Já estava no final da tarde quando os alunos foram liberados do ginásio. Izuku sentia um pouco os músculos da perna, considerando que estivera forçando a individualidade o máximo que conseguia. No entanto, havia chegado a um ponto no qual a evolução era tão mais lenta que cada pouquinho que ele aumentava de força ainda não era uma porcentagem tão significativa. Estava ficando sem tempo e não tinha mais o professor com quem estivera contando por tantos anos a lhe dizer o que fazer e, para falar a verdade, a sensação de desamparo era algo com o qual não esperava ter que lidar daquela forma.
Rangeu os dentes e deixou a água cair sobre si no vestiário lotado de outros rapazes das turmas A e B, que conversavam de um modo animado ao qual ele não estava com ânimo para manter no momento. Saiu do chuveiro e olhou em volta, mas não conseguiu ver o namorado em lugar nenhum. Talvez ele ainda estivesse no banho ou até mesmo voltado antes para os dormitórios. De qualquer jeito, tinham combinado antes de não ficarem muito juntos em locais públicos em que precisassem estar sem roupa, por motivos práticos, por isso não deu muita atenção à vontade de encontrá-lo agora. Teriam o horário da janta para isso.
Passou um tempo no quarto estudando sozinho a matéria das provas finais. Quando pensava sobre isso, Izuku mal podia acreditar que em breve estaria formado na academia de heróis que havia sido objeto de seus sonhos desde pequeno. Não importava por qual ângulo olhasse, ainda soava surreal tudo o que vivera nos últimos três anos, como se tivesse trapaceado a própria vida no momento em que recebeu a missão de All Might para se tornar o herói número um e, consequentemente, o símbolo da paz no mundo contra os vilões.
Encarou as costas da mão, cravejada de cicatrizes, e suspirou. Não, ele ainda não era bom o bastante. Será que um dia chegaria a ser? Desanimado, deitou a cabeça nos braços e se deixou descansar a mente um pouco, até que o a luz do sol finalmente deixou a sua janela, anunciando a hora do jantar.
Levantou devagar e balançou a cabeça para espantar os pensamentos ruins. Encarou uma última vez o exercício de matemática resolvido pela metade, pensando em pedir ajuda de Shoto com essa matéria assim que possível. Apertou o cinto da calça antes de sair para vê-lo no refeitório. Sentou com os amigos, ao lado de Shoto e Asui e de frente para Uraraka e Iida. Pegou uma sopa que estava muito quente e ficou mexendo com a colher enquanto ouvia a conversa que se desenrolava ao redor. Estava incrivelmente sem apetite, mesmo depois de toda a atividade física do dia, mas ainda assim se forçou a colocar uma colherada na boca e agonizou por um segundo enquanto queimava a língua, antes de engolir.
— Deku-kun, tudo bem? — Uraraka parou o que dizia pela metade para se dirigir ao rapaz, que se desculpou ligeiro, anunciando que só havia queimado um pouco a boca. No entanto, a menina apoiou o hashi ao lado do prato e lhe mostrou um olhar preocupado. — Você tem estado cabisbaixo esses dias, eu estava conversando com Iida-kun sobre isso. Sabe, pode contar com a gente se precisar, não precisa guardar as coisas…
— E-eu… — Izuku abaixou a cabeça para a tigela, incapaz de decidir se queria ou não pegar outra porção de comida. — Eu não tenho conseguido me concentrar e estudar para as provas finais…
— Eu sei exatamente! — A menina fez um gesto grande no ar. — É tanta coisa na cabeça da gente nesse último período que parece que vou enlouquecer se tiver que resolver mais uma questão de química em vez de procurar emprego!
— Por que a gente não estuda junto, como nas provas intermediárias? — Iida sugeriu. — Se Todoroki-kun e Asui-san quiserem se juntar também, seria ótimo nos reunirmos novamente.
Izuku olhou para o namorado, que aceitou o convite sem nem pensar muito, seguido pela menina que também concordou a cabeça enquanto pedia para ser chamada pelo primeiro nome. Marcaram então de se encontrar no final de semana no quarto de algum deles, a ser definido depois. Fazer as coisas com os amigos era algo querido para o rapaz, por isso seu ânimo levantou um pouco.
Terminaram de comer e foram até os sofás do alojamento matar um pouco o tempo com alguma coisa de jogos de carta em duplas. Como eram cinco, estavam revezando de uma forma que alguém da dupla perdedora sairia na próxima rodada, o que fez com que Uraraka e Asui jogassem seis vezes seguidas, enquanto os meninos trocavam de lugar. Izuku tomou um gole d'água ao esperar por sua vez, prestando a atenção casualmente na conversa entre Shinso e Sero do outro lado do salão. Jiro também estava presente, sentada no chão, escorada no pilar, lendo um livro sobre música.
Era uma tarde calma e bastante normal das quais Izuku sentiria falta no próximo ano. Respirou fundo e continuou assistindo aos colegas, para rir um pouco do fato de que Shoto ainda não tinha entendido como jogar direito, levando a dupla de meninos a perder novamente. Nesse momento, Kirishima e Bakugou entraram no local e o primeiro pareceu bastante interessado em se juntar à jogatina, arrastando o outro também para a fila.
— Vocês duas estão roubando! — Kacchan bateu com as duas últimas cartas na mesa, derrotado. — Como ela sabia que você tinha um ás na segunda rodada?
— Sem provas, sem fatos. — Uraraka devolveu o gesto, com expressão de deboche. — Se não aceita perder, não joga.
— É o que, cara redonda?
— Ei ei, calma lá. — Kirishima colocou o braço na frente do amigo para restringir um movimento que não aconteceu, praticamente implorando com os olhos à Uraraka que não continuasse puxando briga. — Eu saio, e você continua, cara. Tranquilo. Era a vez do Todoroki jogar mesmo…
— Não vou fazer dupla com quem não sabe jogar. — Kacchan levantou de súbito e foi na direção de Izuku, que se encolheu no sofá quase que instintivamente, sentindo o coração bater e o couro cabeludo arrepiar no instante que o outro estava praticamente debruçado em cima dele. O par de olhos vermelhos o fuzilando. — Deixa esse povo ser enganado pela batata voadora ali e vem comigo um minuto.
— O-oi?
Izuku franziu o cenho pelo convite inesperado, mesmo que já tivesse uma boa noção do assunto. Ainda não havia tido tempo para falar com o colega sobre aquele nomu do fim de semana anterior, o qual deliberadamente fora solto em seu bairro para matá-lo. Kacchan pareceu se estressar ainda mais com a confusão estampada no seu rosto, por isso esticou o braço e agarrou-o pela gola da camisa, praticamente fazendo-o ficar de pé. Congelado no lugar pela circunstância tão súbita, Izuku só conseguiu ficar quieto por um momento enquanto o outro gritava na sua cara.
— Você é doente? Eu tô falando pra vir comigo, que eu quero te falar um negó…
Aconteceu muito rápido. De forma que Izuku nem entendeu direito e ficou parado no lugar, apenas vendo o colega desabando de lado no chão. Nem mesmo Bakugou, com seus reflexos exemplares, estava esperando que Shoto se levantasse do sofá e o acertasse com o punho fechado na bochecha daquela forma. O soco tinha sido tão forte que o barulho ecoou pelo salão, fazendo até mesmo quem não estava envolvido ficar em silêncio para olhar.
Nem um segundo depois, Kacchan já estava de pé, partindo para cima do rapaz que havia se colocado na frente do outro de um jeito protetivo. Izuku viu a mão de Shoto começar a soltar fumaça. Se nada fosse feito e esses dois começassem a brigar usando as individualidades, era possível até que derrubassem o prédio. Por sorte, as outras pessoas estavam perto o suficiente para segurá-los antes que qualquer novo golpe fosse dado.
— Meio-a-meio de merda, filho da puta! — Kacchan xingou ao esfregar o braço na ferida sangrando no canto da boca. — Qual seu problema? Agora que virou melhor amiguinho do nerd vai ficar achando…
— Ele não é meu amiguinho! — Shoto gritou de volta e Izuku precisou segurá-lo com mais força quando ele apontou o dedo na cara do colega. — Ele é meu namorado! E você não tem direito nenhum de encostar nele assim na minha frente!
Ninguém se mexeu por um momento de silêncio. Era como se a noção de realidade estivesse escapando da cabeça de Izuku, conforme ele deixava os braços caírem ao lado do corpo, incapaz de decidir se realmente havia escutado aquelas palavras saindo da boca do rapaz, no meio de todo mundo. Tudo o que viu em seguida foram os olhares incrédulos de todos se virando especificamente para ele.
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A história de nós dois
FanfictionNo último ano da Academia de Herois, Todoroki Shoto e Midoriya Izuku têm que lidar com a pressão de serem grandes heróis e competirem pelo primeiro lugar, enquanto desenvolvem sentimentos um pelo outro.
