Capítulo 05

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As coisas estavam caminhando bem com a Marília. Cumpri com o prometido e passei a acompanhá-la sempre no escritório. Aquela menina tímida que conheci há certo tempo atrás, estava dando lugar a uma linda mulher, cheia de idéias, objetivos, cheia de inspiração. Me sentia bem demais perto dela. Passei a lutar junto com ela pelos seus sonhos no mundo da música. Ela passou a conviver com muitas pessoas e conheceu muita gente. Isso despertou em mim um ciúme absurdo. Mas tinha que me controlar afinal, eu tinha namorada e ela era apenas uma amiga. Apesar de sentir bem lá no fundo que meu sentimento por ela era diferente, tive que aprender a suportar isso e preservar a amizade que construímos juntos.

Ela também não fez diferente. Sempre estava presente nos shows me dando apoio e me incentivando. A presença dela sempre fazia eu me sentir melhor.

Nos preparamos pra gravação do nosso novo DVD e foi muita correria, muitos ensaios, muitos ajustes. Eis que chega o dia. Viajamos pra Brasília e seguimos direto pro hotel. A Marília foi junto e se hospedou em um quarto bem ao lado do meu.
Estava sozinho no quarto pensando em tudo que estava pra acontecer e o que já tinha acontecido até esse dia. Nossa, muita coisa mudou mesmo. De repente me sinto tão só, parece que falta algo em mim. Senti uma vontade enorme de falar com a Marília, queira ela bem perto de mim. Levantei da cama e me dirigi ao quarto dela todo ansioso. Bato na porta e quando ela abre eu tomo um susto. Ela apenas de roupão. Fiquei muito impressionado e não consegui me controlar. Examinei ela inteira e abri um sorriso bem atrevido. Deixei ela muito sem jeito com as minhas insinuações. Juro que vê-la assim despertou algo em mim. Desejo é a melhor definição disso. Imaginei mil coisas nesse momento. Eu peço pra entrar e digo que quero conversar. Ela prontamente se afasta permitindo minha entrada. Deito na cama e fico lhe observando. Ela tá muito linda só com esse roupão. Henrique, se controla, diz minha consciência. Chamo ela pra se deitar ao meu lado e ela hesita um pouco, então faço aquela cara de menino inocente e ela resolve se juntar a mim. Conversamos um pouco e cantamos juntos. Nossa, como ela me faz bem. Lembro apenas de pegar sua mão e dormir com nossos dedos entrelaçados.

Acordei com a Marília puxando sua mão da minha e se levantando rápido da cama pois alguém estava batendo na porta. Quando ela pergunta quem é, meu irmão responde e diz que estão a minha procura, ela imediatamente abre a porta. Ele me vê deitado na cama e olha a Marília só de roupão, fica intrigado e pergunta o que tá acontecendo ali. Esse meu irmão. Respondo pra ele que não é nada do que ele tá pensando. Quem dera se fosse, eu penso.

A Marília pergunta que horas são e meu irmão diz que tá tarde. Nossa, estava tão bom aqui que nem vi as horas passando. Sinto uma preguiça enorme de sair da cama. O Juliano vai embora e a Marília fica me olhando com aquela cara de julgamento, encostada na porta. Não quero sair daqui, mas ela insiste que eu preciso me arrumar. Ah, essa menina parece a minha mãe, é muito mandona e eu amo isso. Me levanto lhe dou um beijo e saio.

Fui para o meu quarto pensando na conversa que tive com a Marília. Não sei porque mas aquela conversa abriu a minha mente. Eu sentia algo muito forte por ela, não era uma coisa de irmão, era mais que isso. Me arrumei e resolvi esperar a Marília pra ir comigo pro estádio. Mas a produção não autorizou, disse que íamos chegar atrasados. Contra minha vontade eu fui. Chegando lá, muita gente querendo conversar, entrevistas, os últimos ajustes. Olhei pra todos os lados e nada da Marília. Eu estava nervoso pelo show e meu porto seguro não estava ali pra me dar apoio. Já estava ficando preocupado até que a vejo. Meu coração disparou naquele momento. Meus olhos brilharam com mais intensidade. Aquela sensação que tinha sempre que a via estava ali. Sim, o sentimento estava ali e agora eu tinha certeza mais do que nunca que aquilo era real. Ela tava linda, uma princesa, minha princesa. Me dirijo até ela e conversamos um pouco. Isso me acalmou. Até que alguém da produção interrompe nosso momento e avisa que preciso ir. Peguei em sua mão não querendo mais largar, mas tive que ir e deixá-la ali, parada me olhando. Isso me doeu.

Subimos no palco e começamos o show. Era uma emoção sem fim. Ver aquele público ali nos prestigiando me fez acreditar que havia escolhido o caminho certo. Estava muito orgulhoso do nosso trabalho, nosso esforço estava sendo recompensado e isso me deixava muito feliz. Chegou um momento do show em que a banda parou e eu resolvi dizer algumas palavras. Lembrando da minha conversa com a Marília mais cedo, disse que as pessoas precisam dar mais valor a pessoa que está do seu lado porquê se um dia você perdê-la, talvez não tenha mais volta. Comecei a cantar a música e procurei a Marília entre as pessoas que estavam na área reservada do palco. Ela estava muito emocionada e fiquei observando-a um momento. Senti uma enorme vontade de ir abraçá-la. Vê-la naquele estado estava acabando comigo mas me contive afinal, estávamos gravando.

Quando acabou a música fiz uma pequena dedicação a ela todo orgulhoso. Assim que acabou o show nos dirigimos ao camarim. Corri até minha mãe e lhe dei um abraço bem apertado. Estava muito emocionado com tudo que havia acontecido. A Mayara se aproximou pra me comprimentar mas eu não consegui me senti a vontade perto dela. Me virei pro meu irmão e perguntei pela Marília. Assim que a avistei corri em sua direção e lhe dei um abraço bem apertado tirando-a do chão. Estava tão emocionado por tudo, pelo DVD, pelas músicas, por ela. Assim que me falou que eu cantei sua música com emoção eu não me contive. Disse a ela que só estava pensando em nós dois juntos no quarto do hotel. Ela tentou disfarçar, mudar de assunto mas eu não aceitei. Precisava dizer o que estava sentindo. Ela tentou se desviar de mim mas eu não deixei. Precisava falar, estava entalado, precisava lhe dizer a verdade sobre meus sentimentos. Não conseguia mais me segurar. Aquela música dizia muito sobre mim, eu nunca ia me perdoar se a perdesse. Agora mais do que nunca eu sabia que precisava da Marília ao meu lado. Queria protegê-la. Não queria deixá-la ir embora nunca mais. As palavras foram saindo da minha boca e fui me aproximando dela.

Naquele momento parecia não haver mais ninguém ali. Só nós dois em nosso mundo. Eu e ela. Até que escuto meu irmão me chamar. Não queria perder esse momento mas ela se afastou de mim, e parecia estar muito nervosa assim como eu também estava. E ela me diz que não fez aquela música pensando em mim. Fiquei sem entender. Tentei argumentar, mas as palavras não saíram. Por que tinha que ser assim??? Acabei desistindo e fui ver o que meu irmão queria.

Sou um covarde, eu pensei enquanto ia falar com meu irmão. Ele me levou num canto e me deu uma bronca daquelas.

- Mano, você tá maluco??? O que você tava pensando??? Você tava quase beijando a Marília na frente de todo mundo. Nossa mãe aqui, a Mayara também. E ela tava vendo tudo.

Apenas respondi

- Mano, você tinha razão. Eu falo um tanto decepcionado.

- Eu estou apaixonado pela Marília mas não queria enxergar isso. Hoje quando estávamos no quarto conversando, eu senti que não conseguiria mais viver sem ela. Que preciso dela. Que quero ela do meu lado sempre. Eu sei que ela também sente algo diferente por mim. Nossa relação não é normal. Não somos como irmãos, é bem mais que isso.

Meu irmão me olha surpreso e não consegue mais dizer nada.
Quando olho ao redor, percebo que a Marília não está mais ali. Ela foi embora sem ouvir o que eu tinha pra dizer. A culpa é minha, a culpa é toda minha.

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