Capítulo 12

96 11 10
                                        

"E percebi que meu castelo estava erguido sobre pilares de sal e pilares de areia."

[Viva la vida, ColdPlay]

Elisa ficou estranha após a apresentação da banda Lux. E partindo da premissa de que a Elisa é a Elisa, um cara que a conhece dizer que ela estava estranha é realmente incomum. Agora os seus sorrisos não alcançavam seus olhos, e nem seus olhos alcançavam os meus enquanto conversávamos.

Seu sarcasmo ainda estava presente, assim como o seu humor negro, mas não era algo natural. Era algo mecânico e forçado, o que estava me deixando preocupado.

Eu estava levando-a para casa, já que tio Alberto nos deu folga pelo resto do dia. O silêncio reinava dentro do carro que muitos chamariam de lata-velha. Remexi-me no banco do motorista sentido-me desconfortável. Elisa continuava evitando olhar em minha direção e dirigia sua atenção à paisagem do lado de fora.

— Elisa, eu fiz algo errado? — perguntei, porque aquela situação estava comprimindo o meu coração. Se eu fiz algo que a magoou, eu deveria pelo menos pedir perdão.

Ela continuou dando toda a sua atenção para o lado de fora. E eu já estava com o nível de preocupação no máximo, ainda sem compreender o seu comportamento.

— Não se preocupe — ela finalmente respondeu — Eu estou bem.

Ela parecia querer convencer mais a si mesma do que a mim. Deixei-a quieta com seus pensamentos por não saber como lidar com uma Elisa frágil. Ela sempre foi forte e determinada, não era alguém que se deixava abater por qualquer coisa. Eu nunca a vi baixando a cabeça para qualquer problema desde o dia que nos conhecemos.

Voltamos ao silêncio incômodo novamente e meu cérebro, sem saber o que pensar, lembrou-me do que ocorreu depois que o tio Alberto saiu.

— O quê? — pergunto após Elisa me lançar o seu assustador olhar inquisidor, me fazendo de desentendido.

Você vai me contar qual é a verdade sobre você não beber mais? — ela pergunta, fazendo-me acreditar que enquanto eu não der qualquer resposta não vai me deixar em paz.

O seu olhar sobre mim deixa-me desconfortável. Eu poderia contar algo tão humilhante assim para ela? Eu não sei. Não faço a menor ideia de como seria a sua reação. E se ela simplesmente abandonasse a nossa amizade? Mas ela precisa saber. Não é justo que ela não saiba.

Será que nós podemos falar sobre isso outra hora? — peço finalmente.

Eu poderia adiar mais um pouco. Não estou preparado para contar algo que me faz tão fraco.

A expressão de Elisa era de um imenso descontentamento. Imagino que será difícil convencê-la a esperar por muito tempo.

Você já percebeu que esse é o segundo assunto que você adia? — Elisa demonstra sua irritação ao arquear as sobrancelhas. Seus olhos azuis estão acinzentados, como o céu ao prenunciar uma tempestade. — Vamos falar sobre isso mais tarde. — Ela aponta o dedo indicador em minha direção. — E nem tente me enrolar!

Não existe ser neste mundo que consiga enrolá-la — digo e faço uma careta insatisfeita para ela, que em resposta mostra-me a língua.

Balanço a minha cabeça, tentando espantar esses pensamentos. Porém mais uma memória me invade depois que paro em um sinal vermelho.

Assim que os primeiros acordes da música preencheram o restaurante, vi que Elisa a reconhecia. Peguei-me estudando o seu rosto por um momento, e ela me encarava também, até que desviou os olhos dos meus.

Dê-me amorHistórias para pegar e não largar. Descubra agora