7 de Outubro de 1967
O sábado chegou com uma garoa fina que molhava as calçadas da Rua Augusta. Caetano ajustava o colarinho da camisa, olhando-se no espelho do apartamento com uma ansiedade que não confessaria nem a Bethânia. Ele não parava de pensar em Chico desde o festival — o jeito tímido, o sorriso hesitante, aqueles olhos azuis. A ideia de encontrá-lo novamente fazia seu coração bater num ritmo que lembrava uma bossa nova acelerada.
Bethânia, esparramada no sofá com um copo de guaraná, observava o irmão com um sorriso malicioso.
- Você tá se arrumando como se fosse encontrar o Vinicius de Moraes em pessoa. Quem é esse tal de Chico que te deixou assim, menino?
Caetano riu, passando a mão pelos cabelos cacheados.
- Ninguém, Bethânia. Só um cara que canta bem e... sei lá, é interessante.
- Interessante, é? - Ela ergueu uma sobrancelha, claramente não convencida. - Se você voltar com esse sorriso bobo de novo, vou querer saber cada detalhe.
Antes que Caetano pudesse responder, a campainha tocou. Ele abriu a porta e lá estava Chico, com uma jaqueta de couro surrada e um cigarro apagado entre os dedos. O cabelo penteado para o lado estava levemente
bagunçado pela umidade, e ele parecia ainda mais bonito sob a luz fraca do corredor.
- Então, tá pronto? - Chico perguntou, a voz um pouco rouca, como se tentasse esconder o nervosismo.
- Pronto. - Caetano respondeu, pegando um casaco e fechando a porta sob o olhar curioso de Bethânia.
*
O bar na Augusta era pequeno, com paredes descascadas e um cheiro de cigarro misturado a cachaça. Mesas de madeira lotadas de músicos criavam um zumbido animado, pontuado por risadas e o som de um violão vindo de algum canto. Toquinho já estava lá, sentado em um canto com um copo de cerveja. Ele acenou quando viu os dois, um sorriso largo no rosto.
- Olha só, o rei do festival e o poeta da Bahia na mesma mesa! - Toquinho brincou, puxando uma cadeira para Caetano. - Sentem aí, que a noite tá só começando.
Chico se acomodou ao lado de Caetano, os ombros quase se tocando na mesa apertada. Ele pediu uma cerveja, enquanto Caetano optou por um uísque com gelo, sentindo a necessidade de algo que acalmasse os nervos. A conversa começou leve, com Toquinho contando histórias de suas noites com Vinicius, que sempre terminavam em sambas improvisados ou discussões acaloradas sobre poesia.
- Vocês viram o que tão falando do festival? - Toquinho disse, acendendo um cigarro. - Disseram que a Tropicália de vocês tá deixando os puristas da Bossa Nova de cabelo em pé. O que acha disso, Caetano?
Caetano riu, girando o copo na mão.
- Que se danem os puristas. A música é pra misturar, não pra engessar. João Gilberto já abriu o caminho, agora é hora de jogar tudo no liquidificador. Beatles, baião, samba, o que vier.
Chico, que até então ouvia em silêncio, deu um meio-sorriso.
- Você fala com uma coragem que eu não tenho. Minha cabeça é mais... sei lá, presa no samba de morro, nas coisas simples. Mas gosto do jeito que você pensa. É como se quisesse botar o mundo inteiro numa canção.
Caetano olhou para ele, surpreso com a sinceridade.
- E tu acha que Roda Viva não é o mundo inteiro? Aquela letra, bicho... é como se você tivesse colocado o Brasil num espelho, com toda a dor e a beleza.
Chico corou, desviando o olhar para a cerveja.
- Agora você tá exagerando.
Toquinho riu alto, batendo na mesa.
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Amor Mais Que Discreto
Fanfiction"Mas pode dispensar a fantasia O sonho em branco e preto Amor mais que discreto Que é já uma alegria" Caetano conhece Chico no Festival de MPB de 1967, logo essa amizade se desenvolve em algo mais. Entretanto, que futuro poderia ter o relacionamento...
