Capítulo 06 - Ímpetos

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Eloïs não estava nem um pouco disposto aquela manhã. Muito pelo contrário.

Saiu da cama a contragosto, derrubando alguns dos cadernos no chão ao afastar as cobertas, e praticamente rastejou em direção ao lavatório para jogar um pouco de água no rosto à fim de despertar. Passara boa parte da noite lendo e fazendo anotações, e acabou pegando no sono em algum momento da madrugada.

Ficara aliviado de, ao menos, ter apagado a vela que utilizou para ler e assim não começar um incêndio – embora não se lembrasse exatamente de tê-lo feito.

Despejou a água na bacia e pendurou a toalha no ombro. Lavou-se e aproveitou para analisar no espelho se precisava fazer a barba. Não que tivesse muitos pêlos faciais, mas era bom sempre aparar. Só que tudo o que viu foram as marcas levemente escuras debaixo de seus olhos. Suspirou. Era o resultado óbvio de suas noites mal dormidas.

Vinha trabalhando em uma nova composição que apresentaria no baile de noivado de seu irmão e corria contra o tempo para terminá-la, com intenção de que estivesse do gosto de todos e fosse um bom presente para o mais velho. Era uma surpresa. Por isso andava se esgueirando e ensaiando sozinho. Não queria correr o risco de ser pego. Pois, tinha o hábito de não deixar que ninguém escutasse o que compunha antes de julgar que estava bom o suficiente para que pudesse compartilhar com os demais.

Sempre fora assim. Era um perfeccionista nato.

Com a necessidade de tomar um pouco de ar fresco antes de descer para o desjejum, Eloïs abriu a janela e suspirou ao sentir os raios da manhã contra o rosto. Entretanto, seu pequeno momento de serenidade foi interrompido quando escutou vozes e ruídos de algo se chocando. Curvou-se para ver o que era e ergueu uma sobrancelha ao notar que eram os gêmeos, fazendo nada mais do que lutando entre si com espadas de madeiras, como se estivessem praticando esgrima. Reconhecia alguns dos golpes por já ter treinado com o irmão mais velho na época em que ainda eram crianças.

Encostou-se no batente de madeira e ficou observando. Seus olhos foram de um para o outro, demorando-se mais em um deles. Exatamente nela (ou ao menos em quem supunha que fosse ela, já que a semelhança o confundia). O que mais aqueles dois faziam? Ou melhor colocando, o que eles não faziam? Eloïs se perguntava se não pararia de ficar surpreso com as ações daquela dupla tão curiosamente fora dos padrões.

Depois de trocar de roupas, Eloïs saiu do quarto e bateu na porta do irmão para que descessem juntos para o café da manhã. Julien saiu do aposento com o mesmo ânimo com o qual acordara. Cumprimentou-o e reprimiu a vontade de perguntar se estava tudo bem, considerando que a resposta era nítida no semblante do mais velho.

Eloïs notou que seu irmão parecia estranho na última semana, o que piorou nos dois dias que se seguiram. Entendia que Julien vivia sobrecarregado, especialmente com toda a história do noivado. Ter que lidar com um compromisso arranjado, uma noiva carente de atenção, e ainda se preocupar com negócios futuros não soava nada fácil.

Julien sempre foi um homem cheio de energia, sonhador e alegre, que enxergava o lado bom das coisas independente da circunstância. Por isso, vê-lo atolado em responsabilidades forçadas e cabisbaixo daquele jeito feria Eloïs, que não queria assistir a infelicidade da pessoa que considerava a mais importante de sua vida.

Por essas e outras que o mais novo dos Dufour odiava ser um nobre.

[...]

Eloïs caminhava em direção a sala de música, como passara a fazer todas as tardes depois de ganhar a permissão do duque, quando ouviu uma bonita melodia ao longe. Era um piano, com certeza. Seu ouvido e paixão pelo instrumento não lhe enganariam.

O Mais Belo VermelhoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora