"Além de todas estas coisas, porém, revesti-vos de amor, pois é o perfeito vínculo de união."
[Colossenses 3, 14]
— Sabia que o encontraria assim. — Pedro suspirou, frustrado, após me lançar duros olhares de pena.
Eu estava um caco. Sentado no chão da cozinha, ciente de que havia bebido mais do que é possível para uma pessoa normal. As quatro garrafas de uísque vazias ao meu lado e a que eu estava bebendo diretamente no gargalo não me deixam mentir.
— Me deixa, Pedro — eu disse com a típica voz arrastada de bêbado — Eu só quero esquecer.
— Não vou deixar você se matar! — ele diz impaciente e toma a garrafa de minhas mãos. — Antes de você se matar, vai acabar entrando em um maldito coma alcoólico! Eu não vou permitir isso!
— Talvez seja melhor para a humanidade que essa merda de homem que eu sou morra logo — eu disse sarcasticamente — Certamente não farei falta alguma ao mundo.
— Você não é uma merda de homem, apenas está passando por um momento ruim — Pedro disse com pena desse pobre bastardo bêbado.
Eu sempre fico assim quando bebo. As lembranças ruins acabam voltando para me atormentar e eu acabo bebendo mais do que deveria. É um ciclo vicioso. E eu estou bem no meio dele.
— Eu só não entendo — disse para mim mesmo quando a imagem de Alice tornou-se nítida em minha mente — Por que ela me deixou?
— Esqueça essa mulher, Fernando! Ela te deixou porque é uma imbecil! — Pedro não tentou esconder a sua raiva em suas palavras. Ele detestava me ver assim. E detestava me ver assim por ela. Desde que ela me deixou, Pedro passou a tratá-la como vadia — Quer saber, para mim já chega, você vai parar de beber! Está proibido de colocar uma gota de álcool sequer na boca!
A minha indignação foi para as alturas. Como ele podia pensar que tinha o direito de me proibir de algo?
— Quem você pensa que é? O meu pai? — perguntei com raiva, porém em um tom de voz baixo.
— Sou seu amigo — respondeu, sério — Eu vou jogar fora toda e qualquer garrafa de álcool que existir nessa casa. E você vai frequentar os Alcoólatras Anônimos. Você precisa de ajuda e sabe disso.
Eu fiquei calado. Na verdade, eu fiquei atônito. Ele não podia fazer isso, podia?
— Mas...
— Nem tente. Você vai fazer do jeito que eu disse — ele me cortou — Não está em condições de protestar. Vem. Você precisa de um banho. Até suas lágrimas exalam álcool, se duvidar.
Pedro me guiou até o banheiro, caso contrário, eu teria caído vergonhosamente enquanto tentava me equilibrar devido ao estado de embriaguez, e saiu, voltando com uma toalha em seguida.
— Tome um banho e se vista. Depois nós vamos ter uma conversa bem séria — Pedro disse, entregando-me a toalha e saindo novamente.
Entrei no box e liguei o chuveiro que jorrava água gelada.
— Merda! — falei, encostando a minha cabeça nos azulejos da parede.
— O que você fez foi uma grande merda mesmo! — Pedro gritou de um cômodo qualquer da casa.
Fiz careta. Eu estava ferrado. Pedro pegaria pesado no sermão dessa vez. Mas até isso pareceu perder a importância quando o sorriso dela surgiu assim que fechei os olhos. Era difícil admitir que ela ainda detinha a chave do meu coração. Era difícil adimitir que tudo, absolutamente tudo o que eu faço, tem ligação com ela. E a única coisa que eu tenho feito ultimamente foi estragar a minha vida.
— Maldita seja por me fazer pensar tanto nela — murmurei para mim mesmo — Maldita seja por ainda ter meu coração nas mãos.
Depois de regular a respiração, acabei meu banho pensando que eu era mesmo um completo perdedor por me deixar tão vulnerável por causa de uma mulher que nem ao menos está ao meu lado. Ao mesmo tempo, eu me sentia menos bêbado.
Encontrei Pedro na cozinha, agora perfeitamente arrumada.
Ele olhou para mim sério e me entregou uma xícara de café.
— Vai fazer a ressaca vir mais branda — ele disse ainda com ar sério — E antes que você pergunte, todo o álcool que você tinha foi jogado na pia.
Suspirei derrotado. Mas não era como se eu não conseguisse mais.
— Tudo bem. Não é justo, mas tudo bem — resmunguei e bebi um gole de café. Fiz uma careta. — Esse negócio está amargo feito fel!
Pedro riu de mim. Infeliz!
— O que você esperava? — perguntou com uma sobrancelha arqueada. Mas logo sua expressão voltou a endurecer. — Agora, vamos conversar. Sério. O que você estava tentando fazer? Se matar? Você está perdendo a sanidade, por acaso? Você não pensou que eu vou ficar devastado caso você morra? Você não acha que isso é muito desesperador, já que eu o considero meu irmão? A Aline também ficaria devastada. Você é da nossa família! — pausa — Que merda, Fernando! Você não pode ficar desse jeito por causa dela! Isso é doentio!
Fiquei em silêncio. O que eu poderia dizer? Ele estava certo. Eu tinha que superar. Eu tinha que sobreviver. Ou pelo menos tentar.
Pedro suspira e passa a mão no rosto, tentando encontrar paciência nos lugares mais profundos do seu ser. Porque eu devo ter esgotado o estoque de paciência do meu amigo, um estoque que eu jurava ser inesgotável. E o seu tique nervoso — quase arrancar os cabelos — que tem desde quando nos conhecemos, é uma prova do que eu estou dizendo.
— Tudo bem. Eu acho que estamos entendidos — ele disse, tentando um sorriso e colocando em prática seus anos de estudo em uma universidade de psicologia. — Bem, você precisa de um emprego. Já pensou em como resolver isso?
Dessa vez foi a minha vez de suspirar, agradecido pela mudança de assunto.
— Bem, eu resolvi que vou apelar para os favores, como eu havia dito antes. Vou ver se consigo algo na minha antiga editora — murmurei de cabeça baixa — Alberto Soares é um empresário que costuma dar chances às pessoas. Além do mais, ele é amigo antigo dos meus pais. Não vai ser lá grande coisa, mas é como você disse, não estou em condições de reclamar.
Pedro me encarou por alguns segundos e logo sorriu com o canto da boca.
— É assim que se fala — ele disse, satisfeito — Agora, que tal irmos comer uma lasanha lá em casa? A Aline mandou fazer a sua preferida.
— Tudo bem — disse, já me levantando.
— E pode esquecer o vinho. Vamos beber refrigerante — Pedro disse, no seu tom mais militar possível.
Parece que leu meus pensamentos. Peste!
— Tudo bem. — Revirei os olhos, controlando o impulso de bater continência e dizer à plenos pulmões: Sim, senhor, capitão!
Apenas o segui, trancando a porta atrás de mim, torcendo para que aquela noite, pelo menos, eu conseguisse me libertar dos meus demônios.
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Olá, gente! Como vocês estão? Espero que bem.
Ok, em primeiro lugar, quero agradecer pelas leituras e votos. Obrigada mesmooooo. Vocês são demais!
Em segundo lugar, quero informá-los que, devido à uma coisa chamada UNIVERSIDADE, talvez eu atrase as postagens aqui. Sorry. :(
E, por último, espero que tenham gostado do capítulo. Continuemos com o drama! Haha. Espero estrelinhas e comentários. :)
Beijos.
Allana. <3
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Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
