Os dias que se seguiram àquela noite no clube foram como um sopro de vida para Caetano e Chico. Havia uma ternura nova entre eles, algo que não existia antes. Talvez fosse o exílio, que os forçava a valorizar cada momento, ou talvez fosse o peso de tudo o que haviam perdido e reconquistado.
Chico notava como Caetano parecia mais leve, como seus olhos brilhavam novamente quando falava de música ou do Brasil. O tempo estava passando rápido, já fazia mais de uma semana que Chico estava em Londres.
Havia um parque não tão longe do hotel. Caetano se sentou na grama mesmo, fazia um cafuné em Chico, deitado com a cabeça apoiada seu colo.
"Isso é bom." - Chico disse, quase fechando os olhos, mas não por sono.
"O quê? O cafuné ou estar aqui?" - Caetano sorriu.
"Os dois."
"Tô tão feliz desde que você veio." - Caetano se inclinou para deixar um beijo nos cabelos de Chico. - "Sabe... estar aqui com você é completamente diferente."
Chico hesitou por um momento, mas então segurou a mão de Caetano, entrelaçando os dedos.
"Tô com medo." - admitiu, a voz baixa. - "Medo de que isso aqui seja só um sonho. De que a gente acorde e... e tudo volte a ser como antes. Você preso, eu escondido, o Brasil desmoronando."
Caetano apertou a mão de Chico, puxando-o para mais perto.
"Não é um sonho, Chico. A gente tá aqui. E o Brasil... ele ainda tá lá, esperando a gente. Mas agora, a gente tem isso." - Ele apontou para o espaço entre eles, para as mãos entrelaçadas. - "E ninguém vai tirar isso da gente. Não de novo."
Chico sorriu, mas havia uma sombra de dúvida em seus olhos.
"Você já prometeu coisas antes, Caetano." - Chico disse ele, não com amargura, mas com uma vulnerabilidade crua. - "E eu também. A gente sabe como o mundo pode virar tudo de cabeça pra baixo."
Caetano franziu a testa.
"O que você quer dizer, Chico?"
"Talvez a gente devesse ficar aqui." - Chico finalmente teve coragem para dizer o que já pensava a muito tempo. - "Sem mais mentiras, sem medo... Londres é grande, anônima. Ninguém liga se somos dois homens juntos, ninguém pergunta onde nascemos. A gente pode tocar em cafés, gravar discos, viver quieto. Sem polícia, sem olhares."
Caetano parou de acariciar os cabelos dele, a mão suspensa no ar, os olhos fixos em Chico. Ele sentiu um aperto no peito, uma mistura de surpresa e resistência.
"E a música, Chico?" - perguntou, a voz calma, mas carregada de emoção. - "A minha música é Brasil. Eu não consigo cantar sem sentir o cheiro do mar, o barulho da rua. Aqui é tudo tão... distante. Eu me sinto um fantasma."
Chico virou-se para encará-lo, os olhos azuis brilhando com uma determinação que Caetano conhecia bem, mas que agora parecia quase desafiadora.
"Você canta aqui." - insistiu Chico. - "Você já canta. O público não exige nacionalidade, só emoção. E a gente estaria seguro."
"Seguro?" - Caetano deu uma risada curta, sem humor. - "Seguro é não ser quem eu sou? Eu nasci pra cantar pro meu povo, Chico, não pra plateias que me olham como uma curiosidade exótica. Eu preciso do Brasil, mesmo que doa."
Chico levantou, se sentando e olhando indignado para Caetano, cruzou os braços, a postura tensa.
"Você precisa da gente!" - retrucou, a voz se elevando sem querer, carregada de frustração. - "Você precisa viver, não só cantar. Lá fora, a gente corre risco todo dia. Aqui, a gente pode ser livre. Pode amar sem medo, pode andar na rua sem olhar pra trás."
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amor Mais Que Discreto
Fanfiction"Mas pode dispensar a fantasia O sonho em branco e preto Amor mais que discreto Que é já uma alegria" Caetano conhece Chico no Festival de MPB de 1967, logo essa amizade se desenvolve em algo mais. Entretanto, que futuro poderia ter o relacionamento...
