Capítulo 07

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"E isto não é irônico. Você não acha?"

[Ironic, Alanis Morissette]








No dia seguinte, depois de uma noite mal dormida por estar pensando na grande merda que eu fiz e por ter caído no pranto, mesmo já estando sóbrio, eu levantei à custo para ir ao meu primeiro dia de trabalho. Fui para a frente do espelho que havia no banheiro e fiquei observando o meu reflexo. Decidi não fazer nenhuma auto-crítica hoje quanto a minha aparência, mas, meu Deus, é impossível ignorar as olheiras profundas, a barba por fazer e o olhar perdido de um louco que não sabe o que fazer da vida expressos no meu reflexo. E o pior é que eu me sentia extremamente cansado. Cansado de viver dessa forma. Mas acontece que já tentei algumas vezes mudar e sinto realmente que estou apenas repetindo um discurso velho e já desgastado pelo tempo. Um discurso cheio de promessas vazias que causou empolgação quando pronunciado na primeira vez. Um discurso que hoje já não convence mais ninguém.

Tomo um suspiro profundo. Não é irônico que eu esteja na mesma situação que Michael, personagem protagonista do meu livro Libertação, escrito em uma época em que eu estava extremamente feliz?

Bem, eu acho irônico.

Decido aparar a barba. Pelo menos estarei minimamente apresentável para o meu primeiro dia na Editora. Quem sabe eu conheceria o jovem talento hoje? A pessoa para quem eu daria dicas valiosas de como melhorar o seu texto? Eu esperava que sim. Eu queria muito mergulhar no trabalho e poder me concentrar em qualquer outra coisa que não seja a Alice. Eu queria ser normal pelo menos por algumas horas do dia. Poder voltar a me sentir como eu mesmo.

Quando cheguei à Editora, dando graças aos céus por ter conseguido chegar no horário, dei de cara com Elisa. Ela estava ocupada organizando algumas pastas e dando alguns telefonemas. Eu fiquei observando-a por algum tempo.

Ela estava linda. O seu cabelo cacheado estava preso em um rabo de cavalo alto e, percebi quando levantou da cadeira, estava com uma saia um pouco acima dos joelhos, de cintura alta, corte reto e preta, valorizando as suas belíssimas pernas. Ela também usava uma blusa preta com estampas de... Espere, aquilo são caveiras?

Ela me flagrou observando-a e fez cara feia para mim. Aproximei-me dela, fingindo que não estava analisando-a. Logo também fingi que não fui pego em flagrante.

- Bom dia, senhorita Soares. - digo, tentando um sorriso.

— Bom dia, senhor Garcia — ela diz, inexpressiva.

— Você poderia anunciar a minha chegada ao tio... — Limpei a garganta. Não poderia chamar Alberto de tio no ambiente de trabalho. — Ao senhor Soares, por favor?

Ela ficou me analisando por alguns segundos. Como se estivesse decidindo se faria o que pedi ou não. Então houve um suspiro frustrado.

— O vovô não está. Teve que viajar a negócios e ficará fora por dois dias — ela disse com uma ponta de frustração.

Ele estava viajando, então como eu conheceria o trabalho?

— Então, como é que... — comecei.

— Eu o apresentarei ao seu novo trabalho — Elisa disse, carrancuda — Vovô disse para eu me encarregar disso.

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