"Porque nós somos feitos de carne, osso e dúvidas. Porque nós somos feitos de amor, ódio e lágrimas. Porque nós somos feitos de perdão, rancores e culpas. Porque somos humanos. E desumanos."
[Fênix, Capítulo 15, Fernando Garcia.]
Enquanto olhava para o teto, ainda sem acreditar em tudo o que estava acontecendo, eu lembrava de todos os fatos do dia anterior.
Eu ainda estava meio inconformada com o fato de Fernando ter chamado pela Alice em plena madrugada. Ainda mais estando bêbado por culpa dela. Para falar francamente, eu estava profundamente triste. E com raiva. E magoada.
Decepcionada. Esta é a palavra certa para descrever o que eu estava sentindo quando encontrei Fernando naquele estado. Eu ainda pensava na cena que se repetia na minha cabeça diversas vezes, quando o meu telefone tocou. Ao ver o nome de Fernando na tela, meu coração se encheu de algo que eu realmente não queria sentir naquele momento.
Amor.
E isso me irritou profundamente.
— O que é? — Fui ríspida em meu tratamento. Aliás, havia sido desde o ocorrido.
— Oi, para você também, senhorita mal humorada — ele resmungou, aparentemente chateado pela minha falta de cortesia. — Preciso da sua ajuda.
— Estou ocupada. — Ignorei o seu tom e só então percebi os gritos e xingamentos ao fundo. — O que está acontecendo aí? Ouço gritos.
— Ah, não é nada. Só a Alegria nascendo. — A sua voz tremeu e seu apelo era gigantesco. — Pelo amor de Jesus Cristo, o que eu faço?
Ele soava desesperado. E então eu me desesperei também.
— Por que não me disse antes? — quase gritei — E por que não ligou para uma ambulância ainda? Pelo amor de Deus, a gravidez dela é de risco!
— Ei, pelo menos estou fazendo alguma coisa! — Fernando reclamou como uma criança mimada — O Pedro entrou em estado vegetativo.
— Tudo bem. Liga para a ambulância. Estou indo aí — falei depois de revirar os olhos e desliguei.
Foi nesse momento que, estabanada e completamente preocupada com o bem-estar tanto de Aline quanto de Alegria, eu peguei as chaves do meu carro apressadamente.
Enquanto dirigia, tentada a ultrapassar os limites de velocidade e todos os sinais vermelhos que apareciam pelo caminho, eu continuava pensando no quanto a minha vida era uma verdadeira piada.
Primeiro, eu me apaixonei por um cara que eu jurava que era completamente apaixonado por mim e que, depois de me pedir em casamento do alto de uma pirâmide e fazer com que eu me sentisse a mulher mais amada da galáxia, foi flagrado em uma situação nada inocente na nossa cama com a minha suposta melhor amiga. Depois, quando eu voltei para o seio familiar para tentar colar os caquinhos do meu coração, eu me apaixonei perdidamente por um cara que ainda era apaixonado pela sua ex, que o abandonou, e que, por este motivo, ele virou alcoólatra.
Sinceramente, só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto do universo.
Percebi que estava a ponto de me envolver em um acidente quando algum idiota fez uma manobra proíbida.
Freei bruscamente, tentando evitar uma colisão. Escapei por pouco, mas o caminhão que estava à minha frente, cujo o motorista era o idiota da manobra proíbida, colidiu com o poste de iluminação, fazendo todo o sorvete de chocolate voar para todos os lados, assim como penas de travesseiro, já que, aparentemente, ele também havia atingido uma loja desses objetos destinados ao sono. Outros motoristas que estavam com as janelas de seus veículos abertas acabaram se sujando com sorvete e com penas grudadas à pele. Inclusive eu, que estava tão perto da fonte.
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Dê-me amor
RomansaFernando Garcia é um escritor que já fora famoso, mas agora, devido à toda a sua crise de bloqueio criativo, que já dura nada mais que cinco anos, se vê falido, afundado em dívidas e no álcool, seu atual companheiro a quem confia suas mágoas e princ...
