Quem sou? Ainda me pergunto. Um ser estranho e louco. Às vezes penso no que queria ou deveria ser e não me imagino como um bem feitor na África ou algum tipo de assistente social no bairro. Me enquadro melhor naquilo a que Shakespeare se referiu sobre não se importar. Acho que eu não ligo mesmo. Sou meio cego, como todos os outros. Cego para a humanidade. Mesmo que o óbvio esteja diante de nossos olhos algumas vezes.
- Compondo? - perguntou Julia ao entrar no meu quarto.
- Tentando e sendo miseravelmente massacrado pelas rimas.
- Ah, Dill! Você não é ruim.
Lhe lancei um sorriso sem graça. Julia geralmente era o exemplo de criatura que eu deveria ser. Tão amável! Eu era apenas um cara sem sensibilidade tentando compor uma canção. A chance visível daquilo dar certo era nula. Mas nunca liguei para possibilidades. Odeio estatística.
- Posso? – ela perguntou olhando para a folha em minha mão.
Fiz uma careta. Não gostava do fato de Julia ler algo que eu tentava escrever. Mas eu também não era exatamente o que se podia chamar de poeta, compositor ou escritor, precisava de ajuda e ela chegara em boa hora.
Entreguei a folha à ela e observei seu olhar concentrado ao notar minhas palavras me sentindo desconfortável.
- Mas amo você e é tudo o que eu sinto? – ela me perguntou erguendo uma sobrancelha. Curtia muito quando ela fazia isso.
- Péssimo? – perguntei sentindo o nervosismo acelerar meus batimentos. Minha amiga ainda me intimidava, principalmente essa nova versão de Julia. Cética, centrada, inteligente, sarcástica, bonita e amiga do meu arqui-inimigo.
- Não. Mas ai está o problema... é isso que as pessoas querem saber. O que é tudo o que você sente?
Encarei um ponto sujo na parede decidido a não olhar nos seus olhos. Que conversa estranha!
- Precisa se expressar, falar sobre o que sente na canção.
- Mas é difícil Julia.
Ela me olhou estranho e depois sacudiu a cabeça.
- Você não é um caso perdido. Pare de achar que é. Eu confio na sua capacidade. Você é quem duvida dos seus limites. Já tá na hora de entender a si mesmo poeta...
- Poeta?
Olhei ao redor do quarto e percebi uma pilha de livros em cima da escrivaninha. Eles não estavam ali antes.
- Presente? – perguntei com ironia.
- Não exatamente. Imagino que isso irá ajudá-lo a estender os limites.
- Livros?
- Sei que ama livros. Não seja modesto.
Preferi não responder. Julia ainda acreditava cegamente que eu era o novo Luís Fernando Veríssimo.
- Temos uma missão hoje.
- É? – perguntei. Não lembrava de nada. – Ler poemas é o seu terceiro item da lista "Eu nunca...". Depois que a canção estiver composta vou ver os resultados. Mas precisamos de um segundo item e agora é o momento perfeito. Deixa essa letra pra depois . Agora iremos passear.
- Aonde exatamente? – perguntei com medo de onde essa lista podia nos levar.
- Prefiro o suspense.
- Se isso fosse uma ficção minha vida seria um drama bastante claro.
- Sem choro Dillan.
Revirei os olhos, mas em quinze minutos troquei de camisa e saí junto dela pela porta. Caminhamos pela cidade como nos velhos tempos. Conversas à toa sobre nosso dia e nenhum assunto específico somente ouvindo o som do silêncio ou vez ou outra a voz do outro quando nos envolvíamos em uma conversa. O dia era exatamente o tipo de dia que Julia gostava. O sol intenso no horizonte sem sinal de nuvens, aquele friozinho típico de inverno, não tão cortante, mas o suficiente para ressaltar o brilho dos seus olhos verdes e corar suas maçãs do rosto. O cabelo longo e escuro se revoltava com o vento e ela sorria diante do tempo. Um belo dia realmente, pelo menos até aquele instante.
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Eu Nunca...
Ficção AdolescenteEu nunca... vi a Aurora Boreal Eu nunca... escalei o Monte Everest Eu nunca... corri sobre pedras chamuscadas (Nem sou maluco a esse ponto) Eu nunca... me equilibrei sobre as muralhas da China Mesmo a ideia sendo incrível! Mas existem certas coisas...
