Capítulo 28

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"Os sonhos são as válvulas de escape, mas eles, quando transformados em realidade, são a concretização da felicidade."

[Alegria, capítulo 18, Fernando Garcia.]

Um frio percorreu a minha espinha assim que chegamos. O vento soprava inconstante e as folhas secas, caídas das árvores, acompanhavam o seu ritmo, dançando a sua própria valsa. O Sol estava se pondo no horizonte, trazendo uma iluminação fraca ao ambiente, e as lápides, quando banhadas pela escassa luz do astro, tornavam-se um pouco menos sombrias.

Eu não colocaria um cemitério na minha lista de melhores lugares para levar a sua namorada, mas lá estávamos Elisa e eu na entrada do cemitério em que meus pais estavam enterrados.

Senti o arrepio percorrer a minha espinha novamente. Estávamos parados na entrada do cemitério e eu estava pensando se faria mesmo isso após cinco anos sem ter nem passado por perto daquele lugar. Não era medo, não me entendam mal. Não acredito nessas coisas de sobrenatural, almas penadas ou coisa do tipo. Mas havia o receio de que eu não pudesse resistir às lembranças que ficar tão próximo ao lugar de descanso dos meus pais me traria.

Bem, eu já sou afetado por todas as lembranças da minha antiga vida de qualquer forma.

— Vamos. - Elisa segurou a minha mão e me rebocou para dentro do cemitério. Ela estava com as flores preferidas da minha mãe em sua outra mão. Insistiu que eu não poderia visitar os meus pais sem nenhum presente depois de cinco anos sem fazê-lo, a minha mãe ficaria triste por ter um filho tão ingrato. - Quais são as lápides?

- A lápide. - corrigi. - Meus pais foram enterrados juntos. Foi um desejo deles.

Elisa sorriu.

- Isso é bonito. - ela disse, ainda me rebocando. - Qual é a lápide?

Então nos dirigimos até a lápide de meus pais. Ao chegar, fui dominado por uma emoção que nem sei explicar. Foi então que notei.

- Está limpa. - disse, sem conter a lágrima.

A lápide de meus pais estava em um perfeito estado de conservação e perfeitamente limpa, o que é estranho, considerando que eu fui totalmente relapso no que diz respeito aos cuidados do local de descanso deles durante esses cinco anos.

- O vovô manteve a manutenção durante todo esse tempo. - Elisa disse, com um singelo sorriso.

Claro que o tio Alberto seria o responsável por isso. Ele foi mais cuidadoso com os meus pais do que eu jamais seria.

- Poxa, estou me sentindo um péssimo filho agora. - murmurei e me ajoelhei perto da lápide.

Eu me sentia em paz ali. Era como se os meus pais estivessem olhando para mim, me encorajando a ir em frente.

Suspirei.

- Olá, mãe. Como vai, pai? - disse, sentindo um caroço se formar em minha garganta.

Elisa se afastou um pouco, afim de nos dar privacidade. Fiquei em silêncio durante alguns segundos, como se esperasse alguma resposta. Observei as palavras gravadas na jazida.

THEODORO MARTINS GARCIA
(23/02/1960 a 19/08/2010)
MARTA ARAÚJO GARCIA
(05/01/1963 a 19/08/2010)
"Sobre o que impede os homens
Infelizes em seu martírio
Ganhadores da má sorte
Amadores do brilhantismo

Entende-se que esses homens
Moribundos de felicidade

Fazem de si mesmos
Ruínas de suas próprias casas
Eis o que os impede de seguir
Na busca da própria felicidade
Ter o que lhes prende
Estado pleno que se sente."

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