Capítulo 20

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"Se um dia eu pudesse ver meu passado inteiro e fizesse parar de chover nos primeiros erros, meu corpo viraria sol, minha mente viraria sol, mas só chove e chove."

[Primeiros erros, Capital Inicial.]

Tudo perdeu a cor da felicidade quando me dei conta de um pequeno detalhe. Um detalhe muito importante e que era o principal motivo pelo qual estava tentando me libertar do álcool. O nascimento de Alegria me fez lembrar que naquele momento faltavam apenas dois meses para que o prazo de quitação das minhas dívidas acabasse. E até aquele instante eu havia conseguido apenas quarenta mil reais.

Fiquei estático, paralisado, congelado ao ser atingido pelo pensamento. Parecia que a felicidade havia mandado lembranças de uma hora para a outra, e a preocupação havia me abraçado de bom grado.

Encostei-me à parede e olhei para o teto. Parece que haviam me roubado o ar e ainda não estavam satisfeitos, porque continuavam a comprimir os meus pulmões. Respireo fundo uma, duas, três vezes na esperança de me acalmar um pouco.

Não funcionou.

Pelo contrário, fez meus pensamentos me invadirem todos de uma vez, como se fossem uma enxurrada.

Droga! Que grande droga! Como é que eu vou conseguir sessenta mil reais em dois meses?

Senti uma mão em meu ombro, o que me arrancou dos meus pensamentos.

— Ei, você está bem? — Elisa me perguntou. Sua expressão era de pura preocupação.

Respirei fundo mais uma vez antes de respondê-la.

— Não. Eu não estou bem. Não está nada bem.

Elisa crispou os lábios e me olhou diretamente nos olhos.

Seus olhos azuis me atingiram com a sua intensidade, e eu sabia que estaria perdido para sempre se nunca os tivesse visto em toda a minha vida.

— O que houve? — Elisa perguntou-me enquanto ia para o meu lado e encostava-se à parede.

Olhei novamente para cima, para o teto tão odiosamente branco desse hospital. Estava começando a concordar com Aline. O que as pessoas tinham contra as cores que dão vida, afinal?

Suspirei com a frustração que me acompanhavam constantemente e voltei o meu olhar para Elisa novamente.

— O prazo está acabando — disse simplesmente.

Não era como se ela não soubesse de que prazo eu estava falando. A aquela altura do campeonato, Elisa já sabia de tudo o que dizia respeito à minha vida.

— Ah, isso é... terrível. — Elisa suspirou frustrada. — Você não tem todo o dinheiro ainda. Será que eles não aceitam parcelar?

Ela perguntou esperançosa, e eu senti uma enorme gratidão por isso. Pela sua preocupação comigo que nem ao menos mereço tudo isso.

— Não. Eles disseram que minha dívida está tão alta justamente por não pagar as mensalidades durante esses cinco anos em que eu estive fora da realidade. — Passei as mãos pelos cabelos e as prendi entrelaçadas em minha nuca. — Eu fui um estúpido durante esses cinco anos por esquecer das minhas responsabilidades. Agora estou com a corda no pescoço.

Elisa se pôs à minha frente e me encarou duramente.

— Não fale isso. Ainda há esperança. É como diz aquele ditado: a esperança é a última que morre. Certo?

— Talvez. Mas eu acho que a minha esperança já está em estado terminal.  — Balancei a cabeça de um lado para o outro e respirei fundo. — Eu preciso respirar um pouco. Eu me sinto sufocado.

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