parte 48.

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Adentrei o apartamento e encontrei Isadora no sofá, sentada e de cabeça baixa. Um silêncio ensurdecedor.

— Quem é? — ela perguntou.

— Sou eu. — respondi, certa de que ela reconheceu minha voz. — Você devia saber disso.

— Desculpa se tô ocupada chorando. — minha irmã seca uma lágrima, mas outras caem pouco tempo depois.

Caramba, acho que nunca tive essa sensação. Como se eu tivesse trocado de lugar com ela e sentido o que ela sente. Dependência, abandono...

Irritação insuportável.

— Então... — procurei algo descontraído pra dizer, mas não saiu nada até então. — Cadê a mãe e o pai?

— Não sei. Dormi a tarde toda. — ela abraçou seus joelhos, entristecida.

Segundos se passaram e o incômodo não passou. Resolvi ir na cozinha beber uma água, e no meio do processo, escutei o choro abafado da garota.

— O Marcelo falou com você? — questionei-a, já sentada ao seu lado.

— Ele terminou comigo.

— Foi o melhor, Isadora. Explicou o motivo?

— Eu não quero falar disso! — ela resmunga. — Você vai jogar na minha cara tudo de ruim que eu fiz. Sempre sou eu. Sempre.

— Exatamente. Tudo tem que ser do seu jeito, né? — dei ênfase em "seu". — Isso nunca muda.

— Rosalinda, dá pra mudar o disco? Até parece que você é uma santa. Não fui eu que te empurrei escada à baixo. — Isadora diz com o olhar vazio fixo na tv. — Você nem pediu desculpa. Passei esses anos me perguntando se você sequer se arrepende do que fez...

— Pior que sim. — engoli seco. — Mas você não tinha que se meter. No fundo, a culpa é toda sua. — meus olhos ardem e minha voz começa à tremer.

— Eu devia deixar você se matar, então? — ela gargalhou em sarcasmo. — Por mais que isso fosse me fazer a filha favorita, eu não podia.

— Desculpa. — disse de uma vez, deixando minha irmã nitidamente em choque.

Ela abre e fecha a boca algumas vezes. O que pretende dizer?

— ...Desculpa pelo Marcelo. Eu o convenci à te observar, mas quem diria que ele fosse ficar atraído por você.

— Ele te disse isso? — levantei uma sobrancelha de leve.

— Vagamente. Mas eu já desconfiava. Ainda mais depois da traição.

— Traição?

— Uma noite na casa dele, enquanto eu tentava dormir, acabei escutando ele falando com uma mulher. Provavelmente pelo telefone. — ela pressionou os lábios. — Ele disse umas obscenidades, além de outras coisas mais...românticas.

É, Marcelo realmente só queria brincar com ela. Conosco.

— E aí?

— Eu não contei isso quando ele terminou tudo. Porque eu gostava dele de verdade.

— Isadora, você não pode tá falando sér-

— Me deixa, Rosa. — ela me interrompeu. — Melhor esquecermos isso. Eu vou ficar cega pra sempre e nunca que um homem bonito vai gostar de mim. — levantou com sua bengala e caminhou até o quarto.

Respirei fundo e passei a mão pelo cabelo, frustrada. Que merda. Próximo passo: tomar uma atitude. Coisa que eu não devia fazer, depois de tudo o que essa arrombada me fez. Mas que se foda!

Pego meu celular e ligo pra minha mãe.

— Oi, Rosa. — ela atende.

— Onde tá?

— Vim acompanhar seu pai num evento do trabalho dele. Tá tudo bem?

— Não muito. A Isadora tá acabada porque o Marcelo terminou o namoro.

— Bom, pelo menos um deles tomou a decisão certa. Vocês conversaram?

— Um pouco. Mas ela ainda me odeia profundamente. E vice-versa. — revirei os olhos.

— Ai, meu Deus. Me dê forças... — Ivana murmurou.

— Mãe, e se você falar com as amigas dela?

— Aquelas que sumiram?

— Também, mas lembra que a Isadora era muito popular na escola? Se fizer contato com a maioria, alguém com certeza vai aparecer.

— Hm. E por que a senhorita não faz isso? — ela alongou a frase, me provocando.

— Eu já disse. Pode fazer isso ou não?

— Tá bom. Vou ligar. — finalmente aceitou. — Vida social é o que mais importa pra sua irmã. Ela vai gostar.

— ...Aposto que sim.

coração inválido [mount]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora