ser estranho e louco. Às vezes penso no que queria ou deveria ser e não me imagino como um bem feitor na África ou algum tipo de assistente social no bairro. Me enquadro melhor naquilo a que Shakespeare se referiu sobre não se importar. Acho que eu não ligo mesmo. Sou meio cego, como todos os outros. Cego para a humanidade. Mesmo que o óbvio esteja diante de nossos olhos algumas vezes.

- Compondo? - perguntou Julia ao entrar no meu quarto.

- Tentando e sendo miseravelmente massacrado pelas rimas.

- Ah, Dill! Você não é ruim.

Lhe lancei um sorriso sem graça. Julia geralmente era o exemplo de criatura que eu deveria ser. Tão amável! Eu era apenas um cara sem sensibilidade tentando compor uma canção. A chance visível daquilo dar certo era nula. Mas nunca liguei para possibilidades. Odeio estatística.

- Posso? – ela perguntou olhando para a folha em minha mão.

Fiz uma careta. Não gostava do fato de Julia ler algo que eu tentava escrever. Mas eu também não era exatamente o que se podia chamar de poeta, compositor ou escritor, precisava de ajuda e ela chegara em boa hora.

Entreguei a folha à ela e observei seu olhar concentrado ao notar minhas palavras me sentindo desconfortável.

- Mas amo você e é tudo o que eu sinto? – ela me perguntou erguendo uma sobrancelha. Curtia muito quando ela fazia isso.

- Péssimo? – perguntei sentindo o nervosismo acelerar meus batimentos. Minha amiga ainda me intimidava, principalmente essa nova versão de Julia. Cética, centrada, inteligente, sarcástica, bonita e amiga do meu arqui-inimigo.

- Não. Mas ai está o problema... é isso que as pessoas querem saber. O que é tudo o que você sente?

Encarei um ponto sujo na parede decidido a não olhar nos seus olhos. Que conversa estranha!

- Precisa se expressar, falar sobre o que sente na canção.

- Mas é difícil Julia.

Ela me olhou estranho e depois sacudiu a cabeça.

- Você não é um caso perdido. Pare de achar que é. Eu confio na sua capacidade. Você é quem duvida dos seus limites. Já tá na hora de entender a si mesmo poeta...

- Poeta?

Olhei ao redor do quarto e percebi uma pilha de livros em cima da escrivaninha. Eles não estavam ali antes.

- Presente? – perguntei com ironia.

- Não exatamente. Imagino que isso irá ajudá-lo a estender os limites.

- Livros?

- Sei que ama livros. Não seja modesto.

Preferi não responder. Julia ainda acreditava cegamente que eu era o novo Luís Fernando Veríssimo.

- Temos uma missão hoje.

- É? – perguntei. Não lembrava de nada. – Ler poemas é o seu terceiro item da lista "Eu nunca...". Depois que a canção estiver composta vou ver os resultados. Mas precisamos de um segundo item e agora é o momento perfeito. Deixa essa letra pra depois . Agora iremos passear.

- Aonde exatamente? – perguntei com medo de onde essa lista podia nos levar.

- Prefiro o suspense.

- Se isso fosse uma ficção minha vida seria um drama bastante claro.

- Sem choro Dillan.

Revirei os olhos, mas em quinze minutos troquei de camisa e saí junto dela pela porta. Caminhamos pela cidade como nos velhos tempos. Conversas à toa sobre nosso dia e nenhum assunto específico somente ouvindo o som do silêncio ou vez ou outra a voz do outro quando nos envolvíamos em uma conversa. O dia era exatamente o tipo de dia que Julia gostava. O sol intenso no horizonte sem sinal de nuvens, aquele friozinho típico de inverno, não tão cortante, mas o suficiente para ressaltar o brilho dos seus olhos verdes e corar suas maçãs do rosto. O cabelo longo e escuro se revoltava com o vento e ela sorria diante do tempo. Um belo dia realmente, pelo menos até aquele instante.

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