Capítulo 48
Shoto já havia ficado tempo o suficiente no quarto para que seus olhos se acostumassem com a escuridão. Mas esse não era o caso de Monoma que entrou e atravessou o cômodo em direção à janela, sem dar qualquer atenção à pessoa sentada em sua cama.
Com toda a calma do mundo, Shoto se aproximou dele por trás. Agora que as cortinas estavam abertas, a luz pálida da lua destruiu o manto de invisibilidade que a escuridão tinha lhe concedido. Isso não o atrapalhou de forma alguma, pois Shoto já tinha se aproximado demais quando Monoma se virou para vê-lo, e não pôde fazer nada além de arregalar um pouco os olhos antes que o punho de Shoto acertasse seu estômago com força suficiente para deixá-lo sem ar.
Ele se derramou no chão como uma marionete sem cordas.
A expressão de Shoto continuou tão fria quanto sempre quando ele abriu seu pequeno e afiado canivete e o encostou na garganta do seu agonizante colega, que tentava, desesperadamente, colocar ar nos pulmões. Ao sentir o frio do metal na pele, os olhos de Monoma ficaram redondos como dois pratos e as pupilas se dilataram na mesma medida em busca de focar no seu agressor.
— Um pio e a gente descobre se esse canivete consegue atravessar seu pescoço. — Shoto avisou. Seus olhos nos olhos aterrorizados de Monoma. — Entendeu?
Monoma assentiu apressadamente, com dificuldade para inspirar.
Shoto retirou a lâmina de sua pele por tempo o suficiente para que pudesse levantá-lo pelo colarinho e jogá-lo de costas na parede. Monoma deixou escapar um barulho dolorido, mas se calou quando o canivete foi pressionado mais uma vez contra o seu pescoço
— Ligue o computador. — Shoto ordenou, inabalável. Monoma se desencostou da parede para se sentar à escrivaninha, seguindo seu comando. — Agora, você vai apagar todos os arquivos que tem sobre mim e sobre Izuku.
— Co-como você… — Shoto deslizou a lâmina levemente sobre a pele pálida e fez com que uma fina linha de sangue surgisse; Monoma se calou. Quando viu que ele havia entendido o recado e começado a procurar as pastas, Shoto falou mais uma vez:
— Nada — fez uma pequena pausa para dar ênfase — que você tenha feito ou venha fazer pode escapar do meu conhecimento, Monoma. O único motivo para você ter vivido em paz por todo esse tempo, foi ter tido a sorte de ser uma existência patética demais para chamar minha atenção. Mas perdeu a dádiva desse privilégio quando resolveu atravessar meu caminho e mexer com meu namorado.
Através do canivete, Shoto sentiu quando ele engoliu em seco. As pastas estavam sendo deletadas uma a uma. Shoto sabia que aquilo não era o suficiente para que os arquivos fossem destruídos para sempre, mas queria obrigá-lo a fazer aquilo.
— Falando no meu namorado, você deveria ser muito grato a ele. Se Izuku não tivesse me dito para não fazer nada extremo contigo, eu certamente teria feito você desaparecer e acabado com essa dor de cabeça de forma definitiva e irrevogável. Não pense que terá a mesma sorte uma segunda vez.
Shoto viu o garoto estremecer e esperou pacientemente que ele terminasse de apagar as pastas sem enviá-las para a lixeira antes de falar de novo.
— Eu quero o disco rígido — anunciou enquanto pegava a chave de fenda do bolso e colocava em frente a Monoma. O garoto fez a remoção de forma bastante rápida. Devia estar louco para se livrar de Shoto logo.
Assim que guardou o HD, Shoto fez com que Monoma se levantasse e olhasse para ele mais uma vez.
— Nos próximos dias, seu pai vai ser transferido do japão, você pode viver aqui enquanto não se mudam, mas não deve mostrar seu rosto nojento em qualquer lugar que eu possa ver novamente. Se você ousar vir ao Japão de novo, ou fazer qualquer coisa contra mim ou o Izuku, se sequer chegar perto dele, eu vou destruir cada pedacinho da sua existência e transformar sua vida numa cópia perfeita do inferno antes de te mandar para o verdadeiro. E eu não preciso nem dizer que ninguém deve saber dessa nossa conversa, não é?
Monoma assentiu frenético. Ele já estava chorando de desespero. Shoto pressionou o canivete com mais força no pescoço dele, forçando-o a andar para trás e, quando ele esbarrou na parede, o bicolor tapou sua boca com uma mão enquanto fazia um corte limpo bem abaixo do maxilar. Não era profundo o bastante para causar risco a vida dele, mas era doloroso o suficiente para a satisfação de Shoto.
— Uma pequena lembrança, para que não se esqueça tão rápido do nosso acordo. Pode ficar com isso também. — Shoto jogou o canivete na cama, enquanto Monoma segurava desesperadamente o pescoço ensanguentado, e saiu bastante satisfeito de lá.
[...]
Shoto sentiu um calafrio ao entrar pela primeira vez na casa dos avós ao lado da irmã.
Fuyumi tinha chegado essa manhã e partiria de novo no dia seguinte. Ela tinha vindo exclusivamente para aquela visita, e não pôs nenhuma objeção depois que soube que a avó estava doente; disse a Shoto que não havia informado ao pai que estava no japão, e, já que o avô tinha cuidado de todos os preparativos, ela também não viu nenhuma necessidade de alarmar Enji. Os dois irmãos combinavam perfeitamente na aversão ao pai.
— Então, nós vamos jantar na casa do seu namorado?
Ela perguntou numa voz baixa enquanto o mordomo os guiava pelos corredores. Conforme o prometido, seu avô não podia ser visto em lugar algum.
— Sim. Eu acho que você vai gostar. Minha sogra cozinha muito bem e o Izuku também prepara ótimas sobremesas. — Ele sorriu pela primeira vez desde que tinham entrado naquela casa.
Sentia-se mais tranquilo desde que havia resolvido as coisas com Monoma na noite anterior, mas não pôde deixar de ficar ansioso com a perspectiva de conhecer a avó; com exceção de Fuyumi, a palavra “família” sempre havia sido sinônimo de “problema” para Shoto.
— Olha só pra você, falando todo orgulhoso do namorado… — Ela respondeu com um sorriso que transmitia muito mais do que Shoto conseguia entender. — Estou empolgada para conhecê-los, maninho.
Ele também estava estranhamente empolgado para apresentar a irmã ao seu anjinho. Era grato por ter pelo menos uma pessoa de sua família que quisesse que Izuku conhecesse. Mas não disse isso a ela, primeiro porque não sabia bem como explicar o sentimento, e segundo porque finalmente chegaram no quarto da avó.
O mordomo os deixou entrar e fechou a porta ao sair. O cômodo era amplo e claro, a porta dupla da sacada estava aberta, deixando a brisa amena entrar, e, deitada na grande cama, estava uma mulher de cabelos brancos e olhos rosados. Ela abriu um sorriso doce quando os viu e logo em seguida abriu os braços magros.
— Será que posso ganhar um abraço dos meus lindos netinhos?
Nem Shoto nem Fuyumi tiveram como contrariar a mulher de aparência frágil e gentil. Mas quando os irmãos se aproximaram dela, um de cada lado da cama, e deixaram que a velhinha lhes rodeasse o pescoço, foi um abraço forte e firme que receberam.
Shoto sentiu-se atônito, não só pela força inesperada do abraço, mas também pela quantidade de amor que conseguiu sentir com o simples gesto.
Foi como estar em segurança pela primeira vez. Fuyumi também o abraçava com carinho quando tinha a oportunidade, mas não era a mesma coisa. Ela era uma alguém na mesma situação de Shoto, com a única diferença de que em vez de ter sido aprisionada, havia sido exilada pela família. Quando buscavam apoio um no outro eram como dois seres perdidos, tentando encontrar um lugar para ficar. O abraço da avó fazia parecer que tinham finalmente encontrado esse lugar.
Imediatamente se sentiu triste pela doença que a levaria em alguns meses, mas também ficou feliz por ter conseguido vê-la antes disso.
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Fixação
Fanfiction"Que ficasse bem claro: Shoto Todoroki não estava mais disponível e se alguém tinha interesse em Izuku Midoriya teria que rivalizar com ele"
