A última ilha que havia sobrado já era conhecida pela equipe vermelha por não parecer conter nenhum dispositivo. Aparentemente, o outro grupo também estava tendo o mesmo problema, ainda que tivessem chegado ali um dia antes, o que no momento os deixava em pé de igualdade. Quem conseguisse desvendar primeiro aquele lugar tinha grandes chances de sair vitorioso. Assim, um clima de tensão era perceptível no rosto de cada aluno que dividia com Shoto o abrigo improvisado de folhas e galhos.
Três dias se passaram com constantes buscas fracassadas até que a notícia de um provável local chegou ao acampamento. Asui e Tsunotori haviam tido um confronto na praia e a segunda garota destruiu sem querer parte de um rochedo, revelando uma caverna parcialmente inundada. Shoto pensou por um instante. Era possível que o dispositivo estivesse realmente escondido debaixo da terra e houvesse uma forma técnica de encontrá-lo que não envolvesse destruir algumas pedras, mas naquele ponto, eles já não tinham mais ânimo para perseguir outra alternativa que não fosse mergulhar e procurá-lo na base da força bruta. Até porque, agora que as duas equipes tinham a informação, seria uma questão de quem chegasse primeiro, e nesse aspecto o grupo vermelho tinha vantagem, já que o acampamento dos outros colegas ficava quase do outro lado da ilha.
Deste modo, terminaram o almoço às pressas e correram até a entrada, onde encontraram apenas um aluno do outro time, que havia ficado de guarda. Não foi difícil segurá-lo. De fato, a estratégia que bolaram à caminho da gruta foi justamente segurar a outra equipe enquanto iam em pequenos grupos procurar o totem pelo subterrâneo. Parecia um bom plano, mas quando Shoto viu Izuku e Bakugou se aproximarem como reforços imediatos da outra equipe, percebeu que não seria tão fácil. Encarou o namorado por um segundo. Haviam acertado sobre não mais se enfrentarem diretamente naquela competição, mas agora isso parecia um tanto quanto inevitável.
Tecnicamente, porém, só precisavam atrasá-los por um tempo, portanto decidiu se focar no outro rapaz enquanto os colegas lutavam com Izuku. Os reflexos de Bakugou eram rápidos e suas explosões podiam ser bastante precisas, um adversário à sua altura. Fazia tempo que os dois não se enfrentavam daquela forma e essa poderia ser uma luta admirável se não tivessem tido que se afastar repentinamente devido à onda de energia que veio da sua direita. Izuku tinha acabado de jogar dois colegas naquela direção e, ao todo, mais de cinco já estavam no chão. Shoto se segurou para não suspirar, o coração subitamente acelerado quando olhos verdes cheios de determinação encontraram os seus. Depois de alcançados os 80% da super força na primeira vez o garoto se manteve constante.
Era impossível deixar de pensar que ninguém mais era páreo para Izuku.
Shoto engoliu em seco. Por mais que estivessem perdendo terreno, sua vantagem ainda era enorme. Tinha sido informado há pouco que o dispositivo havia sido encontrado e mais da metade do grupo agora já estava registrada e saindo para enfrentar os colegas que chegavam aos montes. Se ele mantivesse o foco em Bakugou por enquanto, seria possível segurar a equipe verde.
Não muito tempo se passou até que Iida o chamasse e Shoto calculou que só restava ele e provavelmente mais uns poucos, portanto poderiam ganhar mesmo se perdessem aquela luta. Abriu a mão e gastou toda a energia em um último ataque, cobrindo o colega com gelo, a despeito das explosões, e correu na direção da caverna tão rápido quanto podia, escorregando por entre as lutas aleatórias que o cercavam por toda pequena área descampada da floresta.
De repente, sentiu uma força sendo aplicada em sua cintura como se fosse ser jogado para o lado. Demorou um instante para que entendesse, porém, que seus pés não estavam no chão por mais tempo do que deveria ter sido a queda, e o mesmo braço que o empurrou agora o envolvia pela cintura, conforme subiam pelo céu. A voz de Izuku era apressada.
— Shoto-kun, me desculpa por isso.
O pulo que o garoto tinha acabado de dar os tinha levado tão alto que podiam ver algumas das outras ilhas. Antes de ter tempo de se desvencilhar, Shoto foi empurrado pelas costas em uma segunda onda de energia que o arremessou na direção do oceano e bem longe de onde estava há um minuto. Com apenas metade do corpo, não conseguia se propelir igual seu pai, mas conseguiu acertar a própria trajetória antes de cair na água. À sua frente, vários robôs atiradores miravam, protegendo o arquipélago.
Apertou os dentes, furioso. Por mais que corresse agora, não havia mais como voltar à tempo de sua equipe segurar a outra na entrada da caverna até que retornasse, e sem ele não teriam o mapa completo. Seu destino estava praticamente selado, e era uma derrota. Mesmo sabendo disso, galgou o caminho por entre os lasers o mais rápido que conseguiu e chegou na pequena praia de pedras em menos de uma hora.
Encontrou apenas os colegas de equipe próximos à gruta, provavelmente ainda o esperando, com expressões carrancudas. Respirou fundo e se aproximou de Kendo para ouvir o que tinha acontecido. Haviam tentado ao máximo aguentar até que ele chegasse, mas em algum momento perderam a entrada da gruta para os outros, daí em diante Shoto pode imaginar. No meio da fala da menina, uma trombeta soou distante, anunciando que a Equipe verde tinha seguido o mapa até o que quer que fosse o tesouro. A eles, porém, só restava voltarem à ilha principal.
Com gosto amargo na boca, encontrou os professores para que tirassem o relógio de seu pulso e escutar oficialmente o anúncio sobre os vencedores e o prêmio final: poder passar a última semana de férias na praia na pequena cidade litorânea pela qual haviam passado no caminho. Depois disso foram dispensados até a noite, quando barcos viriam lhes buscar, e a maioria da sua equipe foi direto pegar as coisas para tomar banho ainda em silêncio. Não era como se estivesse particularmente interessado na recompensa ou no lugar, mas a ideia de ter que voltar para casa naquele estado era um pouco frustrante, para dizer o mínimo.
Deixou a água cair sobre os ombros e relaxou um pouco. Antes de ir embora, queria conversar com Izuku mas sinceramente não sabia o que dizer. Deveria certamente parabenizá-lo, mas pensar nisso o chateava de alguma forma e não conseguia nem ao menos por os pensamentos no lugar sobre o motivo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A história de nós dois
FanfictionNo último ano da Academia de Herois, Todoroki Shoto e Midoriya Izuku têm que lidar com a pressão de serem grandes heróis e competirem pelo primeiro lugar, enquanto desenvolvem sentimentos um pelo outro.
