Capítulo 03

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"E há tempos o encanto está ausente, e há ferrugem nos sorrisos, e só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção."

[Há Tempos, Legião Urbana]




Não era como se eu não gostasse de reuniões familiares, — por Deus, eu perdi meus pais e daria tudo para tê-los novamente, o que quer dizer que eu amo ambientes familiares — mas eu simplesmente não estava conseguindo me sentir confortável ali, vendo a felicidade explícita de Pedro, que beijava a esposa sem nenhum escrúpulo por ter visitas. Claro, eu já não era considerado uma visita, eu era de casa, como Aline gosta de frisar todas as vezes que me vê.

Mas ser de casa não impede que eu tenha a terrível sensação de estar segurando vela para o casal. Ainda mais quando o casal está praticamente "se engolindo" na minha frente.

Limpei a garganta.

— Eu não quero atrapalhar nada, mas, se vocês forem partir para algo mais íntimo e mais constrangedor ainda, será que dá para avisar? Não quero ser telespectador — disse tentando disfarçar um sorriso. — Além do mais, eu não acho que isso seja bom para o bebê.

Aline sorriu da cara feia que o meu amigo fez para mim, embora tenha ficado um pouco envergonhada. Bem pouco mesmo. Somos amigos há muito tempo, então não temos filtro para dizermos um ao outro o que nos der na telha.

— Ora, são os hormônios da gravidez! — Aline disse em protesto, mas continuava sorrindo.

Ela estava linda e bem redonda. Seis meses de gestação e parece que os quilos extras da pequena Alegria favoreciam mais ainda a sua beleza. Os olhos castanhos brilhavam em divertimento com a minha fala mais do que natural. Os seus cabelos no tom mais leve de loiro contrastavam com as sardinhas em seu rosto, o que a deixava com ar de menina sapeca.

— Sei. Hormônios da gravidez. Bela desculpa, Ali, mas não vai colar. — Eu sorri — Eu a conheço há quanto tempo? Dez anos? É, dez anos. Você começou a namorar o Pedro com quinze. E, bem, eu já estou mais do que avisado de que vocês são muito, hum, fogosos.

Pedro revirou os olhos com o que eu disse, enquanto Aline apenas gargalhava. Era bom quando estávamos reunidos — exceto a parte de ficar de vela — eu esquecia boa parte das coisas que me afligiam. Mas naquele dia em especial, eu estava fingindo. Eu fingia que estava bem, mas estava preocupado e envergonhado com o que acontecera mais cedo em minha casa.

— Certo, eu não gosto quando estamos falando do quanto Ali e eu somos "fogosos". — Pedro fez aspas no ar quando disse a palavra "fogosos" — E sim, não é bom para o bebê. E é hora do jantar. Vamos comer?

— Claro, Pê. Vamos comer. Vou pegar a lasanha — Aline disse e me lançou um olhar. — Espero que goste. Ficou deliciosa. É de frango, a sua favorita.

— Obrigado, Ali. Eu estava mesmo precisando — disse e acompanhei o meu casal favorito até a mesa.

Quando senti o cheiro da lasanha, lembrei da minha mãe. A dona Marta fazia uma lasanha maravilhosa, com a qual sempre me mimava. Isso me fez sentir uma tristeza bem profunda.

— O que foi, Fê? — Aline perguntou, obviamente notando a minha grande tristeza — Você parece triste.

Suspirei. Era impossível esconder os sentimentos para pessoas que me conhecem tão bem quanto esses dois. Assim fica difícil não deixá-los preocupados.

— Eu lembrei da minha mãe. — Sorri levemente com o peso da nostalgia. — Ela amava me mimar com as suas deliciosas lasanhas.

Aline olhou para mim e respirou profundamente.

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