Capítulo 17 (Por Elisa)

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"E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor."

[Quando o Sol Bater, Barão Vermelho.]





Nunca pensei que fosse tão difícil esquecer histórias tão tristes quanto as que eu ouvi na reunião da A.A. Aqueles depoimentos ficavam rodando pela minha cabeça, e eu fiquei com um aperto no peito só em saber que Fernando estava entre as pessoas que sofrem por causa de um vício tão terrível.

Confesso que fiquei apreensiva quando chegamos ao local das reuniões. Quem não ficaria? Era um local que devia colecionar histórias muito tristes. Até cheguei a pensar que alguém ali dentro poderia me fazer algum mal, mas então lá estava Fernando, tentando me encorajar quando eu que devia estar fazendo isso. Então engoli o medo e o acompanhei sem demonstrar mais nada do que eu estava sentindo em relação à tudo aquilo.

Quando a reunião começou de verdade, percebi que o álcool pode atingir qualquer pessoa em qualquer idade, e isso me deixou extremamente triste, principalmente quando ouvi o depoimento do Rafael. Aquilo quebrou o meu coração mais do que quando soube do caso de Fernando. Ele era apenas uma criança quando tudo começou. Eu não consegui evitar as lágrimas.

— Oi. Eu sou o Rafael — ele disse baixinho, mas audível.

— Olá, Rafael — todos os outros presentes falaram o que eu percebi ser uma espécie de regra entre eles.

— Eu tenho 16 anos e bebo desde os 10 — ele disse de cabeça baixa, envergonhado. — A minha mãe morreu quando eu tinha dez anos e eu vi meu pai se afundar na bebida durante o seu luto. Não era algo para eu copiar, mas copiei. Imitei meu pai por não suportar a dor de não ter mais minha mãe ao meu lado. E o imitei por não querer vê-lo tão devastado. Pensei que passaria com o tempo, mas não passa. Nunca passa. É como se a chama da dor ficasse acesa no meu peito sempre, queimando, ardendo e dilacerando. Então eu bebo. Porque quando eu bebo, parece que eu fico anestesiado. E não sinto nada. Só o vazio.

O silêncio se fez presente e o choque era palpável. Afinal, que tipo de pai coloca a própria dor acima da dor de seus filhos?

Então Fernando tomou a vez e fez seu depoimento. Mais uma vez fiquei emocionada. Não conseguia evitar que meus olhos se enchessem de lágrimas toda vez que Fernando falava sobre este assunto. Ele falava com uma dor tão forte que doia em mim.

Porém, meu coração retumbou no peito quando ele disse palavras tão verdadeiras enquanto olhava tão intensamente para mim.

— ...Mas eu estou tentando. Preciso tentar. Por mim. Pelos meus amigos, que agora eu descobri ser um número maior que dois. — Sorri para ele neste momento. Devia estar com a maior cara de idiota apaixonada, mas não liguei nem um pouco. — Talvez, no fim, tudo seja mesmo por causa de um coração partido.

E depois, quando ele me consolou com um abraço, percebi que não poderia abandoná-lo nessa jornada.

...

Dormi durante todo o trajeto para a minha casa. Eu estava esgotada emocionalmente. Aquilo tudo era informação demais para processar em uma única noite. Ainda queria chutar o traseiro do pai de Rafael por ser tão covarde. Só recobrei meus sentidos mesmo quando Fernando cutucou meu braço e perguntou pela chave, mas logo voltei para o mundo dos sonhos, e sonhei que estava nos braços de Fernando. Até mesmo senti seu perfume delicioso invadir meus sentidos.

Depois disto, senti apenas o meu corpo sendo colocado em algo macio, um cobertor sendo colocado sobre mim e um beijo depositado em minha testa.

Confesso que isso me acordou. E depois de uma pequena discussão, o manezão do cara por quem eu estava completamente apaixonada concordou em dormir em minha casa — fala sério, que tipo de pessoa eu seria se deixasse o Fernando dirigir até o outro lado da cidade às duas da manhã? Exatamente, uma irresponsável.

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