Eventualmente, Julien conseguiu pedir desculpas a Suzanne, que demonstrou certo arrependimento quanto a atitude que teve ao ignorá-lo daquela maneira, sendo que tudo o que seu noivo queria era se retratar pelo ocorrido.
Entretanto, o relacionamento de ambos não pareceu caminhar para uma melhora depois disso. Pelo contrário. Apesar da normalidade com a qual sempre trataram um ao outro, havia um distanciamento implícito crescendo entre eles.
Julien, embora não quisesse admitir, sabia que seu noivado não estava progredindo. E isso o preocupava. Se as coisas já pareciam difíceis no começo, receava imaginar como seriam após o casamento, que sequer estava perto de acontecer.
Claro que não procurava amor naquele compromisso, aceitou-o justamente por compreender que tal sentimento pouco provavelmente surgiria entre os dois. Além do fato de que ele mesmo não acreditava nisso. Desde o início, a ideia de unir as famílias através de um casamento era muito cômoda para ambos lados. Afinal, ninguém esperava mais do que o necessário daquele compromisso arranjado.
Contudo, desde a chegada na casa dos Bamborough, nada estava saindo conforme Julien planejara. O rapaz gostava que a vida fosse imprevisível às vezes, mas a verdade era que os acontecimentos das últimas semanas lhe deixavam temeroso. Principalmente em relação a pessoa que não abandonava seus desejos mais profundos e libidinosos.
Depois do encontro na cozinha durante a madrugada, a troca de olhares entre Julien e Christinie ganhara uma conotação que ia além do que os dois conseguiam assimilar em meio ao turbilhão de emoções que apenas um sorrateiro cruzar de olhos provocava.
O rapaz até perdera as contas de quantas vezes havia esparramado seu prazer solitário trancado no quarto ou mesmo enquanto se banhava. Céus! Tinha vergonha de ver como se transformara outra vez em um garoto cheio de luxúria.
Outrora poderia resolver esse problema se deitando com alguma das jovens criadas de sua casa ou em um bordel. Mas estava de mãos atadas – ou nem tanto assim – ao longo de sua estadia na casa do duque. Sem contar que estava noivo e, bem, talvez não fosse muito apropriado dormir com outras mulheres tendo alguém como prometida (não que se tocar pensando em outra, ainda mais a irmã caçula de sua noiva, fosse menos culposo).
Sentia-se patético.
Hugh não ficou exatamente contente quando soubera do acontecido envolvendo o futuro genro e a filha mais velha. Porém, também não reagiu com a contrariedade que o Dufour esperava, tratando-se de um pai.
Claro que o duque o repreendeu por conta das palavras duras que direcionou a noiva, mas não diminuiu a culpa de Suzanne por menosprezar a caçula da família, ainda mais na frente de um convidado, que logo seria um parente.
Julien, sentindo o dever de fazê-lo, conversou particularmente com Hugh no escritório e mais uma vez pediu desculpas pelo seu comportamento. O duque expôs seu descontentamento, porém, disse entender os motivos que o levaram a agir de tal forma. E como prova de que não havia qualquer ressentimento, convidou os irmãos Dufour para cavalgar e conhecer o vilarejo.
O rapaz não titubeou em aceitar. Seria uma ótima oportunidade para conhecer mais do ducado de Nomthurbeland, seus moradores e o homem que seria o seu sogro. E é claro, sair da inércia que o levava a pensar em lady Christinie o tempo todo.
— Cavalgar? Está falando sério? — indagou Eloïs, sem desviar os olhos do papel.
— Sim.
— E eu tenho mesmo que ir?
— El, não seja assim, huh? O duque convidou à nós dois. Seria uma desfeita se não comparecesse.
— Mas ele é o seu futuro sogro. Tenho certeza de que citou o meu nome apenas por educação, só que na verdade quer um tempo para ficar à sós com você em um lugar que seja, de alguma forma, neutro para ambos.
— Defina “neutro", irmãozinho. — debochou — Pois, que eu saiba, todo esse ducado é do senhor Hugh.
— Ah, você entendeu.
Julien sorriu, mas parou para refletir. Talvez o irmão tivesse razão. Ou talvez estivesse apenas inventando uma boa justificativa para ficar compondo – o que não seria a primeira vez. No entanto, a fala de Eloïs tinha alguma lógica. O duque só convidara os dois para não soar grosseiro. Provavelmente fosse esse o caso.
O Dufour mais velho sentou na beirada da cama do irmão e ficou observando-o escrever quase que compulsivamente nas folhas de papel. Não iria levá-lo, no final das contas.
Os dois permaneceram quietos um instante, até Julien dizer com bom-humor na voz:
— E quando poderei ouvir sua nova composição?
Eloïs parou o movimento da mão e virou a cabeça para responder com sarcasmo:
— No momento certo.
Julien sorriu.
Óbvio que seu irmãozinho não lhe daria qualquer informação sobre a música.
— Bom, acho que é melhor eu ir me preparar. — bateu nos joelhos, dando impulso para levantar — Direi ao duque que você está muito ocupado com suas composições, mas que agradeceu o convite e espera poder acompanhar-nos uma próxima vez.
Eloïs ergueu o canto dos lábios em um sorriso malandro. Julien era realmente bom em inventar desculpas para situações como aquelas, em que ele não tinha a mínima vontade de comparecer.
Não quando tinha planos melhores.
Vestido para montar, Julien desceu para encontrar o duque no horário combinado e se apressou em esclarecer o motivo por Eloïs recusar o convite e colocar em prática todo o roteiro que inventara. Hugh concordou sem muitas ressalvas e ficou evidente para o Dufour que seu irmão tinha razão quanto as reais intenções do duque ao sugerir um passeio a cavalo até o vilarejo.
Um cavalariço de cabelos louros trouxe dois animais selados do estábulo. Uma égua branca robusta e um corcel de crina negra como as noites de inverno. Lindos cavalos, reconheceu Julien, dignos de um nobre. Seu primo Maurice que era um grande entendedor e exímio cavaleiro, tanto que mudara para o Império da Áustria com o intuito de iniciar uma academia de equitação. Onde “a nobreza aprende a montar a cavalo e outros exercícios que lhe convém”.
— Aeryn, ajude-me a subir. — ordenou Hugh ao cavalariço.
Após montar com uma elegância que surpreendeu o duque, Julien acariciou a crina do cavalo enquanto observava Hugh ser ajudado pelo tal criado, que descobrira chamar Aeryn, e em seguida desviou o olhar e inclinou para murmurar algumas palavras ao animal, como se estivesse o cumprimentando e tentando criar vínculo. Era mais fácil conduzir um cavalo em que confiasse.
Os dois saíram galopando minutos depois, com um dos valetes logo atrás, cruzando a entrada da enorme propriedade e pegando a estrada que Julien lembrava vagamente de ter percorrido no dia em que viera de carruagem do porto. Pelo que Hugh dissera, demoraria bons minutos até o vilarejo.
— Não é um pouco incômodo morar longe do vilarejo? — perguntou o Dufour.
— Veja bem, meu rapaz, há suas vantagens e desvantagens. — respondeu Hugh, olhando para a estrada — Gosto da serenidade de meu lar e da liberdade que posso dar aos meus filhos ali. Além da segurança, é claro. As inconveniências são mínimas se comparadas a isso.
Os gêmeos surgiram de imediato na cabeça de Julien. Ainda que o duque estivesse possivelmente se referindo a todos que viviam com ele, via-se incapaz de não associar tais palavras com aqueles dois.
O trajeto para o vilarejo era, apesar de silencioso, muito agradável. Rodeado por árvores frondosas e podia-se ouvir o som dos pássaros que sobrevoavam nos entornos. O que, combinado com o clima daquela manhã, inspirava o humor de Julien. Ele lembrou de Christinie e imaginou que ela e o gêmeo deveriam estar correndo pela campina ou nas plantações com os criados. Sorriu com o pensamento, foi inevitável.
Ah, céus, somente pensar naquela jovem tão espirituosa lhe aquecia o peito.
— Sei que teve um desentendimento com a minha filha, mas.... Como vão as coisas entre vocês?
Hugh questionou de repente, chamando a atenção de seu futuro genro, que precisou um minuto para assimilar a pergunta antes de responder:
— Bem, continuamos caminhando juntos e conversando sobre os preparativos para o baile. Estamos nos aproximando pouco a pouco. Pretendo cortejar lady Suzanne como deve ser, pacientemente.
— Isso é bom. Apesar de ser um casamento arranjado, espero que haja respeito e apreço na relação de vocês.
Julien anuiu. Pensava o mesmo.
Ou forçava-se a pensar.
— Como pai, sei que minha filha mais velha é difícil às vezes, mas também é uma dama que será uma excelente esposa. E lhe dará belos herdeiros, não duvide disso. Com o tempo, tudo se ajeitará.
— Quero ser um bom marido para lady Suzanne. — comentou, mesmo com o gosto amargo que tomou repentinamente sua boca.
— Tenho certeza de que será.
— Me esforçarei para isso.
Enquanto seguiam pela estrada, Hugh explicou como funcionava a distribuição de serviços dentro do ducado. A maior parte dos moradores trabalhavam nas lavouras, enquanto outra dividia-se em distintas tarefas, mas todos sobre a administração do duque e servindo a realeza.
Havia também as terras e as minerações em Durham, ao sul, que seriam de sua responsabilidade após o casamento. Mas Hugh disse para adiarem o assunto até que o baile passasse.
Julien, às vezes, ficava farto com as esquivas do duque em falar sobre o trabalho. Mesmo ciente de que ele estivesse apenas o poupando de aborrecimentos burocráticos durante o seu período de descanso. Afinal, estava com a cabeça cheia por conta dos preparativos do noivado – e por outros motivos que eram desconhecidos para os demais.
Depois de mais alguns minutos, Julien avistou o vilarejo ganhando forma conforme se aproximavam. Os ruídos característicos de risadas e conversas foram ressoando, e, ao longe, algumas crianças brincavam perto da estrada com uma bola.
A vida parecia simples ali, nada familiar com o que provavelmente Londres seria, mas trazia um ar familiar e aconchegante a Julien. Lembrava sua terra natal de que tanto sentia falta.
Atravessando a rua onde possivelmente ficava o mercado principal, o Dufour percebeu que todos os olhares estavam voltados para o duque e ele, e que a maioria das expressões não demonstravam alegria ao vê-los ali. Muito pelo contrário. Começou a sentir-se desconfortável. Mais do que isso. Começou a ficar bastante intrigado.
Seguiu Hugh pela extensão da larga rua e foi bombardeado pelos comentários alheios: “Quem é ele?”, “Será que é algum novo empregado do duque?”, “Provavelmente é mais um lacaio da corte". Entre tantos outros. Além de notar os olhares de algumas moças, que lançavam sorrisos envergonhados em sua direção. Provavelmente ninguém tivera conhecimento de sua estadia no palácio dos Bamborough. Menos ainda de quem ele realmente era.
Percorreram boa parte do vilarejo montados nos cavalos e sob os olhares críticos e curiosos dos moradores. As casas de pedra construídas praticamente uma ao lado das outras formavam um cenário peculiar e igualmente interessante. O duque não falou mais do que o necessário e manteve a postura impassível por quase todo percurso, isso até pararem em frente ao que parecia uma casa de chá.
Hugh desceu do cavalo e, consequentemente, Julien e o valente fizeram o mesmo.
— Tenho que resolver alguns assuntos próximo daqui. Não irei demorar. Fique à vontade para beber algo enquanto espera.
Mesmo surpreso com a mudança súbita de planos, o rapaz assentiu e observou o duque se afastar juntamente com o valete.
Ainda sob os olhares alheios e um pouco deslocado, Julien entrou na casa de chá e, apesar do horário, estava relativamente cheia. Mais uma vez foi o centro das atenções, porém, ignorou e se dirigiu até o balcão. Foi atendido por uma senhora.
— Gostaria de uma xícara de chá, Sir?
— Sim, por favor.
A xícara foi posta diante dele em dois tempos. Via-se claramente a diferença das porcelanas dos Bamborough para o daquela que a senhora lhe entregara. Mas Julien não dava importância para aquilo. Somente agradeceu e colocou duas moedas de prata sobre o balcão, e por ali ficou.
Ele estudou ao redor um instante. Era um estabelecimento pequeno e bastante simples, mas emanava uma sensação de acolhimento. Um lugar onde as pessoas podiam ir para descansar depois de um longo dia de trabalho ou simplesmente encontrar algum conhecido e conversar. Esquecer das obrigações nem que fosse por alguns minutos.
Bebericando calmamente o chá, Julien reparou em dois homens entrando e ocupando uma mesa não muito longe de onde estava sentado. A mesma senhora que o atendeu foi recepcioná-los e os serviu com extrema rapidez.
Seriam apenas mais dois fregueses comuns, se Julien não tivesse escutado a conversa deles.
“Aquele duque patife vem até aqui esfregar sua pompa em nossa pobreza e ainda acha que temos que o aplaudir quando chega?”
“Tinha que ser um cão da monarquia mesmo!”
O Dufour ficou impressionado com o teor perverso daquelas palavras. Quem quer que fosse, deveria mesmo odiar o duque, e a outra pessoa parecia ser complacente a tal opinião. E o pior é que aquelas pessoas não faziam questão alguma de disfarçar a repulsa.
“Sinto pena é daquelas crianças. Me pergunto como aquelas boas almas conseguem lidar com alguém tão asqueroso".
Crianças? A quem se referiam?
“Pobres diabos. Espero que, ao menos, eles sejam tratados melhor do que nós".
“Tenho certeza de que sim. Aquele velho jamais deixaria algo acontecer com os filhos. Já basta o que aconteceu com o Augustus. Ele não permitirá que a história se repita”.
Augustus? O segundo filho do duque de quem não sabia nada? O que aconteceu com ele?
Julien endireitou a coluna para ouvir melhor.
“A propósito, soube que o Aeryn andou se encontrando com ela de novo".
“Verdade?”
Aeryn? Esse nome não lhe era estranho. Tentou puxar na memória.
O cavalariço!
Era o tal rapaz de cabelos louros que entregara os cavalos para que pudessem vir ao vilarejo.
“Sim. Tenho pena daquele moleque. Sorte que irá para Londres no final da semana”.
“Assim será melhor. Que ideia tola a dele de se acostar com alguém daquela família, independentemente do quão bom seja o coração daquela jovem”.
“Pois é, amigo. Um grande tolo".
Julien sentiu um arrepio correr pela espinha. Aquela conversa estava tomando um rumo muito perigoso, tal como os seus pensamentos, que o levavam diretamente para uma pessoa.
Seu coração acelerou, repleto de medo.
Mesmo ciente de que estava entrando em um território que não lhe pertencia, o Dufour decidiu se aproximar para ouvir mais do que os homens falavam. Talvez algumas das respostas para as dúvidas que tinha sobre a família Bamborough estivessem nas bocas daqueles desconhecidos.
No entanto, antes que pudesse escutar mais alguma coisa, a porta da casa de chá foi aberta e o duque passou por ela na companhia do valete. Uma onda de frustração banhou o rapaz. O momento tinha como ser mais inoportuno?
— Eu disse que não iria demorar. — disse o duque, esboçando um leve sorriso. Claramente falso.
— Ah, sim. Sequer notei o tempo passando.
E realmente não havia, imerso demais na conversa alheia.
— Está quase na hora do almoço. É melhor voltarmos.
Hugh lançou um olhar enojado para todos que estavam na casa de chá. Um olhar que Julien nunca vira antes. E um silêncio quase sepulcral tomou conta da casa de chá, a tensão era palpável.
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O Mais Belo Vermelho
RomanceJulien Dufour está enredado em um casamento arranjado com a filha mais velha do Duque de Northumberland, amigo de longa data e sócio de seu pai. Sabendo de seus deveres como primogênito e herdeiro, ele nunca se opôs a ideia de expandir os negócios a...
