"Mas todos vivemos dias incríveis que não passam de ilusão. Todos vivemos dias difíceis, mas nada disso é em vão."
[Beco Sem Saída, Charlie Brown Jr.]
Eu ainda estava meio concentrado na garota estranha que acabara de sair da sala. Não me pergunte o porquê e muito menos faça especulações. Não foi nada relacionado à isso o que você provavelmente está pensando. É que, bem, ela me causou certa... curiosidade. É isso! Afinal, como eu já disse, ela é estranha.
Alberto ainda estava concentrado nos seus biscoitos quando notou que eu ainda observava a porta pela qual a sua neta saiu.
— Não se preocupe com a Elisa. Ela é a pessoa mais ajuizada da família, apesar de ser um pouco, hã, excêntrica — Alberto disse com um erguer de sobrancelha. — Você se assustaria se conhecesse a Marcela e a Sophia. Ambas primas da Elisa. Aquelas duas me dão nos nervos. E olha que elas mal saíram das fraudas.
Não consegui evitar um sorriso de divertimento. Alberto nunca fora tão aberto e disposto a falar de sua família. Claro que eu conhecia a grande maioria dela, Elisa não faz parte desse grupo. Creio que estudava fora ou algo do gênero.
— Estou me perguntando por que eu não a conheço — disse querendo satisfazer a minha curiosidade. Se Alberto achou estranho, não disse nada.
— Ah, ela foi para os Estados Unidos assim que completou quinze anos. Ela cursou Arqueologia lá e depois foi em busca de suas descobertas. E é claro que a primeira parada foi o Egito — Alberto disse com um orgulho evidente da neta — Agora ela voltou, depois de uma conferência que teve em Londres. Disse que precisava de férias. Acho que dá para perceber que ela veio apenas para trabalhar mais e dar uma de babá.
— Poxa. Eu não sei o que dizer — e não sabia mesmo. Fiquei até com vergonha de ter largado a universidade. Talvez hoje eu estivesse com meu diploma de Direito. Talvez hoje eu não estivesse aqui, com vergonha de pedir um emprego para o melhor amigo dos meus pais. Talvez eu não estivesse nessa enrascada.
— Bem, ela é meio louca mesmo. Na verdade, ela tirou férias para cuidar de mim. Os problemas de saúde que eu adquiri com o passar dos anos, nada que a obrigasse a se afastar do trabalho. Mas ela me escuta? É claro que não! Chega a ser irritante a sua teimosia — Alberto disse, despreocupado e com o humor de sempre. Então olhou para mim. — Hum, Fernando, desculpa a minha intromissão, mas você está bem?
Fiquei pensando no que tio Alberto disse. Bem, pelo teor do telefonema que Elisa recebeu há alguns minutos, férias e a saúde do avô não foram os únicos motivos que a incentivaram a voltar ao aconchego do lar. Ela foi traída por alguém que julgava amá-la e quebrou feio a cara. É, eu entendo o que ela deve estar sentindo.
— Sim. Claro — respondi sem convicção, depois de despertar dessa divagação. Ótimo, estou preocupado com a vida de uma pessoa que eu mal conheço.
— Eu quero dizer bem financeiramente. — Ele me olhou como se já soubesse a resposta. Como se já fosse óbvio que eu lembrei dele apenas na hora da necessidade, como alguém que poderia me dar um emprego e não como alguém que é da família.
— Tenho enfrentado algumas dificuldades financeiras — admiti, depois de alguns longos segundos, em voz baixa. Senti-me derrotado. Nunca imaginei que chegaria a esse ponto.
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Dê-me amor
RomanceFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
