"E o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido."
[Legião Urbana, Dezesseis]
— Você não precisa fazer isso — eu disse para Elisa, quando ela foi me chamar na sala em que eu estava com Alérci.
— Já falamos sobre isso, Fernando. Não seja teimoso! — ela rebateu, sem paciência alguma.
— Do que é que vocês estão falando? — Alérci perguntou, sem entender absolutamente nada.
Elisa e eu viramos em sua direção ao mesmo tempo e depois olhamos um para o outro, sem saber o que dizer. Por um momento esqueci que Alérci estava presenciando aquela cena esdrúxula, mas eu não podia fazer nada quanto a isso. Elisa realmente conseguia me tirar do sério. Olhamos para Alérci novamente e... Eu conhecia aquele olhar. Alérci estava pensando besteira! Ai, caramba, isso não daria certo!
— Já saquei! Não precisa explicar... Vocês estão saindo, que maneiro! — ele disse maliciosamente, deixando-me constrangido e fazendo Elisa revirar os olhos. — Vocês não enganam ninguém mesmo. Estava na cara desde o começo.
Como assim, estava na cara?
— Nós...
Fui interrompido por Elisa.
— Isso mesmo, Alérci — ela disse com uma alegria que jurei que era verdadeira e segurou firmemente uma das minhas mãos. — Mas nós não contamos para ninguém, então, xiu. Entendeu? Queremos curtir esse momento antes que os outros fiquem sabendo e estraguem tudo.
Espera, o que Elisa estava fazendo? O que essa garota estava fazendo?
Fala sério, ela não estava fazendo isso comigo! Que louca! Eu daria umas biscas nela.
Eu devo ter feito uma cara nada boa, porque Elisa sorriu, como se achasse aquilo tudo muito divertido.
— Tudo bem, eu não vou dizer nada — Alérci concordou e fez o gesto de quem fecha a boca e joga a chave fora.
— Menos mal — Elisa diz, suspirando.
Ela era uma ótima atriz.
— Bem, eu já vou — Alérci disse com um sorriso enorme. — Aproveitem, pombinhos.
E quando ele foi embora, eu só pude dizer:
— Você é louca!
— Vamos logo, Fernando! — ela disse como se o que acabara de fazer fosse uma atitude normal de uma pessoa equilibrada — O que você queria? Preferia que eu contasse a verdade? — e me olhou inquisitivamente, como se esperasse uma resposta. Não respondi. Ela parecia impaciente. — Não vai responder?
— Ué, não era uma pergunta retórica? — perguntei com o cenho franzido. Ela revirou os olhos.
— Você vai chegar atrasado por uma besteira dessas? — ela indagou.
Pensei muito, mas, por fim, concordei.
Quando chegamos ao local das reuniões, vi Elisa encolher-se um pouco. Ela segurou firmemente a minha mão e eu gostei da sensação que o calor dela me passava.
— Não se assuste — sussurrei próximo ao seu ouvido.
Senti-a arrepiar, como se estivesse com frio, e morder o lábio inferior, querendo fazer uma pergunta.
Senti uma coisa diferente quando a vi mordendo os lábios. Era como se houvesse um puxão em meu estômago e ocorresse uma reviravolta em minhas entranhas. Era uma sensação que me causava dor, mas uma dor boa. Nunca senti nada parecido e isso me fazia ficar perdido.
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Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
