"Porque eu morri no dia em que ela se foi. Estou morto. E continuo morrendo. Porém, renascerei."
[Fênix, capítulo 01, Fernando Garcia]
Procurar um emprego normal... humpf! Belo conselho esse, Pedro, um trabalho "normal" é tudo o que preciso no momento para pagar uma dívida de cem mil reais. Claro, vai ser moleza arrumar um emprego que pague um salário tão bom. Inclusive, o meu currículo é muito vasto também. Um cara que escreveu oito livros de sucesso desde os seus dezessete anos, mas que não tem experiência nenhuma em outros ramos do mercado de trabalho, aliás, que nem terminou o curso superior, vai ser muito requisitado pelas empresas...
Foi isso que eu pensei ao sair da minha décima entrevista de emprego. Desta vez era uma indústria alimentícia, mas já tentei em tantos ramos que nem lembro mais. Era sempre a mesma história: sem experiência. Sem nível superior. Seus livros não são úteis aqui.
Nesse momento estou querendo matar o meu amigo. Será que ele não consegue entender que eu sou um ESCRITOR e não tenho paciência, jeito e nem talento para trabalhar em qualquer outra coisa que não seja escrevendo livros? Até artigos para jornais servem, mas eu só funciono no mercado de trabalho exercendo a função de escritor.
Eu me sinto um verdadeiro idiota.
Um escritor idiota frustrado que não consegue escrever nem uma história de duas páginas porque lhe foram brutalmente retiradas as suas motivações para exercer o único papel que lhe cabe dentro do mundo trabalhista.
Azar nem começa a definir o que me levou a ser uma pessoa tão amarga. Só para você entender, eu perdi os meus pais na mesma noite em que Alice me abandonou sem nem ao menos me deixar uma explicação.
Triste? Claro, por que não? Mas, entenda, eu não quero a pena de ninguém. Acho que a minha auto-piedade já é o suficiente.
A minha vida é horrível. Ponto final.
Okay, eu sei que milhares de pessoas no mundo estão em situações muito piores do que a minha, mas, francamente, eu não ligo. Tornei-me uma pessoa tão egoísta a ponto de não me importar com a dor dos outros. Apenas com a minha.
Entrei em casa. Era difícil chegar em meu lar e dar de cara com tantas fotografias do que um dia foi uma família feliz. Eu não mudei nada na casa nesses cinco anos. Preferi deixar como a minha mãe deixou, inclusive todas as fotos, quadros, CDs, livros, tudo o que me fazia lembrar deles. A única coisa que mudei, ou excluí, foram as fotografias da Alice. Não quero lembranças dela. Meus pais foram embora forçados. Ela foi porque quis.
Mexer com todas essas lembranças me deixou angustiado, ainda mais depois desse penoso dia de entrevista de emprego, que só estava fazendo para quitar essa maldita dívida em um prazo de cinco meses.
Duvido muito que eu consiga. Mas não vou desistir. A minha casa foi a única coisa que me restou na vida. Não tenho irmãos, não tenho parentes vivos próximos, não tenho nem tantos amigos assim. Para falar a verdade, o único amigo que me restou foi o Pedro. O único que aguenta as minhas bebedeiras e meu eterno mau humor.
Suspiro desanimado.
Preciso de um uísque. Bem forte.
Antes que eu concretize o ato de colocar o uísque no copo, o meu celular toca, irritando-me profundamente. Eu queria apenas beber até esquecer que esse dia existiu. Será que é pedir muito?
Claro que sim, tanto que o meu celular continuou a tocar e tocar e tocar. Resolvi atender logo.
— O quê, Pedro? — Atendi com o meu visível mau humor, mas Pedro parece não se importar. Com certeza ele vai para o céu quando morrer, apenas por me suportar durante esses cinco anos de puras patadas que eu já dei nele.
— Calma, cara! Eu só quero saber como você se saiu na entrevista. — disse sem nenhuma mágoa pela forma ríspida com a qual atendi o seu telefonema. Eu fico me perguntando como ele consegue ser tão calmo.
— A mesma coisa das outras entrevistas. Eles querem pessoas com experiência. De preferência com nível superior. Duas coisinhas que eu não tenho. — Suspirei frustrado e mandei o uísque pela minha goela abaixo em apenas um gole.
— Você não vai desistir, vai? — perguntou preocupado. — Fernando, é a casa dos seus pais. Você ama essa casa mais do que a si próprio. Você não pode desistir!
Eu não respondi. Apenas coloquei mais uma dose de uísque no copo e mandei para dentro. Eu não queria desistir, mas eu já estava sentindo as minhas forças me deixando.
— Não, eu não estou desistindo. — ouvi um suspiro de alívio do outro lado da linha. — Mas eu acho que vou começar a ver favores com conhecidos e até, quem sabe, tentar escrever algo.
— Faça isso. Vai que dá certo e você tem um súbito surto criativo? — Ele riu com empolgação.
E mais uma vez eu só pude pensar: eu duvido muito.
— É... vai que dá certo — disse, sem nenhuma convicção, enquanto colocava a terceira dose de uísque, mas a minha coordenação falhou e eu derrubei o copo no chão, quebrando-o.
— Fernando, você não está bebendo, certo? — perguntou em um tom de reprovação — Porque você sabe que isso não é bom para você... É sério, cara. Você tem que parar com isso!
— Não estou bebendo. Eu juro. — Menti. Eu odiava mentir para Pedro. Ele foi a única família que me restou. Mas eu não queria deixá-lo preocupado comigo. Não quando a sua esposa estava em uma gravidez de risco.
Na verdade, Pedro é meu amigo de infância. Nos conhecemos no jardim de infância, depois que ele tentou me defender de um garoto um ano mais velho e acabou que ambos levamos uma surra. Depois de um episódio assim, qualquer amizade se torna duradoura.
E lá se vão vinte anos de amizade.
— Cara, não minta para mim — disse perdendo um pouco a paciência. — Eu sou seu amigo há vinte anos, eu te conheço como a palma da minha mão. Sei quando você está mentindo até por telefone — pausa — Eu vou aí. E sem nem mais uma gota de álcool para você, entendeu?
— Sim, papai — eu disse sem realmente me importar.
Desligamos.
Eu sabia que não pararia de beber tão cedo. Sabia que faria o contrário do que o meu amigo me pediu. Até ele chegar, eu beberia todo o conteúdo da garrafa de uísque. E provavelmente abriria outra. Principalmente depois que as lembranças voltaram.
A minha felicidade quando viajei com os meus pais para a Austrália, que foi a primeira vez que eles me levaram em uma viagem internacional; quando eu conheci a Alice em uma praia e, para minha total alegria, quando nos reencontramos na faculdade; quando o meu oitavo livro alcançou um milhão de vendas... Todas são memórias boas, memórias que fariam qualquer pessoa sorrir, mas para mim, são memórias que causam dor. Elas são um lembrete de que eu não sou mais feliz.
E provavelmente nunca mais serei.
Patético. Já me encontro lamentando por todos esses acontecimentos da minha vida. A mescla de álcool e lembranças já está me fazendo chorar feito uma criança contrariada. Duas, três garrafas de uísque depois do telefonema de Pedro.
O meu nível de alcoolismo é o suficiente para isso. Lamentações e mais lamentações saem da minha boca.
Como eu já disse, patético.
Foi então que Pedro chegou. O meu rosto estava molhado pelas lágrimas. Eu me sinto o ser mais deplorável quando o Pedro me olha com pena e decepção.
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É oficial! Primeiro capítulo fresquinho pra vocês! Espero que gostem e perdoem os erros. u.u
Beijos de luz.
Allana.
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Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
