Na manhã seguinte, o sol entrava pelas frestas da cortina da sala, aquecendo o rosto de Chico. Ele acordou lentamente, sentindo o peso reconfortante do corpo de Caetano ainda aninhado contra o seu no sofá. O espaço era pequeno demais para os dois, e suas pernas estavam entrelaçadas de um jeito que parecia desafiar a física, mas Chico não se importava. A presença de Caetano ali, tão perto, era tudo o que ele precisava para sentir que o mundo estava de volta ao lugar.
Ele se mexeu com cuidado, tentando não acordar Caetano, mas o movimento fez o outro resmungar algo incompreensível, franzindo o cenho sem abrir os olhos. Chico sorriu, passando a mão delicadamente pelos cabelos bagunçados de Caetano. A noite no sofá tinha sido desconfortável, mas o calor daquele momento apagava qualquer reclamação. Ele ainda sentia o eco do remorso, mas agora havia uma promessa silenciosa dentro dele: nunca mais deixar o medo falar mais alto que o amor.
Caetano finalmente abriu os olhos, piscando contra a luz do sol. Ele olhou para Chico, e por um instante, pareceu avaliar se ainda estava bravo. Mas então um sorriso suave curvou seus lábios, e ele se espreguiçou, o corpo ainda colado ao de Chico.
"Bom dia, seu aproveitador." - Caetano murmurou, a voz rouca de sono. - "Acha que dormir agarradinho comigo te livra do café da manhã?"
Chico riu baixo, o som vibrando no peito.
"Eu sabia que você não ia esquecer essa parte."
"Claro que não." - Caetano se sentou, esfregando os olhos. - "Mas, sério, esse sofá é horrível. Minha coluna tá implorando por piedade."
"Você que quis vir pra cá." - Chico retrucou, também se levantando, mas mantendo uma mão no ombro de Caetano, como se precisasse do contato para se ancorar. - "Eu tava pronto pra cumprir minha sentença."
Caetano revirou os olhos, mas o sorriso não saía de seu rosto. Ele se inclinou e deu um beijo leve na bochecha de Chico, um gesto tão natural que fez o coração de Chico dar um salto.
"Tá, você se safou dessa vez. Mas só porque eu sou um anjo."
"Um anjo vingativo." - Chico brincou, puxando Caetano para um abraço rápido antes de se levantar. - "Vem, eu faço o café. É o mínimo depois de ontem."
Na cozinha, enquanto Chico preparava o café com o cuidado de quem quer agradar, Caetano se sentou na bancada, balançando as pernas como se fosse um menino. Ele observava Chico em silêncio, o que era raro para alguém tão falante. Chico sentia o peso daquele olhar, mas era um peso bom, cheio de afeto.
"Caê..." - Chico começou, sem tirar os olhos da cafeteira. - "sobre ontem... eu sei que já pedi desculpas, mas eu preciso que você saiba que eu tava fora de mim. Foi o medo, sabe? Não de nós, mas do que o mundo pode fazer com a gente."
Caetano desceu da bancada e se aproximou, ficando ao lado de Chico. Ele colocou a mão sobre a dele, interrompendo o movimento de pegar as xícaras.
"Chico, eu sei. Eu também fico com medo às vezes. Mas a gente não pode deixar isso nos engolir. Se a gente começar a se esconder, a se calar, eles vencem."
Chico virou o rosto para encará-lo, os olhos brilhando com uma mistura de alívio e culpa.
"Você tá certo. Eu só... eu não quero mais ficar brigando com você, nunca mais. Não suporto te magoar assim, Caê, você é tudo pra mim."
Caetano apertou a mão dele, o olhar suavizando.
"Você já disse isso ontem, mas eu gosto de ouvir." - Ele deu um sorriso travesso, tentando aliviar o clima. - "Agora, para de drama e termina esse café antes que eu desmaie de fome."
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Amor Mais Que Discreto
Fanfiction"Mas pode dispensar a fantasia O sonho em branco e preto Amor mais que discreto Que é já uma alegria" Caetano conhece Chico no Festival de MPB de 1967, logo essa amizade se desenvolve em algo mais. Entretanto, que futuro poderia ter o relacionamento...
