"Somos todos mortais, com uma duração justa. Nunca maior ou menor. Alguns morremos logo que nascemos, outros vivemos um pouco, na memória dos outros, fora da mesma da acção que os teve [...]"
[Intervalo, Fernando Pessoa.]
Enquanto observava o Fernando conversando com os seus pais, eu pensei em tudo o que passamos até chegar aqui, desde o início, quando eu o tratei extremamente mal na recepção da Editora Soares, até agora, enquanto ele finalmente se liberta da culpa que sentia pela falta de coragem de visitar os seus pais em seu local de descanso.
Foram muitos erros, muitas brigas, muitas frustrações e muitos momentos em que não soubemos lidar um com o outro. Foram muitas decepções e muitos momentos delicados em que a tensão nos fez falar e fazer coisas que, posteriormente, deixaram o amargo sabor do arrependimento em nossas bocas. Foram muitos os fatores que nos acompanharam no decorrer desses meses e nos fizeram chegar a esse ponto, a esse momento.
Tudo aquilo aconteceu para estarmos aqui, no momento em que há, finalmente, a despedida entre pessoas que se amam. Uma despedida que deveria ter acontecido há cinco anos.
— Eu sei que vocês devem estar decepcionados com o que eu me tornei depois que vocês morreram. Vocês não queriam um filho tão fraco quanto eu me tornei.
Vendo-o ali, chorando silenciosamente pelas besteiras que cometeu, fez uma fisgada atingir o meu coração. E os meus olhos arderam com a eminência de um pranto tão silencioso quanto o de Fernando.
Senti vontade de consolá-lo, mas me mantive distante para preservar a sua privacidade, muito embora estivesse observando tudo. Naquele momento eu era apenas uma espectadora de um reencontro. De um ponto final. E de um recomeço.
- Eu tenho tanto o que falar para vocês. A primeira coisa é que a Alice não é mais a minha noiva. - Fernando olhou para mim, sabendo o quanto esse é assunto complicado para nós dois, principalmente para mim. Não por ela ser a sua ex-noiva, mas por ela ser a mulher que representa hoje a maioria das coisas ruins que o atingiram. Desviei o olhar. Não queria pensar no assunto. Fazia-me mal. - Ela me deixou na noite em que vocês se foram. Eu sei o quanto vocês gostavam dela, eu... eu também. Mas ela me abandonou e deixou um terrível buraco no meu peito... Eu também estou na eminência de perder a nossa casa por não ter pagado as dívidas durante todo esse tempo em que vocês se foram. Eu sei, isso é terrível e vocês devem estar decepcionados comigo agora.
Ele parou de falar, talvez esperando por uma resposta, talvez tomando fôlego, mas logo continuou:
- Eu também parei de escrever. Estou com o mais longo bloqueio criativo da história. E eu também sou alcoólatra agora.
E nesse momento uma dor assolou o meu peito. Uma série de imagens em que Fernando estava caído no chão, desmaiado e em coma invadiram a minha cabeça. E aquelas não eram imagens nada boas, principalmente quando se está em um cemitério. Apertei o ombro dele, mais para me apoiar da tontura que me atingia do que qualquer outra coisa. O que mais me aterrorisou foi a possibilidade de sua morte.
Morte. Essa palavra me dá arrepios.
Ajoelhei-me ao seu lado. Não poderia deixar que ele continuasse com aquilo, se culpando pelos erros do mundo e tomando para si todo o peso deles.
- Você não acha que está na hora de listar as coisas boas que aconteceram? - perguntei, após ter a terrível constatação de que os meus dutos lacrimais estão defeituosos.
Contraditoriamente, Fernando sorriu. Uma luz em meio a penumbra que agora se arrastava até nós.
- Bem, eu sou tio. Pedro e Aline tiveram uma linda garotinha chamada Alegria. Eu sei, é um nome e tanto. Vocês sabem que eles discutiram os nomes de seus futuros filhos desde o início do relacionamento... Eu estou trabalhando na editora do tio Alberto agora. Não é como escritor, mas como orientador dos jovens talentos que surgem por aí. Vocês teriam gostado de conhecer o Alérci... Bem, eu estou frequentando a A.A. e tem sido bom para mim. Não bebo tanto quanto antes. Aliás, perdoem-me por muitas vezes ter usado vocês como desculpa, isso foi criancice.
Eu ri e todos aqueles pensamentos de outrora se dissiparam, trazendo apenas as boas lembranças, aquelas que valem a pena deixar permanecer em nosso armazenamento de dados. Fernando fez careta para mim e eu pedi desculpas.
- Bem, eu acho que é só isso. - dei-lhe um beliscão pela ousadia de não me mencionar. - Desculpa, eu estava brincando... Bem, mãe, pai, ainda tem o fato de eu estar namorando uma garota maravilhosa. Acho que vocês conhecem a Elisa, a neta do tio Alberto e a garota que faz a minha vida menos deprimente. Ela é a melhor amiga que eu poderia ter. E eu a amo tanto.
Entrelacei as nossas mãos e sorri. Esbocei um "eu te amo" pelo simples fato de agora poder dizer isso quantas vezes quiser. Lembrei-me da minha decisão de falar o que sinto, do quanto eu fiquei frustrada com a sua evidente recusa, do quanto fiquei surpresa e feliz com a sua reciprocidade logo em seguida. Lembrei-me de mais cedo, quando anunciamos o nosso namoro aos meus avós, e isso me deixou feliz. O fato de eles terem aceitado prova o quanto Fernando é amado pela minha família.
- Eu gostaria de tê-los conhecido de verdade. Vocês deveriam ganhar o prêmio de pais do milênio por ter aturado o Fernando por vinte anos.
- Ei! Meus pais me amam, está bem? - Fernando fingiu irritação, mas logo me abraçou. - Estou com saudades. Eu amo vocês.
E foi nesse momento que o vi tremer. Logo em seguida, Fernando chegou mais perto da lápide de seus pais. Então eu percebi. Não era apenas uma citação aleatória de uma pessoa aleatória que estava gravada ali. Era a despedida dos seus pais.
"Sobre o que impede os homens
Infelizes em seu martírio
Ganhadores da má sorte
Amadores do brilhantismo
Entende-se que esses homens
Moribundos de felicidade
Fazem de si mesmos
Ruínas de suas próprias casas
Eis o que os impede de seguir
Na busca da própria felicidade
Ter o que lhes prende
Estado pleno que se sente."
E foi então que eu sorri em meio às lágrimas.
Siga em frente.
E ele seguiria, porque essa é uma promessa que eu farei por ele. O ajudarei a seguir em frente, estando ao seu lado sempre.
- Obrigado. - Fernando disse. - Eu vou fazer isso.
Sorri e deixei os lírios que tanto insisti que Fernando comprasse em cima da lápide da Marta e do Theodoro.
- Lírios também são as minhas flores preferidas. - levantei e estendi a minha mão para ele. - Vamos?
- Vamos. - Fernando levantou e olhou novamente para a jazida de seus pais. - Até logo, mãe. Até logo, pai.
E seguimos em direção ao próximo capítulo de nossas vidas.
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Olá, pessoas! Como vão? Espero que bem! Ainda mais que ontem foi dia dos pais e eu postei esse capítulo fofinho. <3 ah, sim. Feliz dia dos pais atrasado, sim? Que os papais de vocês tenham tido um dia maravilhoso. ❤
Espero votos e comentários.
Aaaah, esperem. Leiam o meu conto! Hoje eu vou postar o epílogo, então leiam lá, sim? Procurem no meu perfil : Apenas um conto.
Beijos de luz,
Allana. 😘
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Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
