Bom Tempo

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Abril de 1968 – sábado à noite, Bar do Luiz

O lugar estava lotado como sempre: fumaça, copos tilintando, um violão dedilhando "Mas que nada" no fundo. Toquinho já estava na terceira cerveja quando Chico chegou, atrasado quase meia hora, o cabelo ainda úmido do banho rápido que tomou depois de deixar o apartamento de Caetano.

"Finalmente, doutor!" — Toquinho abriu os braços. — "Pensei que tinha sido sequestrado pela censura."

Chico riu, sentou-se de frente pra ele, pediu uma Brahma gelada.

"Quase. Tive que inventar uma entrevista que não existia pra conseguir sair de casa sem levantar suspeita."

Toquinho ergueu a sobrancelha.

"Suspeita de quê, exatamente?"

Chico tomou um gole longo, limpou a espuma do lábio com o poleiro do dedo, respirou fundo. Fazia semanas que ensaiava essa conversa. Sabia que Toquinho era o amigo mais próximo que tinha em São Paulo, o único que já tinha visto os dois juntos o suficiente pra desconfiar de tudo.

"Toquinho... eu preciso te contar uma coisa. E preciso que você me prometa que isso não sai daqui. Nem pra sua mãe, nem pro Vinicius, nem pro porteiro. Ninguém."

Toquinho parou com o copo a meio caminho da boca. O sorriso brincalhão morreu.

"Tá falando sério?"

"Seriíssimo."

"Então fala."

Chico olhou em volta rápido, abaixou a voz.

"Eu e o Caetano... a gente tá junto. De verdade. Desde janeiro."

Silêncio. Toquinho piscou uma, duas vezes. Depois soltou o ar devagar, como se tivesse levado um soco no estômago e estivesse decidindo se doía ou não.

"Caralho, Chico."

"Pois é."

"Tipo... juntos juntos?"

"Tipo eu passo mais tempo no apartamento dele do que no meu. Tipo eu estou prestes a terminar com a Marieta por causa dele. Tipo eu acordo pensando nele e durmo pensando nele. Juntos assim."

Toquinho apoiou os cotovelos na mesa, esfregou o rosto com as mãos, riu sem som.

"Eu sabia que tinha alguma coisa. Eu via vocês dois e pensava: "ou esses dois são os melhores amigos do mundo, ou tão se comendo escondido". Aparentemente, era a segunda opção."

Chico deu um meio-sorriso, aliviado.

"Você não tá... sei lá, assustado? Decepcionado?"

Toquinho olhou pra ele como se Chico tivesse perguntado se a terra era redonda.

"Chico, eu cresci ouvindo Vinicius falar que amor não tem sexo, tem é intensidade. Eu vi você chegar em festa com mulher no braço e sair de lá olhando pro Caetano como se ele tivesse inventado a roda. Na real? Eu estava fingindo surpresa. Eu só tava esperando você me contar." — Ele esticou a mão por cima da mesa e apertou o ombro do amigo. — "Tô feliz por você, cara. Feliz pra caralho."

Chico sentiu os olhos arderem. Engoliu em seco.

"Eu tava com medo. Medo de você achar estranho, medo de você se afastar..."

"Eu afastar?" — Toquinho riu alto, dessa vez de verdade. — "Meu irmão, eu vou é virar cúmplice oficial de vocês. Precisa de álibi? Eu invento show em cidade nenhuma. Precisa de casa pra se encontrar? A minha tá sempre aberta. Só me avisa se eu tiver que sair pra comprar cigarro por três horas, pra não chegar no meio do... movimento."

Amor Mais Que DiscretoOnde histórias criam vida. Descubra agora