"Porque ultimamente eu tenho acordado sozinho. A dor espalhou lágrimas na minha camisa."
[Give me love, Ed Sheeran.]
Sabe o que é uma droga? Perceber que você fez merda novamente, depois de prometer para o seu melhor amigo que iria se comportar. O problema é: eu estava feliz. Tudo bem, ser feliz não é problema algum, porém, eu fiquei feliz, queria comemorar meu mais novo emprego e, bem, fiz o que não devia.
Eu estava indo para a minha casa feliz da vida e resolvi que iria comemorar. Passei em um supermercado e comprei o meu uísque preferido.
Não beberia muito, disse para mim mesmo. Eu só beberia uma dose. Apenas isso. Não deve fazer mal.
Eu já deveria ter aprendido que quando bebo uma dose, logo vem a segunda, a terceira, a quarta. Eu simplesmente não consigo me controlar. E foi exatamente isso que aconteceu quando cheguei em minha casa. Coloquei o uísque num copo e logo mandei para dentro.
— Eu consegui um emprego. Nem estou acreditando! Eu consegui um emprego. Talvez eu possa salvar a minha casa. Talvez eu quite aquela dívida idiota — isso ainda não era a bebida fazendo efeito, mas eu estava feliz.
Coloquei uma música qualquer. Era agitada e alegre, combinava com o meu humor do momento. Tomei mais uma dose. Mais outra. Mais outra. Eu disse que não conseguia me controlar depois da primeira gota de álcool. Essa era a minha droga, algo que eu julgava necessário para a minha felicidade.
Logo eu estava no estágio 1 da embriaguez. Felicidade exarcebada. Eu estava tão feliz que gargalhava como um lunático pela casa. Esse é o estágio que passa mais rápido. Dura em torno de cinco minutos. Então veio o estágio 2, carinhosamente apelidado de eu sou o rei do mundo e não preciso de ninguém. É basicamente narcisismo gratuito. Eu gritava para o mundo que eu era o maioral, que não precisava que ninguém sentisse pena de mim, que eu consigo qualquer coisa que eu quiser, que eu era o cara. Sei que isso é totalmente contraditório, já que eu só consigo as coisas com ajuda das pessoas que me amam. Sempre foi assim e agora não era diferente. Minha mãe costumava dizer que todos nós precisamos de ajuda, que ninguém consegue as coisas sozinho. Mas, como eu já mencionei, eu estava completamente embriagado. Então veio o estágio 3, que é aquele estágio que começa a te derrubar após alguns minutos de sensações boas. É o estágio que te deixa melancólico. É o estágio que trás tudo de volta.
— A Alice ficaria tão feliz — murmurei com os olhos fechados, então esbocei um sorriso. Sério, eu só poderia estar muito bêbado para sorrir ao lembrar daquela infeliz. — Ela dizia que eu sou capaz de conseguir qualquer coisa.
Então veio o estágio 4. A inconformidade com o que se tornou a minha vida. Todas as feridas não cicatrizadas sangrando novamente após um momento de pausa. Minhas lembranças retornavam dolorosas em um nível insuportável. Mais uma vez, eu estava caindo até pousar na inconsciência causada pelo sono.
Acordei com o som de uma música de Avenged Sevenfold martelando na minha cabeça. Olá, ressaca!
Levantei com a cabeça estourando.
— Que merda! Decidiram fazer uma obra na minha cabeça! — Olhei ao redor. Pelo menos a casa não estava de cabeça para baixo desta vez. Desliguei o aparelho de som, arrumei a bagunça que havia na minha cozinha e fui tomar um banho bem frio.
Eu não acredito que isso aconteceu. Eu não acredito que fiz isso novamente. Não acredito que fui tão fraco.
Encostei a cabeça nos azulejos frios do box. As lágrimas vieram com tudo. A decepção comigo mesmo era tão grande que parecia que meu coração havia encolhido para o tamanho de uma ervilha. Que droga eu estou fazendo da minha vida? Era para eu estar bem. Eu preciso estar bem. Eu não posso deixar que ela me controle. Eu sou mais forte que ela. Eu preciso ser mais forte que ela!
Ela, no caso, era a bebida. Ela me controla e não o contrário, mas eu estava disposto a mudar isso. Eu não conseguiria quitar a minha dívida se não tivesse auto-controle. Eu não conseguiria nada, para falar a verdade. Mas, para ser bem sincero, é difícil quando se está preso em um ciclo vicioso. Quando se está preso à um vício. Quando você sabe que muitas outras pessoas com o mesmo problema não conseguiram se livrar do mesmo.
É que um vício rouba o melhor das pessoas. Rouba a sua força de vontade, a sua alegria de viver. Um vício rouba a sua essência, a sua vida. E no final você é apenas um escravo. Um ser morto. Um zumbi.
Saí do banho e vesti algo confortável. Precisava ligar para o Pedro. Ele precisava saber que consegui um emprego. Se eu contaria para ele sobre o que aconteceu? Claro que não. Meu orgulho não permite. E também não queria decepcionar os meus amigos. Muito menos quero um sermão. Eu apenas queria deixá-los orgulhosos.
Disquei o número do meu amigo e esperei que ele atendesse, o que aconteceu no terceiro toque.
— Cara, por onde você andou? Eu te liguei um milhão de vezes! — opa, alguém estava irritado.
— Desculp a, eu cheguei em casa e apaguei. — Não era uma mentira. Eu apaguei mesmo.
— Tudo bem, eu entendo. Você deve ter chegado cansado — Pedro disse com um tom de voz mais calmo, o que me fez ter certeza de que ele não desconfiou da minha omissão — Mas eu quero saber sobre a entrevista. Conseguiu o emprego?
— Então, sabe o que é? Eu... eu... eu não... — comecei o teatrinho. Pedro ficou em silêncio do outro lado da linha, provavelmente tentando encontrar alguma forma de dizer palavras reconfortantes para mim — Eu não estou mais desempregado!
Pedro quase me deixa surdo com os gritos agudos em meu ouvido. Quando Aline se juntou a ele então... pobres tímpanos.
— Você está falando sério? Nós precisamos comemorar! Quando você começa? — Pedro perguntou com empolgação infinita. Eu não sei como ele não perdeu o ar.
— Calma. Sim. Eu estou falando sério, homem de pouca fé. — Ri da incredulidade de meu amigo. — E eu começo amanhã.
— Agora, para a sua vida entrar nos eixos de verdade, falta apenas se curar do alcoolismo — ele disse com seriedade — Você já começou a frequentar os Alcoólatras Anônimos?
— Acho que isso não é necessário. Eu estou bem melhor — eu tentei convencê-lo. Pelo silêncio no outro lado da linha, isso não funcionou.
— Olha só, Fernando, eu sou seu amigo e sei que você não quer fazer isso. Mas também sou psicólogo e sei que alcoolismo não se cura da noite para o dia e muito menos sem ajuda. Você vai sim às reuniões da A.A. nem que eu tenha que arrastá-lo amarrado. Estamos entendidos? — ele falou tudo isso em tom acusatório/reprovador. E por mais que o Pedro sempre tenha sido a pessoa mais branda que já conheci, não devemos testá-lo. Essa sua outra parte, uma parte mais dura, mais tirana, é implacável.
— Sim. Mais claro do que isso apenas desenhando — respondi frustrado.
— Ótimo. Era exatamente isso o que eu queria ouvir. — Pude perceber que ele estava sorrindo de mim. Idiota. — Agora descanse, meu amigo. Amanhã você vai começar a labuta, então é melhor aproveitar o seu último dia de moleza. — Ouvi a voz de Aline ao fundo — Tenho que ir. Tchau.
— Hum. Tchau — respondi e encerramos a ligação.
Fiquei pensando. Agora eu vou, de livre e espontânea pressão, frequentar o A.A.
Que ótimo!
Fiz algo para comer e fui assistir à algum filme até dar a hora de dormir. Estarei sozinho mais uma vez. Alice não está aqui. Mas dessa vez, eu não irei beber para esquecer. Eu apenas ignorarei a dor instalada em meu peito.
××××××××××××××××××××××××
Olá, amores! Tudo bem?
Primeiro, eu quero agradecer pelas leituras e informar que A Garota Que Você Esqueceu chegou a 1k!!! Valeuzão!!! (Sim, eu surtei quando vi! Haha)
Segundo, quero pedir desculpas pela mensagem final cortada no capítulo anterior (#wattpadmefazendodeotarianovamente).
É isso aí. Beijos de luz! Até a próxima!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
