Chico despertou com a luz suave do sol infiltrando-se pelas frestas da cortina, o calor da manhã carioca já se insinuando no ar. Seus braços, que ainda guardavam o eco do abraço da noite, estavam vazios. Sonolento, ele esticou a mão pelo lençol amassado, procurando o calor de Caetano, mas encontrou apenas o vazio fresco da cama. Franzindo a testa, ele se sentou, os olhos varrendo o quarto. Nenhum sinal dele. O silêncio era quebrado apenas por um leve tilintar vindo da cozinha.
Ainda sem camisa, Chico enfiou as calças e seguiu o som pelo corredor, o chão de madeira rangendo sob seus pés descalços.
Até encontrar Caetano fazendo café. Chico se aproxima dele, abraçando-o por trás e espalhando beijos por sua nuca.
"Bom dia!" - Caetano sorriu com a sensação e se virou para dar um beijo nos lábios de Chico. - "Dormiu bem?"
"Melhor impossível." - Chico sorriu levemente, envolvendo a cintura de Caetano. - "Mas ficamos acordados até tarde ontem, eu não pensei que veria você de pé tão cedo."
Chico se inclinou para outro beijo, antes de ir em direção a mesa, puxando uma cadeira para sentar-se.
"Eu combinei de encontrar com Bethânia e Gil daqui a pouco. Você parecia estar dormindo tão bem, eu não quis acordá-lo" - Caetano disse, sentando ao lado dele.
"Não é nem oito horas..." - Chico bocejava, o rosto apoiado sobre uma das mãos. - "Eu não sei como você pode estar tão animado."
Caetano começou a falar sobre Gil e suas ideias para o tropicalismo, os olhos brilhavam com entusiasmo enquanto gesticulava. Mas depois de alguns minutos, ele percebeu que Chico não estava prestando atenção. Caetano cortou a frase abruptamente, franzindo a testa para olhar para Chico com os braços cruzados. Ele nem o ouviu parar e continuou balançando a cabeça como se ainda estivesse escutando.
Caetano bufou e deu um tapa na nuca dele.
"Ei!" - Chico exclamou, olhando para ele, uma expressão confusa e indignada em seu rosto.
Caetano o ignorou, levantando-se para pegar a garrafa de café no balcão. Tinha uma expressão carrancuda no rosto, enquanto enchia uma xícara. Mas Chico veio por trás dele e pressionou uma mão hesitante na parte inferior de suas costas.
"Me desculpa, meu bem." - Ele sussurrou, roçando os lábios contra o lóbulo da orelha dele.
Um arrepio percorreu a espinha de Caetano. Aquela voz grave de Chico no seu ouvido, lhe chamando de "meu bem". O corpo quente contra suas costas, enquanto os pêlos do peito dele faziam cócegas em sua pele. Caetano se esqueceu imediatamente de qualquer irritação com ele. Chico começou a traçar uma linha de beijos entre o pescoço e o ombro dele.
"Por que eu deveria?" - Caetano olhou por cima do ombro com um sorriso provocador, pressionando seu corpo contra a pelve de Chico, esfregava-se lentamente, provocando. Um gemido escapou dos lábios de Chico.
"Então vocês se entenderam" - A voz de Bethânia interrompeu os dois. Chico pulou, se afastando rapidamente de Caetano e corando quase que imediatamente. Para piorar ela estava acompanhada por Gil, que fazia o possível para segurar um riso de seus lábios.
"Bem observado, Bethânia" - Caetano disse sarcasticamente, um pouco aborrecido com a entrada silenciosa da irmã.
"Já não era hora, eu não aguentava mais você se lamentando pelos cantos, enquanto a tensão entre vocês dois parecia tão óbvia. Se nenhum de vocês tomasse uma atitude, eu..." - Parando ao ver o olhar furioso de Caetano, e Chico encostado contra o balcão, visivelmente constrangido.
"Eu e Bethânia vamos esperar na sala."- Gil se virou, puxando a amiga pelos ombros.
Caetano se virou para olhar para Chico, ele achava que nunca tinha visto o homem tão vermelho. Se aproximando dele, Caetano parou para dar um beijo em sua bochecha.
"Te incomoda?" - Caetano perguntou, olhando profundamente nos olhos dele.
"O quê?" - Chico franziu a testa.
"Bethânia e Gil saberem de nós."
"Claro que não."- Chico sorriu, envolvendo a cintura de Caetano e puxando para um beijo.
"Só não foi no melhor dos momentos." - Chico disse, rindo sem jeito. - "Sabe que se eu pudesse gritaria pra todo mundo que você é meu."
"Eles não vão esquecer aquilo, você sabe, não é?" - Caetano provocou, um sorriso nos lábios, enquanto observava Chico corar ainda mais e puxa ele para outro beijo.
"Eu tenho que ir agora, Caê." - Chico segurou o queixo de Caetano com um polegar. - "Mas eu queria muito te ver mais tarde."
Caetano sorriu largo.
"Qualquer um diria que você tá ficando viciado em mim."
"Talvez eu esteja, tem algum problema?" - Chico riu e deu um selinho nele.
"Nenhum mesmo."
*
Antes de sair, Chico dá um selinho em Caetano, se despedindo. Caetano fecha a porta atrás dele, ainda com um sorriso bobo no rosto e virando-se para encarar Bethânia e Gil sentados no sofá. Eles soltaram uma risada que pareciam segurar desde que encontraram os dois na cozinha.
"Sabe, a maioria das pessoas bate antes de entrar." - Caetano disse, um pouco envergonhado, olhando os dois se acabando de rir.
"A maioria das pessoas não ficam se esfregando na cozinha." - Gil provocou, Bethânia agora se apoiava nele, rindo.
"Ainda bem que não chegamos cinco minutos depois." - Bethânia mal conseguia respirar de tanto rir.
Caetano sentou-se com um suspiro, suas bochechas começavam a arder de vergonha agora. Ele percebeu que os dois na sua frente não conseguiriam se recompor tão cedo.
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Amor Mais Que Discreto
Fanfic"Mas pode dispensar a fantasia O sonho em branco e preto Amor mais que discreto Que é já uma alegria" Caetano conhece Chico no Festival de MPB de 1967, logo essa amizade se desenvolve em algo mais. Entretanto, que futuro poderia ter o relacionamento...
