Concentração

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A hora do almoço já tinha passado, mas Shoto não estava disposto a descer. Ao invés disso, sentava na frente da escrivaninha com a matéria que Yaoyorozu bondosamente tinha se disponibilizado a levar até seu quarto no dia anterior. Ao que parecia, uma semana proibido de ir a aula era mais estressante do que soava inicialmente, considerando a proximidade com as provas.

Coçou a testa na décima segunda questão de química, imaginando como Izuku estaria lidando com aquilo. Havia considerado não encontrá-lo até o final do período de avaliações, mas ao que tudo indicava, seu pensamento não conseguia cooperar com essa decisão. Pôs o lápis de lado e abaixou a cabeça em cima dos braços, abafando até a claridade da luminária ao lado, e suspirou ao lembrar das bochechas vermelhas do outro garoto com a expressão de quem espera por um beijo.

Antes que pudesse se dar conta, seu coração pareceu querer saltar do peito de maneira fisicamente desconfortável, enquanto o rosto queimava. No entanto, um pequeno sorriso se formou no canto da boca e ele já tinha desistido de entender o motivo. Levantou a cabeça e encarou o caderno, tendo ciência de que a partir daquele momento, já não conseguiria mais se concentrar. Era confuso e frustrante ao mesmo tempo.

Como se seus pés estivessem se movendo por vontade própria, levantou e foi até a varanda, se apoiando casualmente no parapeito ao observar o jardim. O calor do verão já quase estava em seu ápice e as nuvens altas que cobriam todo o céu deixavam a luz do dia esbranquiçada. Sentir a brisa no rosto o ajudava a clarear um pouco a cabeça.

Um barulho alto veio da varanda ao lado e automaticamente Shoto teve sua atenção voltada para Kaminari e Ashido se acotovelando para fora da porta, parecendo disputar alguma coisa que a menina tinha em uma das mãos enquanto empurrava o rosto do garoto com a outra. De dentro do quarto do Sero, normalmente tão calmo quanto ele, escutou a voz característica de Bakugou gritado “o que vocês estão fazendo?”

Imediatamente após notarem a figura do rapaz parado há pouco mais de um metro de onde brigavam, os dois encararam Shoto por um instante antes de se soltarem. Kaminari usou esse tempo para pegar o que quer que estivesse na mão da garota, que não pareceu se importar tanto quanto antes, agora que sorria na direção da varanda ao lado.

— Ah, Todoroki! Tinha esquecido que seu quarto ficava aqui. Foi super injusto, mas bem-vindo ao mundo das pessoas que levam suspensões. Eu ainda não tive tempo de te agradecer pelo outro dia, mesmo depois de tudo. — Ela se apoiou no guarda-corpo e abriu um sorriso tímido ao notar a expressão confusa de Shoto. — Você não lembra de nada mesmo, não é? Ojiro-kun me contou o que aconteceu depois, mas eu confesso que estava um pouco cética sobre isso…

— Tsc, parem de incomodar os vizinhos e vamos voltar ao estudo, seus delinquentes preguiçosos. — A figura de Bakugou despontou carrancuda na varanda, praticamente puxando os dois para dentro, sem se importar com o que interrompia. Ao perceber com quem Ashido conversava, porém, cumprimentou-o com um aceno de cabeça, que foi repetido por Shoto.

— Hey, Todoroki! — Kaminari resistiu ao puxão do colega, colocando a cabeça para fora novamente. — Não quer vir estudar com a gente? Nosso grupo poderia se beneficiar de alguém inteligente de vez em quan…

Antes de terminar a frase, uma explosão vinda da mesma mão que o segurava foi seguida por reclamações sobre ser tirado do próprio sossego para ajudar os desesperados e algo também sobre agradecimento, mas a voz de Bakugou foi morrendo aos poucos devido à surpresa, assim que Shoto aceitou o convite. Seria talvez uma boa forma de desanuviar e estudar ao mesmo tempo, o rapaz pensou.

Recolheu as coisas e foi até a porta vizinha, onde Kirishima e Kaminari estavam sentados na cama, Bakugou tomava conta da cadeira de rodinhas, enquanto Sero e Ashido se espalhavam pelo chão. Se juntou aos últimos dois e colocou o caderno na mesinha de centro, sentindo-se um pouco deslocado em relação ao grupo.

— Nós estávamos estudando matemática antes do Kaminari nos apresentar a crush dele. — Sero informou-o assim que todos o cumprimentaram. — Então a Mina quis saber quem era e o resto você viu.

— N-não é minha crush! — Kaminari gritou de volta com o rosto vermelho.

— Corta essa! — Ashido interrompeu. — Quem é que carrega uma foto com uma garota dentro do caderno e diz que não gosta dela? Só o fato de você não ter deixado a gente ver já fala bastante sobre isso!

— Como é isso de gostar de alguém? — A despeito da cara de repúdio de Bakugou sobre sua questão, Shoto encarou o próprio caderno com as questões mal resolvidas e franziu a sobrancelha. — Como você sabe o que sente pela pessoa?

— Bem… — A menina colocou a mão no queixo e olhou para cima. — É mais quando você olha para a pessoa e seu coração acelera, vontade de beijar ou andar de mãos dadas, ou quando você pensa tanto nela a ponto de não conseguir se concentrar… a ponto de carregar uma foto especial no caderno de matemática...

— Cala a boca, Mina!

Kaminari cruzou os braços emburrado por um segundo antes de bakugou levantar e praticamente bater com o próprio caderno em cima da mesa.

— Cala a boca todo mundo, porra! Se vocês demorarem mais quinze minutos para sair da questão dois eu não ajudo mais ninguém.

— Calma cara. — Kirishima finalmente interveio, depois de um instante encarando o próprio dever em silêncio. — Eu acho que acabei de resolver aqui.

— Resolveu errado!

A resposta do rapaz foi curta e grossa, mas logo depois ele sentou ao lado do outro, apontando o erro e como corrigir. Em um instante Shoto observou todo o grupo se amontoar em torno dos dois para tentar entender o que tinha sido feito e Bakugou estava explicando a matéria com o máximo de paciência que a vida lhe permitia ter.

No entanto, por mais que olhasse para a própria resolução dos exercícios, já bem mais avançada que a dos colegas, ao ouvir a voz do rapaz, era como se os números e fórmulas estivessem alheios à cabeça de Shoto. Ao invés disso, a fala de Ashido reverberava no seu pensamento, como se algo finalmente começasse a fazer algum sentido. Nunca antes havia se imaginado gostando de alguém, principalmente porque lhe parecia que isso jamais faria parte de sua vida antes de tudo, mas agora era a única coisa que explicava o que sentia por Izuku.

Queria perguntar mais coisas à menina e tirar de vez todas as dúvidas, mas aquele não pareceu ser um bom momento. Suspirou e concentrou-se em ajudar os colegas com a matéria atrasada até o final da tarde.

Quando as provas começaram, foi a primeira vez em uma semana que Shoto pôde voltar à sala de aula. Surpreendentemente nada estava diferente para além do clima de preocupação que aquele período impunha à todos. Sentou-se confortável na cadeira e aguardou as folhas chegarem a si, para pegar uma e passar para trás o resto. Ao virar, seu olhar se cruzou com o de Izuku por uma fração de segundo, suficiente para tirar o coração dos eixos.

A primeira questão era fácil, sobre história do Japão antes da era dos heróis. Enquanto escrevia automaticamente, lembrava de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, em especial da sensação do beijo, depois de ver aqueles olhos verdes e redondos o encarando. A segunda questão seguia a linha da primeira, mas era um pouco mais elaborada. De todas as coisas que gostaria de estar fazendo, aquela provavelmente era a última, mas ele tinha que se forçar a continuar. Suspirou, com vontade de abaixar a cabeça, mas leu a terceira e última questão. Ele gostava de Izuku e não tinha ideia do que fazer com isso. O segundo tempo era prova de química e obviamente Shoto não havia conseguido revisar nem metade da matéria, mas o grupo que vinha frequentando com Izuku mostrou ser de grande ajuda. Concentrou-se um pouco mais para fazer os cálculos. Será que o garoto conseguiria resolver a quarta questão da forma como haviam estudado juntos?

Parou o que fazia, a frustração crescendo no peito, e levantou a mão, pedindo permissão para ir ao banheiro.

Jogou água no rosto e encarou-se, percebendo as pontas da franja molhadas tocando as bochechas. Seria melhor começar a prendê-las para trás, considerou. Respirou fundo enquanto secava o rosto na toalha de papel, chegando a um acordo consigo mesmo: assim que as avaliações terminassem, trataria daquilo diretamente com Izuku de uma vez por todas, mas por enquanto evitaria pensar no assunto. Ou assim ele iria tentar.

A história de nós doisHistórias para pegar e não largar. Descubra agora