Interlúdio

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"Querida Hermione,

Nunca fui capaz de lhe dizer isso pessoalmente, e agora não posso mais. Parto sem aviso porque sei que se olhássemos nos olhos, não teria coragem de ir. Meu destino não está nas minhas mãos, e preciso confiar que aqueles que me guiam sabem o que é melhor — mesmo que isso signifique deixá-la para trás.

Sei que vai se preocupar. Peço que, ainda assim, tente ficar bem. Eu farei o mesmo, na medida do possível. Acredite: nada do que fiz foi para magoá-la, mas permanecer seria perigoso demais para nós duas. Não posso me deixar consumir pelo que sentimos; não posso mais ser o motivo de dor ou risco em sua vida.

Não sou o que você pensa que sou. Nunca fui. Este é o fim, Hermione.

Não deveríamos ter brincado tão perto do fogo.

Adeus,
Ártemis"

Ártemis deixou a carta sobre o travesseiro, ao lado do de Hermione, para que ela a visse assim que acordasse. A garota dormia profundamente, alheia a tudo que acontecia lá fora. Ártemis sentiu vontade de voltar para a cama e se aninhar a ela, mas se conteve.

Plantou um pequeno beijo em sua testa, inalando o cheiro de baunilha e flores que a envolvia. Afastou um cacho de cabelo de seu rosto uma última vez e saiu pela porta, sem olhar para trás.

A decisão não era fácil, nem justa. Mas Ártemis sabia que não conseguiria dizer a Hermione. Haveria tantas perguntas, e ela não tinha respostas.

No primeiro andar do Largo Grimmauld, Catherine tomava café, conversando baixo com a Sra. Weasley.

— Venha tomar café, querida — convidou Catherine.

— Agradeço, mas vou passar.

— Ora, não pode fazer uma viagem tão longa de barriga vazia! — disse Molly. — Sente-se.

O tom firme não deixava opção. Ártemis se acomodou ao lado da mãe e serviu um pouco de café na xícara, ainda absorvendo a sensação da despedida sorrateira.

Enquanto Molly conversava com Catherine, passos foram ouvidos na escada e Sirius surgiu, ainda meio sonolento, com o cabelo bagunçado e o olhar alerta. Ele percebeu Ártemis em silêncio, com a xícara de café entre as mãos, e deu um meio sorriso.

— Bom dia — disse, aproximando-se e pegando uma xícara para si. — Espero não estar atrapalhando nada.

— De jeito nenhum — respondeu Catherine, com um aceno de mão. — Sente-se, Sirius.

Sirius se acomodou à mesa ao lado de Ártemis, observando-a por um instante antes de falar:

— Dormiu bem? — perguntou, com um sorriso leve. — Parece que não.

Ártemis desviou o olhar, mexendo na xícara.

— Digamos que… o sono foi curto — respondeu, a voz baixa. — Há coisas demais na cabeça.

— Sempre há — disse Sirius, em tom leve, mas atento. — A vida tem dessas. Mas você precisa se cuidar. Você sabe que ficará bem.

Ele tinha razão, mas parte dela se recusava a ouvir.

— Obrigada — murmurou, finalmente olhando para ele. — Eu sei. Só… tenho que me ajeitar.

Sirius assentiu, compreendendo mais do que ela dizia. Por alguns segundos, ficaram em silêncio, apenas saboreando o café, com o tilintar de colher e o murmúrio de Molly e Catherine preenchendo a sala.

— Vai dar tudo certo, Ártemis — disse ele por fim, pousando a xícara. — Só não se esqueça de que sempre pode contar comigo, mesmo quando sentir que o mundo está contra você.

Ela apenas assentiu, deixando que o conforto da presença dele aliviasse, ainda que por pouco, a situação.

Ártemis se levantou devagar, olhou para Catherine e Sirius.

— Pronta? — perguntou a mãe, a voz calma.

Ártemis assentiu. Primeiro se aproximou de Sirius, que se inclinou para receber o abraço dela. Ela era ligeiramente mais alta, e por um instante elas riram baixinho.

— Parece que você fica mais alta a cada dia que passa, garota… — brincou ele, com um sorriso.

— E você fica mais baixo — respondeu ela, apertando-o de leve. — Que diferença faz a altura quando o abraço é bom?

Sirius riu, balançando a cabeça.

— Fechado. Bom abraço.

Depois, Ártemis se aproximou de Molly. O abraço foi firme e reconfortante, cheio de carinho. Molly suspirou, olhando-a com uma mistura de preocupação e compreensão.

Catherine e Sirius trocaram um olhar breve. Eles se limitaram a um gesto simples: deram as mãos, apertando de leve, um adeus silencioso. Ártemis observou, compreendendo que aquele tipo de despedida podia ser suficiente entre adultos que já sabiam demais um do outro.

— Vamos? — perguntou Catherine, sinalizando para a porta.

Ártemis seguiu a mãe até o lado de fora. O carro já esperava, elegante e escuro, com Charles ao volante, atento e paciente. A manhã estava clara, mas fria; a luz do sol iluminava as folhas molhadas e o caminho de pedra.

— Tudo pronto, senhoras? — perguntou Charles, sem precisar de resposta.

Ártemis deu um último olhar para o Largo Grimmauld, respirando fundo. A casa ainda parecia dormir, mas ela sabia que, por dentro, tudo estava acordado — cada lembrança, cada toque, cada riso. Ela se acomodou ao lado de Catherine no banco de trás do carro, e sentiu o motor ligar.

O Largo Grimmauld começou a desaparecer no espelho retrovisor, e com ele a vida que ela conhecia, o calor das pessoas que ela considerava família e a presença de Hermione, que ficaria para trás, inconsciente de tudo.

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WICKED GAME | HERMIONE GRANGERHistórias para pegar e não largar. Descubra agora