Enquanto Fernando e eu compartilhávamos tantos momentos incríveis como ver o nascer do Sol no meu cantinho especial, eu realmente acreditava que seríamos como esses casais de contos de fadas, cujas histórias sempre terminam com um "e eles viveram felizes para sempre".
Bem, aparentemente essa coisa de felizes para sempre não existe e ali estava Alice para provar isso. Mas o que é que eu podia fazer? Vontade de lhe desferir um tapa daqueles com direito a estalo e tudo não me faltava, mas eu ainda tinha educação. É claro que Fernando se entenderia com ela, pelo amor de Deus, a quem eu estava querendo enganar? Que tipo de pessoa esquecer um amor em três meses? Ainda mais um por quem se sofreu por cinco anos? Era ilógico e era improvável.
Sim, ele voltaria com ela e isso me fez ter uma reação que nem eu mesma esperava. Dentre todas as coisas que eu poderia fazer, ficar paralisada com certeza foi a menos sensata, porque, como diria a minha avó, cabeça vazia é oficina do Diabo. Porque, embora uma parte do meu cérebro estivesse imaginando a diversas formas de mortes lentas e dolorosas que Alice poderia ter, uma outra parte estava projetando as melhores lembranças que eu tinha desse curto namoro: as coisas que ele havia recitado em plena madrugada, o pequeno trecho que ele havia escrito e recitado para mim. As palavras de carinho e amor e as brincadeiras de uma infantilidade incrível. Os olhares profundos, os beijos... Todos os "eu te amo" que trocamos. Lembrei de tudo naquele espaço de tempo curto.
"Não espere pelo segundo seguinte para retomar as rédeas da sua vida. Não espere pelo segundo seguinte para saber o que você quer de verdade. Não espere pelo próximo passo, pelo próximo fato. Não espere que as coisas aconteçam sem nenhum esforço. Não espere por amores perdidos ou por amores impossíveis. Não espere, apenas não espere. Vá em frente, abra os olhos. Observe o mundo pelas diversas perspectivas e caminhe em direção ao futuro. Viva. Apenas isso, viva. E não espere. Porque quando você espera, você para, fica estático. E não vive."
Amores perdidos e amores impossíveis... É, acho que estava na hora de não esperar por nenhum amor impossível. Era bem óbvio que não daria certo, então era melhor eu ir para casa, embora o meu cérebro me dissesse para ficar e não jogasse tudo para o alto ou... Bem, ele também dizia para eu ir até Alice jogar umas verdades em sua cara e fazer com que a minha mão, acidentalmente, acertasse o seu rosto.
Senti as mãos de Fernando segurando as minhas, o que me tirou dos meus pensamentos violentos e me fez ter a primeira reação após ele dizer quem era a mulher da risada esquisita: tentei afastá-las. Era doloroso saber que tudo acabaria naquele momento e ele ainda estar tentando me manter ali, consigo. Porém, Fernando não deixou que eu o afastasse, pelo contrário, ele apertou as minhas mãos ainda mais nas suas.
— Elisa...
- Não. - evitei que ele continuasse.
Não aguentaria ouvir qualquer coisa sem deixar escapar o choro que eu estava prendendo com tanto empenho, o que só serviu para que Fernando apertasse as minhas mãos à ponto de deixar os meus dedos esbranquiçados.
Eu estava com raiva. Com raiva de tudo o que estava acontecendo. Com raiva de mim mesma por estar com raiva. Com raiva de Alice.
- Meu amor...
Por que ele tinha que me chamar daquela forma se era tudo mentira? Qual é o prazer em ver alguém chorando? Porque, sim, eu não evitei um choro ridículo.
- Fernando, eu não sei lidar com isso. - sussurrei todas essas verdades incontestáveis. - Uma parte minha quer desesperadamente ignorar o que acontece na outra mesa, mas a outra parte quer ir até lá e jogar a verdade na cara dela e, claro, dar uns tapas naquela cara.
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Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
