Adentrei o apartamento e encontrei Isadora no sofá, sentada e de cabeça baixa. Um silêncio ensurdecedor.
— Quem é? — ela perguntou.
— Sou eu. — respondi, certa de que ela reconheceu minha voz. — Você devia saber disso.
— Desculpa se tô ocupada chorando. — minha irmã seca uma lágrima, mas outras caem pouco tempo depois.
Caramba, acho que nunca tive essa sensação. Como se eu tivesse trocado de lugar com ela e sentido o que ela sente. Dependência, abandono...
Irritação insuportável.
— Então... — procurei algo descontraído pra dizer, mas não saiu nada até então. — Cadê a mãe e o pai?
— Não sei. Dormi a tarde toda. — ela abraçou seus joelhos, entristecida.
Segundos se passaram e o incômodo não passou. Resolvi ir na cozinha beber uma água, e no meio do processo, escutei o choro abafado da garota.
— O Marcelo falou com você? — questionei-a, já sentada ao seu lado.
— Ele terminou comigo.
— Foi o melhor, Isadora. Explicou o motivo?
— Eu não quero falar disso! — ela resmunga. — Você vai jogar na minha cara tudo de ruim que eu fiz. Sempre sou eu. Sempre.
— Exatamente. Tudo tem que ser do seu jeito, né? — dei ênfase em "seu". — Isso nunca muda.
— Rosalinda, dá pra mudar o disco? Até parece que você é uma santa. Não fui eu que te empurrei escada à baixo. — Isadora diz com o olhar vazio fixo na tv. — Você nem pediu desculpa. Passei esses anos me perguntando se você sequer se arrepende do que fez...
— Pior que sim. — engoli seco. — Mas você não tinha que se meter. No fundo, a culpa é toda sua. — meus olhos ardem e minha voz começa à tremer.
— Eu devia deixar você se matar, então? — ela gargalhou em sarcasmo. — Por mais que isso fosse me fazer a filha favorita, eu não podia.
— Desculpa. — disse de uma vez, deixando minha irmã nitidamente em choque.
Ela abre e fecha a boca algumas vezes. O que pretende dizer?
— ...Desculpa pelo Marcelo. Eu o convenci à te observar, mas quem diria que ele fosse ficar atraído por você.
— Ele te disse isso? — levantei uma sobrancelha de leve.
— Vagamente. Mas eu já desconfiava. Ainda mais depois da traição.
— Traição?
— Uma noite na casa dele, enquanto eu tentava dormir, acabei escutando ele falando com uma mulher. Provavelmente pelo telefone. — ela pressionou os lábios. — Ele disse umas obscenidades, além de outras coisas mais...românticas.
É, Marcelo realmente só queria brincar com ela. Conosco.
— E aí?
— Eu não contei isso quando ele terminou tudo. Porque eu gostava dele de verdade.
— Isadora, você não pode tá falando sér-
— Me deixa, Rosa. — ela me interrompeu. — Melhor esquecermos isso. Eu vou ficar cega pra sempre e nunca que um homem bonito vai gostar de mim. — levantou com sua bengala e caminhou até o quarto.
Respirei fundo e passei a mão pelo cabelo, frustrada. Que merda. Próximo passo: tomar uma atitude. Coisa que eu não devia fazer, depois de tudo o que essa arrombada me fez. Mas que se foda!
Pego meu celular e ligo pra minha mãe.
— Oi, Rosa. — ela atende.
— Onde tá?
— Vim acompanhar seu pai num evento do trabalho dele. Tá tudo bem?
— Não muito. A Isadora tá acabada porque o Marcelo terminou o namoro.
— Bom, pelo menos um deles tomou a decisão certa. Vocês conversaram?
— Um pouco. Mas ela ainda me odeia profundamente. E vice-versa. — revirei os olhos.
— Ai, meu Deus. Me dê forças... — Ivana murmurou.
— Mãe, e se você falar com as amigas dela?
— Aquelas que sumiram?
— Também, mas lembra que a Isadora era muito popular na escola? Se fizer contato com a maioria, alguém com certeza vai aparecer.
— Hm. E por que a senhorita não faz isso? — ela alongou a frase, me provocando.
— Eu já disse. Pode fazer isso ou não?
— Tá bom. Vou ligar. — finalmente aceitou. — Vida social é o que mais importa pra sua irmã. Ela vai gostar.
— ...Aposto que sim.
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coração inválido [mount]
Fanfictiononde rosalinda gosta de escrever e gabriel gosta de viver.
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