Capítulo 17

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Uma semana depois...


Pérola


Não via a hora de voltar para casa. Já estava impaciente de ver as coisas deitada numa cama. Segundo os exames que realizei, não havia nenhuma sequela do acidente. Tirando a minha perna fratura e os roxos que já começavam a desaparecer do meu corpo, eu estava bem.

Márcio não me deixava nenhum momento sozinha. Era até engraçado vê-lo tomar banho com a porta aberta. Se eu respirasse um pouco mais profundo ele já estava feito louco chamando as enfermeiras. Como não amar essa coisinha linda?

Rosália tinha se rendido aos seus apelos e havia aceitado que era ele quem ficaria comigo aqui. O que me preocupava, porque não era certo que ele perdesse as aulas por minha causa. Mas como colocar na cabeça desse teimoso isso?

Meus amigos todos os dias estavam aqui. Contavam tudo o que acontecia no colégio e assim eu me sentia sempre perto deles. Ontem  um investigador da polícia veio falar comigo. Saber o que eu lembrava antes do atropelamento. Confesso que foi um momento tenso relembrar tudo, mas Márcio estava ao meu lado e eu me senti protegida.

Algo me dizia que tanto ele quanto Rosália me escondiam alguma coisa, e sempre que eu queria saber algo relacionado a investigação, eles achavam um jeito de mudar de assunto. Então resolvi deixar quieto por enquanto. Não que eu fosse esquecer, mas sei que eles só querem me proteger e no momento é do que eu mais preciso, me sentir segura.

Márcio: Então, o que iremos assistir hoje? - falou deitando ao meu lado com o notebook na mão. As enfermeiras já tinham desistido de brigar com ele sobre isso. E no fundo eu achava era que elas achavam lindo nos ver deitados naquela cama. - Eu voto em um filme com muita aventura.

Pérola: Eu queria mesmo era ver a vida lá fora. - mesmo não querendo eu estava triste por estar presa aqui.

Márcio: Eu sei, meu amor - colocou a cabeça em meu ombro - Mas logo tudo isso vai ser só uma lembrança. 

Pérola: Eu já estou bem. Não vejo necessidade de ainda estar aqui. - fiz birra. Aliás birra era meu sobrenome agora

Márcio: Amor, o que aconteceu com você foi muito grave. - ele era compreensivo até no jeito de me dar um puxão de orelha. - Então todo cuidado é pouco. 

Pérola: Eu estou ficando louca, Márcio. - comecei a chorar - Me sinto sufocada nesse lugar. Eu quero sair, ver o céu. Sentir o vento batendo em mim...

Márcio: Tive uma ideia! - ele deu um pulo da cama - Mas promete que vai fazer tudo o que eu disser?

Pérola: Com tanto que essa ideia tenha a ver comigo fora dessa cama, eu prometo - enxuguei as lágrimas com a rapidez de um raio e ele riu alto.

Márcio: O que eu não faço por você, garota? - beijou minha testa e foi indo até a porta. Abriu e deu uma espiada para depois voltar cheio de graça. - Se entrar na UTI foi fácil, te tirar desse quarto vai ser moleza!

Pérola: Só quero ver pra onde você vai me levar. - ri do seu jeito

Márcio: Para o céu, minha linda. Agora fica aqui quietinha que vou buscar a sua carruagem, princesa. - o que esse garoto iria aprontar? Eu já estava arrependida da birra.

Poucos minutos depois ele entrou no quarto empurrando uma cadeira de rodas e o sorriso que iluminava minha vida. Fiquei olhando para ele e sentia o amor correr por todo o meu corpo. 

Márcio: Desculpa, mas só achei um ratinho e a transformação não deu para uma carruagem. Prometo que na próxima sai uma Ferrari.

Pérola: Seu bobo! 

Márcio me pegou nos braços e me colocou na cadeira de rodas. Saiu empurrando aquela cadeira com a cara mais limpa do mundo. Teve até a cara de pau de cumprimentar um casal que passou por nós. Depois de passarmos por vários corredores, finalmente chegamos ao elevador. 

Márcio: Preparada para ver o mundo lá do céu, amor? - falou enquanto apertava o botão do elevador.

Pérola: Sempre estarei preparada para ir com você a qualquer lugar. - ele se baixou me dando um selinho.

Segundos depois as portas se abriram e a nossa frente eu vi degraus de uma escada. Márcio então me pegou novamente nos braços e começou a subir comigo. Quando ele empurrou a porta no topo daquela escada, eu senti o vento acariciar meu rosto e me senti viva. Respirei enchendo meus pulmões de ar. Olhei para o céu e as estrelas brilhavam como se estivesse me dando boas vindas. 

Márcio: Gostou, amor? - beijou o topo da minha cabeça e eu apenas acenei respondendo a sua pergunta. Era impossível falar alguma coisa naquele momento. Márcio caminhou até a mureta e sentou me aconchegando em seu colo. Encostei minha cabeça em seu peito e tudo ficou completo quando ouvi as batidas do seu coração.

Pérola: Eu tive medo que fosse o fim... - pela primeira vez depois do meu atropelamento eu colocava para fora o que senti. - Quando eu vi aquele clarão vindo em minha direção eu só consegui pensar em você. Numa fração de segundos tudo passou diante dos meus olhos. O medo de perder tudo o que tenho com você foi maior que qualquer outra coisa.

Márcio: Eu também tive muito medo de te perder. - me abraçou forte. - Pérola, quando eu te vi desacordada naquele chão a minha vida parou, perdeu o sentido.  Eu me senti tão sozinho... 

Pérola: Desculpa ter me posto em perigo daquele jeito. - fui sincera - Eu devia ter falado com você. Ter te mostrado o bilhete, sei lá.

Márcio: Esquece isso, amor. Já passou.

Pérola: Mas se alguém estiver por aí querendo me fazer mal? - eu tinha esse medo dentro de mim. Não sabia explicar, mas eu sentia que ainda não tinha acabado.

Márcio: Olha pra mim! - pediu e eu levantei meu rosto o suficiente para nossos olhares se conectarem - Eu não vou deixar ninguém te fazer mal, eu juro.  - por mais que eu tivesse medo, eu confiei nele. Eu entregaria minha vida agora para ele se pedisse. Não há ninguém nesse mundo que seja mais importante para mim do que o Márcio.  - Só promete que nunca mais vai se colocar em perigo daquele jeito?

Pérola: Prometo! 

E como se escutasse o meu pedido silencioso ele me beijou. Um beijo que há dias  não dávamos. Um beijo que nos fazia um só. Debaixo daquele céu, sentindo o vento nos tocar, nos beijamos cheios de saudade.



Teus Olhos ( PEROMAR )Onde histórias criam vida. Descubra agora